Quando o Tapete Some: Lições da crise da USAID
Direitos Humanos
Por Carla Glufke Reis da Nóbrega
O destino da USAID tem muito mais relação com a sustentabilidade das ONGs no Brasil do que podemos supor à primeira vista.
Entre os diversos decretos assinados por Donald Trump após sua posse em janeiro, um dos mais impactantes para o setor da filantropia foi o anúncio do possível fechamento da USAID, a maior agência de desenvolvimento internacional, responsável no ano passado pela destinação de 42% dos recursos globais voltados à ajuda humanitária.
A rapidez com que tudo aconteceu foi surpreendente. O site da organização saiu do ar da noite para o dia, os funcionários foram colocados em licença remunerada, e os expatriados foram chamados de volta aos EUA. Ainda não sabemos qual será o destino da USAID, mas esse processo colocou luz à fragilidade da sustentabilidade das ONGs e de programas sociais e governamentais que dependiam dessa importante agência internacional.
O decreto presidencial americano suspendeu toda a ajuda externa por 90 dias, congelando projetos que destinavam recursos para diversos países, incluindo programas ambientais no Brasil. Em Bangladesh, um país de 170 milhões de pessoas que recentemente atravessou uma guerra civil, a USAID financiava tudo, de vacinas a segurança alimentar. Na África do Sul, país com o maior número de pessoas vivendo com HIV no mundo, as clínicas de atendimento já estão fechadas.
O impacto dessa crise na cadeia da filantropia internacional será significativo, e novos atores deverão ocupar parte do espaço deixado pela USAID. No entanto, ainda é cedo para mensurar a magnitude dessas mudanças. O que já podemos afirmar é que os países mais pobres sofrerão os efeitos mais severos, uma vez que a interrupção de recursos compromete diretamente a continuidade de programas essenciais para as populações vulneráveis.
De forma geral, para as ONGs que prestam atendimento direto, a suspensão abrupta de financiamentos representa um verdadeiro pesadelo: interrupção de serviços, demissões, incerteza sobre o futuro e falta de perspectivas no curto prazo. O caso da USAID é inédito e demonstra que até mesmo as fontes de recursos mais tradicionais podem cessar repentinamente. O mundo, assim como o Brasil, reflete as decisões políticas de líderes em diferentes instâncias, e o que é assegurado hoje pode não estar disponível amanhã.
Quem capta recursos para o terceiro setor sabe que a realidade é essa. No entanto, mais do que nunca, precisa se estar preparado para que as transformações político-econômicas de um mundo dinâmico não comprometam programas sociais essenciais. Algumas estratégias fundamentais para mitigar esses riscos incluem:
- Diversificação das fontes de recursos, reduzindo a dependência de poucos financiadores e atraindo novos doadores;
- Desenvolvimento de projetos de geração de renda e de financiamento institucional, que possam contribuir para o custeio de parte das operações;
- Fortalecimento de parcerias locais, aumentando a resiliência e criando novas oportunidades de financiamento;
- Elaboração de planos de contingência, incluindo a constituição de reservas financeiras para emergências;
- Monitoramento contínuo de mudanças políticas, por meio do acompanhamento de fontes de informação, briefings governamentais e redes do setor;
- Atuação em advocacy, buscando influenciar decisões para assegurar que recursos nacionais e internacionais continuem financiando programas de impacto social.
Quando uma fonte significativa de financiamento é interrompida, pode levar anos para que uma organização social consiga restabelecer sua sustentabilidade. Por isso, a lição que o caso da USAID nos ensina é que precisamos estar constantemente alertas e preparados para as mudanças em um mundo dinâmico.
O primeiro passo para isso é investir em um planejamento estratégico sólido, que antecipe desafios e direcione a organização para caminhos sustentáveis. Afinal, o segredo não é prever o futuro, mas estar pronto para quando ele chegar.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
Sobre a autora: Carla Glufke Reis da Nóbrega é consultora, fundadora da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos e membra do comitê gestor do Instituto Museu da Pessoa.
