Resiliência para encarar revezes do posicionamento com propósito
Empresas do Bem
Por Alain S. Levi
Vivemos em um mundo em que as empresas são constantemente desafiadas a alinhar suas práticas e comunicações a valores claros e relevantes, com um propósito que não apenas define sua identidade, mas também direciona suas ações. O posicionamento com propósito se tornou mais do que uma tendência: é uma expectativa. Clientes, colaboradores e investidores querem ver empresas com valores autênticos, que não só falem sobre responsabilidade social e ambiental, mas que, de fato, pratiquem o que pregam. Porém, nem tudo é simples nesse caminho, e, muitas vezes, as empresas se deparam com obstáculos que desafiam a continuidade de seus compromissos. Esses revezes, no entanto, podem ser superados com resiliência.
Quando falo de resiliência no contexto empresarial, estou me referindo à capacidade das empresas de não apenas enfrentarem crises ou falhas, mas também de aprenderem com elas. Companhias que possuem um posicionamento forte e comprometido com um propósito enfrentam frequentemente uma espécie de teste de fogo: manter-se fiel a seus valores em tempos difíceis. A resiliência não significa ignorar os revezes ou fingir que não existem. Pelo contrário, ela se refere à habilidade de encarar as dificuldades, adaptar-se sem perder a essência e, mais importante, continuar caminhando na direção certa.
É importante refletir sobre como uma falha pode ocorrer justamente quando a empresa está fazendo a coisa certa. O propósito de uma marca, por mais genuíno que seja, pode não ser imediatamente aceito por todos os públicos. Pode ser que, ao se posicionar, ela enfrente críticas de um grupo, uma queda temporária nas vendas ou até um erro operacional que prejudique sua imagem. Porém, são esses momentos que testam a verdadeira resiliência. Quando o posicionamento é desafiado, é preciso encarar o erro com humildade e usar isso como uma oportunidade de aprendizado, sempre buscando a melhoria.
Essa resiliência é construída com transparência e ação concreta. Por exemplo, em situações de crise, muitas marcas que possuem um propósito bem estabelecido acabam sendo mais rápidas e mais eficazes em sua recuperação, porque já possuem um valor claro para guiar suas decisões. Em vez de reagir com medo ou insegurança, essas marcas podem se voltar para seus princípios e ajustá-los de forma estratégica, mas sem comprometer a autenticidade. Isso ajuda a gerar confiança e reconquistar a credibilidade do público, que percebe a sinceridade nas ações.
No entanto, é importante não cair na tentação de simplificar demais o processo de recuperação. A resiliência não é sobre voltar ao “status quo” ou simplesmente corrigir um erro de comunicação. Ela envolve uma transformação interna que, muitas vezes, passa por um processo de autoavaliação profunda. O que a marca aprendeu com o erro? Como isso pode ser traduzido em ações que fortalecem ainda mais o propósito? A resiliência verdadeira não se limita a contornar dificuldades, mas a usá-la como ponto de partida para construir algo mais robusto.
Vale lembrar que a resiliência também exige paciência. Os frutos de um posicionamento com propósito não vêm da noite para o dia. Eles são construídos ao longo do tempo, por meio de ações consistentes, de uma comunicação clara e de um engajamento genuíno com a sociedade e com as partes interessadas. As empresas que conseguem superar os revezes sem perder o foco em seus valores são aquelas que, no longo prazo, conquistam uma lealdade verdadeira por parte dos clientes e se tornam exemplos de sucesso no mercado.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
Sobre o autor: Alain S. Levi é fundador da Motivare Experiential Marketing, autor do livro Marketing sem blá-blá-blá: inspirações para transformação cultural na era do propósito e um dos apresentadores do programa Perspectiva, produzido pelo Observatório do Terceiro Setor.
