O que uma criança não indígena quer saber sobre a cultura indígena?

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A padronização da vida humana e a perda da sociodiversidade são resultados igualmente notáveis, ainda que destrutivos e indesejáveis. (MORIN; DELGADO, 2016, p. 39)

Há algumas semanas assisti, com estudantes de doze anos de idade, a uma aula dada ao ar livre, por indígenas Fulni-ô – de Pernambuco.

O melhor de quando a gente desocupa o centro de uma sala de aula é que a gente tem tempo para se encantar com o processo de aprendizagem, a gente tem tempo de aprender sobre o que a criança realmente sabe e o sobre o que ela está interessada em saber.

Aquelas crianças não poderiam aprender mais e melhor que, diretamente, da fonte. Um indígena falando sobre o viver do índio, sem que sua voz fosse roubada pelo branco, pelo colonizador, pela letra escrita.

As crianças se comportaram de maneira tão respeitosa que era de emocionar! Uma delas veio me perguntar se não era falta de respeito perguntar sobre a cor da pele dos indígenas. Queria saber se todo índio tinha aquela cor. Outra perguntou sobre a pintura, queria saber se, diariamente, eles se pintavam ou se era só para as festas. Queriam saber sobre a função do cacique, do pajé e como eles eram eleitos. Perguntaram se há olimpíada entre os índios.

Algumas perguntas retratavam muito do momento e do universo destas crianças de escola privada. Queriam saber sobre como usam as armas, sobre a caça e sobre sua gastronomia.

Perguntaram sobre qual seria a maior ofensa dirigida a eles. Momento de resposta emocionada. De acordo com o índio ali presente, a maior ofensa era que se duvidasse de que ele era índio. Há gente que põe isso em dúvida porque o índio aparece vestido no aeroporto, porque usa celular.

Você é índio de verdade? Eu me sinto ofendido porque somos vistos como inferiores porque falamos mal o português. Que vergonha podemos ter disso se os demais é que falam língua emprestada?

Esta é a típica pergunta soco no estômago.

As crianças pareciam muito curiosas por saber sobre o idioma dos indígenas e daí saíram com uma informação impactante:

Nosso idioma é, realmente brasileiro, o que vocês falam, é língua emprestada. Seria muito bom que vocês pudessem aprender a língua nativa, que é a nossa.

Muita gente grande nunca tinha pensado sobre isso!

Para mim, a pergunta, ou melhor, a melhor sequência de perguntas, a que retrata a leitura de mundo da criança, seus aprendizados, sua admiração pelo aprendido, o desenvolvimento imediato de sua empatia, é a seguinte:

A gente pode ter passaporte e ir visitar a tribo indígena, e a gente pode se naturalizar indígena, ter cidadania indígena?

Transcrevo, aqui, algumas das perguntas que as crianças fizeram. Nota-se, em cada uma delas, como todos estavam envolvidos na dinâmica, como estavam sedentos por estes conhecimentos. Também conseguimos ver que nossos estudantes ativaram seus conhecimentos de mundo, discursos de família e aproveitaram a oportunidade até para desconstruir algumas certezas anteriores. Não acho que poderíamos dar conta de tudo isso em um contexto de aula. Esta vivência foi singular e transformadora.

  1. Sempre viveram na mata?
  2. Qual o significado das pinturas que levam no corpo?
  3. Fazem estas pinturas todos os dias ou somente para rituais?
  4. Quanto tempo as pinturas duram?
  5. De onde tiram as tintas para se pintar?
  6. Usam alguma pintura de proteção?
  7. Normalmente, que comida comem?
  8. Qual o significado do cocar? Do que ele é feito?
  9. Vocês têm aparelhos eletrônicos? Sabem usar a tecnologia?
  10. A tecnologia interfere na preservação da cultura indígena?
  11. Qual a função do cacique?
  12. Quem é o pajé e o que ele faz?
  13. As crianças indígenas aprendem português?
  14. Vocês se vacinam?
  15. Há escola na tribo?
  16. Há hospital para quando vocês ficam doentes? Tomam remédios ou só ervas?
  17. As danças existem para momentos especiais? Que momentos?
  18. Existe olimpíada indígena?
  19. Ainda há disputa por território?
  20. Que armas usam para a caça?
  21. Na tribo, há uma casa para cada família ou vivem todos juntos?
  22. Quando estão só entre vocês, que idiomas falam?
  23. A família de vocês é composta somente por indígenas?
  24. De que são feitos os instrumentos de caça?
  25. Quais são os animais mais fáceis de caçar?
  26. Quais são os animais de poder?
  27. Se alguém de fora do país quiser ser indígena, como vocês, pode?
  28. Vocês bebem bebida alcoólica ou fumam? As crianças também fumam?
  29. Existe indígena branco? (antes de fazer esta pergunta a criança veio falar comigo para ver se fazer esta pergunta representaria uma falta de respeito, uma ofensa/ racismo, mostrando uma grandiosa empatia!)
  30. Qual seria a maior ofensa a vocês?

Eu também fico com a pureza da pergunta da criança…

 

Referências e sugestões para avançar na temática:

MORIN, Edgar; DELGADO, Carlos Jesus. Reinventar a educação: abrir caminhos para a metamorfose da humanidade. Tradução de Irene Reis dos Santos. São Paulo: Editora Palas Athena, 2016.

Fundação Joaquim Nabuco – Índios em Pernambuco. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/>. Acesso em: 23/05/2019

Povos indígenas de Pernambuco – UFPE. Disponível em: <https://www.ufpe.br/>. Acesso em: 23/05/2019

Fundação Nacional do Índio. Disponível em: <http://www.funai.gov.br/>. Acesso em: 23/05/2019.

Educação indígena. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/>. Acesso em: 23/05/2019.

BRASIL, Lei nº LEI Nº 11.645, DE 10 MARÇO DE 2008. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília: Ministério da Educação, 2003. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/>. Acesso em 23/05/2019.

Revista Leetra Indígena. Disponível em: <http://www.leetra.ufscar.br/ > Acesso em: 23/05/2019.

ONU Brasil – indígena. Disponível em: < https://nacoesunidas.org/>. Acesso em: 23/05/2019.

2019 – Ano Internacional das Línguas Indígenas. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/>. Acesso em: 23/05/2019.

 

Irene Reis dos Santos

É bacharel e licenciada em letras - Português e Espanhol pela FFLCH - USP, especialista em tradução, pesquisando, no mestrado em Ciências da Educação, sobre participação de estudantes na comunidade por meios de Grêmios. Atualmente, leciona espanhol no Instituto Cervantes, contribui com editoras e é diretora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação (coreduc.org), entidade do terceiro setor que fomenta parcerias em prol da educação pública. Irene acredita que as vivências interculturais e a aprendizagem baseada em projetos de vida em comunidade são a chave para o complexo desenvolvimento da sociedade planetária.

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