Escala 6×1 adoece trabalhadores e reacende debate sobre jornada no Brasil

Políticas Públicas
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Especialista afirma que jornadas exaustivas como a escala 6×1 afeta a saúde física e mental dos trabalhadores e ampliam desigualdades sociais e raciais

(Imagem gerada por IA)

Por Vitória Serrão

O trabalho costuma ser associado à produtividade e à remuneração salarial. Mas, quando o debate envolve jornadas de trabalho, quais outros fatores devem ser considerados para compreender os impactos na vida e na saúde de quem sustenta essa lógica: o trabalhador?

No Brasil, a última grande mudança na jornada de trabalho aconteceu há quase 40 anos. Em 1988, a Constituição Federal reduziu a carga horária semanal máxima de 48 para 44 horas. A alteração permanece em vigor até os dias atuais e que, diante dos debates sobre o fim da escala 6×1, reacende discussões sobre o tempo de descanso, saúde mental e qualidade de vida.

Em reflexão a essa realidade, o Observatório do Terceiro Setor entrevista o diretor-executivo da organização Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), Fransérgio Goulart, que discute o fim da escala 6×1 para além dos impactos econômicos, com foco na saúde e o bem-estar dos trabalhadores.

Trabalhar para viver e não viver para trabalhar

Uma pesquisa nacional realizada em 2024 pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, mostra que, para 48% dos brasileiros a qualidade de vida dos trabalhadores no país é regular. Entre os que se posicionaram nos extremos, 35% a avaliaram como ruim ou péssima, enquanto apenas 16% a consideraram boa ou ótima.

Os dados refletem o abismo na percepção da vida fora do trabalho e as desigualdades. Os trabalhadores apontam como os principais desafios para a melhora na qualidade de vida: valor do salário, deslocamento para o trabalho, condições de trabalho e duração da jornada.

Para Fransérgio Goulart, a discussão sobre o fim da escala 6×1 vai muito além dos impactos econômicos e deve ser compreendida como uma questão de saúde pública. Isso porque jornadas extensas e com pouco tempo de descanso estão associadas ao aumento do estresse, da fadiga crônica, dos acidentes de trabalho e do desenvolvimento de doenças físicas e mentais.

“A falta de tempo para lazer, atividade física, convivência familiar e cuidados pessoais compromete diretamente a qualidade de vida dos trabalhadores. Quando uma parcela significativa da população vive sob essas condições, os efeitos também recaem sobre o sistema de saúde, tornando o tema uma preocupação coletiva, e não apenas individual”, ressalta Fransérgio.

Além dos impactos na saúde, a participação social também fica comprometida. O diretor- executivo destaca que as organizações da sociedade civil observam que a escala 6×1 pode gerar desgaste físico intenso, aumento de problemas, distúrbios do sono e maior vulnerabilidade a doenças relacionadas ao estresse. Na saúde mental, são frequentes relatos de ansiedade, esgotamento emocional, depressão e sensação permanente de exaustão. 

“No âmbito familiar, a redução do tempo disponível para convivência afeta vínculos afetivos, dificulta o acompanhamento da educação dos filhos e limita a participação dos trabalhadores em atividades comunitárias e sociais. Em muitos casos, o trabalhador passa a viver em função do trabalho, sem condições adequadas de descanso e recuperação”, afirma Fransérgio.

As desigualdades sociais e os grupos mais afetados 

A desigualdade nos impactos da escala também evidencia a vulnerabilidade histórica de alguns grupos sociais no Brasil. Os mais afetados por jornadas exaustivas são trabalhadores de baixa renda e escolaridade, mulheres, em especial negras, chefes de família com dupla jornada e profissionais de setores operacionais e de atendimento contínuo.

(Imagem: Reprodução DMJRacial)

“A redução da jornada está diretamente ligada à promoção da justiça racial. No Brasil, trabalhadores negros e moradores de favelas estão concentrados, de forma desproporcional, em setores precarizados, que apresentam jornadas mais longas, menores salários e maior vulnerabilidade trabalhista”, afirma Goulart.

Quase 60% dos trabalhadores contratados pelo regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego, 58,38% dos empregados formais têm contratos que preveem entre 41 e 44 horas de trabalho por semana.

Segundo Fransérgio Goulart, isso demonstra que os impactos negativos do excesso de trabalho recaem de maneira mais intensa sobre grupos historicamente afetados por desigualdades estruturais. Nesse contexto, reduzir a jornada pode representar mais tempo para estudo, qualificação profissional, cuidados familiares e participação social.

Para falar de economia é preciso considerar a realidade de trabalho

No aspecto econômico, Fransérgio ressalta que trabalhadores saudáveis e com uma vida equilibrada tendem a produzir melhor. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que países com jornadas menores nem sempre apresentam menor produtividade, sugerindo que o desempenho econômico não depende exclusivamente do aumento das horas trabalhadas.

Para o porta-voz da IDMJRacial, o mundo do trabalho só existe por causa do trabalhador, logo a discussão tem sua materialidade da evidência e das experiências concretas de quem vive essa realidade.

“Estudos e projetos-piloto realizados em diversos países têm demonstrado que jornadas reduzidas podem manter ou até aumentar a produtividade em determinados setores, especialmente quando há melhor organização do trabalho e redução do absenteísmo e do adoecimento”, ressalta Fransérgio.

(Imagem gerada por IA)

Fransérgio Goulart também destaca que trabalhadores mais descansados tendem a apresentar maior engajamento, concentração e satisfação.

“Defendemos e reconhecemos que a implementação exige diálogo entre trabalhadores, empregadores e poder público contínuo, mas argumentam que a proteção à saúde e ao bem-estar deve ser considerada um investimento social e econômico médio e de longo prazo”, ressalta, Fransérgio.

O representante da IDMJRacial também ressalta que os direitos trabalhistas são resultado da luta direta da classe trabalhadora. Por isso, é importante considerar com atenção a realidade do trabalhador, principal afetado com as decisões públicas.

“Debates sobre jornada de trabalho, saúde, qualidade de vida e combate às desigualdades afetam diretamente o cotidiano de milhões de pessoas e, por isso, merecem ampla participação da sociedade. Informar-se, acompanhar as discussões e contribuir para a construção de políticas públicas mais justas e antirracista fortalece o enfrentamento as desigualdades estruturais e ajuda a promover condições de trabalho mais dignas.”

O diretor-executivo Fransérgio Goulart finaliza afirmando que uma sociedade mais equilibrada depende da garantia de direitos, do respeito à saúde dos trabalhadores e da redução das desigualdades sociais, raciais e de gênero.

Conheça a DMJRacial

A Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial é uma organização que atua com ações de enfrentamento à violência de Estado. Buscando debater Segurança Pública na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, a partir da centralidade do racismo e o enfrentamento aos privilégios da branquitude.

A estrutura racista do Estado define as diferentes faces do genocídio para populações negras de periferias, subúrbios e favelas. Nossa atuação territorial é desenvolvida buscando a construção de políticas de segurança pública pautadas na vida, na garantia do direito à memória para vítimas e familiares da violência de Estado com centralidade no enfrentamento ao racismo estrutural e reivindicação por justiça racial. 

Saiba mais: https://dmjracial.com/