Na Venezuela, população idosa vive com aposentadoria de R$ 7

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Com sistema previdenciário semelhante ao do Brasil, a Venezuela não consegue sustentar sua população idosa devido à baixa contribuição e a constante desvalorização de sua moeda

Foto: Adobe Stock | Licenciado

Por: Mariana Lima

Norma Mujica, de 67 anos, viu sua aposentaria que equivalia a R$ 925 ao mês ir para apenas R$ 7 devido à contínua desvalorização do bolívar, a moeda venezuelana.

Ela começou a receber o valor ainda em 2000, após sofrer um acidente vascular cerebral no emprego. Ela conseguiu voltar a falar e andar com a ajuda de uma bengala, mas estava incapacitada para retornar ao emprego.

O Estado concedeu a aposentaria por invalidez, antecipando sua aposentadoria por velhice. O valor permitia que cobrisse todas as suas necessidades básicas.

Em 1999, o então presidente Hugo Chávez promoveu uma reforma da Constituição que incluía a obrigação do Estado de pagar um salário mínimo que cobria as necessidades básicas das pessoas, e as aposentadorias seguiam essa mesma regra.

O sistema previdenciário na Venezuela é uma modalidade em que os trabalhadores que estão ativos contribuem com uma porcentagem de seu salário para pagar as pensões da população em idade de aposentadoria, semelhante ao sistema brasileiro.

Contudo, a contribuição atualmente é bem pequena, pois muitos trabalhadores, principalmente os mais qualificados, deixaram o país.

Outros fatores contribuem para que o sistema econômico falhe, como os salários baixos, a desvalorização do bolívar e o fato de boa parte da população estar no setor informal.

Desta forma, o custo das aposentadorias de 4,5 milhões de venezuelanos recai sobre o Estado. Mas as contas não fecham.

A principal fonte de renda da Venezuela é o petróleo, de onde vem nove em cada dez dólares que entram no país. E a extração vem caindo drasticamente desde 2017. O empobrecimento ainda se soma à maior inflação do mundo.

Há três anos, o Banco Central da Venezuela vem cortando continuamente a oferta de dólar, ao qual a população recorre para tentar poupar. Essa atitude faz com que o preço da moeda norte-americana suba muito.

Este colapso econômico fez com que a qualidade de vida da grande maioria dos idosos diminuísse violentamente, deixando-os altamente vulneráveis.

Assim, os bolívares que Norma recebe equivalem a pouco mais de R$ 7. Ela também recebe um adicional para aposentadoria e títulos que o governo distribui para tentar amenizar a deterioração.

Mas ao somar toda a sua renda, o que ela recebe por mês não chega a R$ 27, podendo comprar apenas um quilo de carne.

Contudo, suas prioridades não incluem a carne, e, sim, os remédios que toma diariamente para regular a pressão arterial.

Norma tem acesso aos remédios pelo sistema governamental de distribuição de medicamentos, mas nem sempre são entregues no prazo. Assim, ela guarda dinheiro para esse eventualidade.

Os médicos de Norma a alertam sobre a importância de regular a pressão arterial para minimizar o risco de outro derrame.

Mas, para chegar à farmácia, Norma precisa caminhar com sua bengala por quase um quilômetro e meio até uma estação de metrô – gratuito para idosos – tendo que passar por descidas íngremes que tornam a perda de equilíbrio fácil.

Além disso, precisa enfrentar calçadas com buracos e declives, que também estão cheias de vendedores ambulantes e sacos de lixo. Na volta para casa, a descida se tona uma subida que a obriga a parar para descansar diversas vezes.

Como se não bastasse a dificuldade em garantir os remédios, Norma depende exclusivamente das cestas básicas que o Estado distribui para pessoas de baixa renda para conseguir se alimentar.

Os poucos aparelhos eletrônicos que possui sofrem com as variações na voltagem da eletricidade e os cortes de energia, que já se tornaram recorrentes no país. Se não fosse a caixa d’água comprada anos antes, Norma passaria dias sem água ao longo da semana devido aos cortes.

Fonte: BBC Brasil News


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