Colaboração entre comunidades, empresas, filantropia e governos é apontada como chave para inovação em adaptação climática no Brasil
Empresas do Bem
A adaptação climática nas cidades brasileiras depende menos da criação de novas soluções, mas da criação de uma infraestrutura de colaboração e inovação multissetorial que conecte iniciativas já existentes para colaborarem no preenchimento de lacunas, lideranças locais, fontes de financiamento em torno de objetivos comuns, e políticas públicas.
Essa é a principal conclusão de relatório da Plataforma de Ação Colaborativa, iniciativa da BMW Foundation analisada pelo Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC). O documento sistematiza os aprendizados do primeiro ciclo da Plataforma, criada para enfrentar desafios da urbanização e das mudanças climáticas por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SBN) e inovação local a partir de uma abordagem orientada à adaptação climática justa.
O estudo parte de um diagnóstico: o crescimento urbano acelerado, somado aos impactos da crise climática, tem ampliado desigualdades e vulnerabilidades, sobretudo em periferias e áreas de risco. No Brasil, onde 87,4% da população vive em áreas urbanas, os municípios ainda enfrentam limitações de infraestrutura e baixa capacidade de resposta a eventos extremos, como enchentes, ondas de calor e escassez hídrica.
Nesse cenário, a Plataforma atua como um ecossistema colaborativo que busca integrar diferentes atores e potencializar soluções já em curso.
“Há iniciativas relevantes nos territórios, mas elas precisam de financiamento, articulação política e conexões para ampliar seu impacto”, afirma Heiko Spitzeck, professor e diretor do Núcleo de Sustentabilidade da FDC.
Além do trabalho direto com soluções locais, a iniciativa está estruturada em quatro frentes sistêmicas: fortalecimento do protagonismo local, com foco em lideranças comunitárias; financiamento inovador, para ampliar o acesso a recursos climáticos; advocacy e políticas públicas, com inserção das SBN na agenda institucional; e comunicação e conhecimento, voltada à disseminação de boas práticas.
Na prática, a Plataforma opera por meio de grupos de especialistas, apoio a projetos em andamento através de uma perspectiva de portfólio, e ações como capacitação técnica e visibilidade e articulação internacional. Entre os casos apoiados estão o Observatório das Baixadas, que utiliza ciência cidadã para mapear vulnerabilidades climáticas na Amazônia; a Fundação Grupo Boticário, com atuação em soluções baseadas na natureza; e o RegeneraRS e Coalizão, iniciativa criada após as enchentes no Rio Grande do Sul com foco em reconstrução resiliente.
O relatório aponta ainda dois principais entraves para a expansão dessas soluções: acesso a financiamento e articulação política. A partir desse diagnóstico, foi desenvolvido o estudo “Adaptação e Periferias: Estratégias para um Financiamento Justo”, que propõe caminhos para ampliar o acesso de comunidades periféricas, negras e indígenas a recursos climáticos.
Na frente de advocacy, a Plataforma também avançou na elaboração de uma nota técnica que propõe um conceito brasileiro de Soluções Baseadas na Natureza, incorporando aspectos como justiça climática, diversidade territorial e valorização de saberes tradicionais e entregue ao Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas.
Outro resultado destacado é a geração de sinergias entre iniciativas participantes, com desenvolvimento de projetos conjuntos, fortalecimento institucional e maior visibilidade internacional, incluindo participação em conferências climáticas.
Para Spitzeck, o diferencial da iniciativa está na capacidade de articular esforços já existentes.
“O valor está em conectar atores e fortalecer, de forma colaborativa, soluções que já oferecem respostas concretas para os desafios urbanos e climáticos”, afirma.
A expectativa é que os próximos ciclos ampliem a capacidade de identificar, acelerar e escalar iniciativas, fortalecer mecanismos de financiamento e incidência política e formação de governança local. O objetivo é contribuir para cidades mais resilientes, inclusivas e sustentáveis
