Para sobreviverem, animais do Pantanal aprendem a pedir comida

Compartilhar

Com incêndios e seca, animais do Pantanal estão mudando seus hábitos para garantirem a sobrevivência. Há macacos que aprenderam a estender a mão para pedir comida

Macaco com a pata estendida; primatas aprenderam a ‘pedir comida’ aos humanos em meio à situação adversa no Pantanal/ Foto: Fundação Ecotrópica

Os incêndios criminosos que o Pantanal sofreu deixaram um rastro de destruição e fome para os animais. O bioma perdeu parte importante de sua superfície de água e, para piorar, vive uma seca histórica neste ano. Toda essa tragédia pode estar tendo efeitos nos hábitos dos animais que vivem ali – a começar pelos relacionados à oferta de comida disponível para eles.

“O fogo pode estar menos intenso (neste ano), mas a fome e a seca estão mais presentes”, diz à BBC News Brasil Ilvanio Martins, presidente da Fundação Ecotrópica, que gerencia quatro reservas ambientais no Pantanal – uma delas praticamente inteira consumida pelas queimadas no ano passado.

“A fome não é tão escandalosa quanto o fogo, mas seu efeito é ainda mais devastador. Ela é severa e silenciosa. E afeta toda a cadeia (ecológica). A árvore que queimou não floriu; as que floriram não germinaram tantas sementes, e daí conseguem alimentar uma quantidade menor de pássaros e roedores”, ele relata.

Segundo Jorge Salomão, veterinário da organização Ampara Animal Silvestre no Pantanal, muitos animais haviam tido sucesso em se adaptar ao ambiente após os incêndios do ano passado, deslocando-se e migrando para outras áreas do bioma. Mas, como a seca continuou, as opções de alimentos foram ficando cada vez mais escassas.

Ilvanio Martins conta que, em uma de suas visitas recentes a campo, em setembro, se deparou com “animais debilitados, perambulando”.

“Quando esses animais não encontram a água que antes estava ali, eles se desorientam.”

Além disso, nos pontos em que a água deixou de fluir com a mesma intensidade de antes, os peixes não conseguiram se reproduzir no mesmo volume, ele explica. Portanto, deixaram de ser fonte de alimentos para as aves.

Segundo Martins, a consequência é que parte dos animais precisou mudar de hábitos para obter comida. Alguns passaram a “furtar” alimentos de cozinhas e restaurantes ou de locais dos quais antes não ousariam se aproximar.

Outros passaram a comer alimentos diferentes dos que normalmente comeriam. “Vimos macacos e periquitos comendo manga verde, que não seria parte da dieta deles.”

Macacos passaram, também, a estender a mão a humanos, pedindo comida – “como se fossem mendigos”, diz Martins -, porque descobriram que são capazes de conseguir alimentos dessa forma.

Ao verem a comida ofertada pelos humanos, “os animais chegam com uma voracidade alarmante, com o desespero da fome”, diz Graça, que é técnico da organização GRAD (Grupo de Resgate de Animais em Desastres).

De janeiro de 2020 até meados deste ano, as queimadas haviam destruído 3,8 milhões de hectares nesse bioma, afetando ao menos 65 milhões de animais vertebrados nativos e 4 bilhões de invertebrados, aponta um estudo publicado em junho por pesquisadores das organizações ambientais ICMBio, PrevFogo/Ibama e Embrapa Pantanal, feito com base na densidade das espécies presentes nos locais afetados. Esses animais sofreram tanto impacto direto – como ferimentos ou morte – quanto indireto, pela perda de seu habitat.

Fonte: BBC Brasil