Qual a diferença entre “desenhando com” e “desenhado para”?

Políticas Públicas
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Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

 

Por Camila Jordan

Na semana passada eu estava escrevendo um feedback para um edital internacional quando o corretor automático sugeriu a seguinte mudança de “as soluções que estamos desenhando com favelas e comunidades” para “as soluções que estamos desenhando para favelas e comunidades”.

E antes de aceitar a correção da mudança de preposição quase automaticamente, como fazemos quase sempre quando o corretor faz alguma sugestão, eu parei e realmente li o que estava sendo proposto. Na hora dei um print e pensei: “preciso escrever sobre isto.” Então aqui estou, escrevendo sobre em uma coluna no fórum que debate o Terceiro Setor, um setor que existe para atender necessidades sociais, culturais e ambientais que nem o Estado nem o mercado privado conseguem ou querem atender.

A linguagem que usamos importa. A forma como nomeamos problemas e territórios revela escolhas políticas e valores, cada termo que escolhemos carrega a potência de moldar percepções, podendo reforçar estigmas ou abrir caminho para o reconhecimento e a empatia.

Por isso importa, até quando o corretor do computador acha que as soluções são desenhadas para as favelas, em vez de com as favelas. O corretor não percebe a distinção, talvez ele ainda não seja tão inteligente assim, e talvez ele esteja só corrigindo para a expressão mais corriqueira de desenhar X para solucionar o problema Y. Mas independentemente disso, conheço e trabalho diariamente com territórios para os quais poucas soluções são pensadas, e muito menos pensadas com eles.

Muito tem-se reclamado, demandado e debatido sobre as questões de segurança pública no Brasil, nomeadamente a falta dela. E as vozes que ecoam alto e forte raramente são as da favela e dos moradores e moradoras que sofrem com a violência diariamente.

No sábado, 07/06/25, uma operação policial da PM matou Herus Guimarães Mendes, de 24 anos, durante a festa junina no Morro do Santo Amaro, no Catete, Rio de Janeiro. Lendo as notícias sobre a tragédia senti, além de indignação e revolta sobre mais um jovem que morreu corriqueiramente devido à violência do estado brasileiro, novamente  muitas perguntas brotaram dentro de mim. Perguntas sobre como nos permitimos falhar continuamente como sociedade. Como seria uma cidade, uma urbanidade, uma política de segurança pública desenhada COM as comunidades e favelas mais afetadas por esta doença? Como seria uma política pública de segurança pública pensada na redução de desigualdades e inclusão?

Em alguns países vem nascendo a abordagem sobre a violência como um assunto de saúde pública e sobre uma ótica comunitária. Na Escócia e Colômbia, a violência passou a ser enfrentada como questão de saúde pública. Em Medellín, políticas de urbanismo social e cuidado coletivo ajudaram a reduzir drasticamente os índices de homicídio. Na Escócia, a criação da Unidade de Redução da Violência  trata a violência como uma epidemia, com foco na prevenção, apoio psicológico e justiça restaurativa,  os resultados levaram à queda de mais de 50% nos homicídios em uma década.

No Brasil, esse tipo de abordagem ainda está em construção, mas há avanços. O Ministério da Saúde tornou obrigatória a notificação de casos de violência em unidades de saúde, e cidades como Recife e Fortaleza têm iniciativas que integram políticas de saúde, assistência e segurança para proteger mulheres e juventudes periféricas. Mas precisamos de mais!

Tratar a violência como questão de saúde pública significa reconhecer que ela adoece territórios inteiros e que a resposta precisa ser estrutural, contínua e desenhada de forma coletiva e inclusiva. Se mais câmeras de vigilância, armas, muros, isolamento e segregação fossem a solução, não estaríamos onde estamos hoje.

Deixo aqui estas perguntas para todos nós:

Como seria o Brasil, como seria a nossa segurança pública, se as comunidades mais afetadas diariamente fossem incluídas? Se a responsabilidade fosse co- desenhada? Se os recursos fossem distribuídos adequadamente? Como então seriam estas nossas cidades?

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor

 

Sobre a autora: Camila Jordan é Urbanista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia. Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, atua com justiça habitacional e foi reconhecida pela Bloomberg Línea como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina.