Três Desejos para uma Cultura de Doação

Cultura de Doação
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Foto de Volodymyr Hryshchenko na Unsplash

 

Por Heloísa Garcia da Mota

 

Em seu ciclo de planejamento 2025, o Movimento pela Cultura de Doação nos convidou a responder a seguinte pergunta, logo de chegada: Qual seu desejo para a cultura de doação no Brasil?  A despeito da ausência de uma lâmpada e um gênio, elaborei três desejos, enquanto escutava uma gama de profissionais inspiradores trazendo sua experiência e suas expectativas para o futuro da doação no Brasil. 

Estávamos todos alinhados. Diversidade, pesquisas, comunicação, histórias, reconhecimento, reputação, influência em políticas públicas, aproximação do campo beneficiado,  a chegada e a compreensão sobre o cenário da doação nos rincões do país. Um Brasil com orgulho de ser doador e doando muito mais, com todo seu potencial. Ainda inspirada, quis falar sobre meus três desejos para inaugurar a nona temporada do Vozes, e quem sabe provocar mais gente a refletir e contar sobre suas próprias visões. 

Meu primeiro desejo é o da ousadia. O filósofo nigeriano Bayo Akomolafe, que destrincha em seu trabalho a necessidade da decolonialização da filantropia (introduzindo o conceito de parafilantropia), pede para que o campo se afaste de respostas pré-formuladas e tenha ambição de criar um ambiente de discussão que estruture de fato a possibilidade de mudanças emancipatórias. Não é o bastante olhar para a governança, a inclusão e a diversidade sem questionar os mecanismos que mantém a tensão colonialista do fluxo de capital filantrópico. Esta provocação de Bayo é também combustível para o artigo do criador do Presencing Institute e Teoria U, Otto Scharmer, sobre Filantropia 4.0, onde ele reitera que as formas tradicionais de doações já não dão mais conta dos problemas complexos e sistêmicos que precisamos enfrentar. Em seu artigo, Otto propõe o uso de mudanças transformativas de processos que focam na raiz do problema , como o caso da Lankelly Chase Foundation, que deu às comunidades afetadas o mandato para direcionar recursos conforme suas necessidades. Trata-se de uma filantropia com maiores desafios de mensuração de impacto e indicadores, com entregas e resultados em prazos mais longos, porém com soluções mais adequadas e ambiciosas às complexidades que enfrentamos, por exemplo, com a atual crise climática. 

O segundo desejo é o da visão estratégica. Usando de liberdade poética para repensar a metodologia do iceberg da cultura organizacional, sempre penso que a doação/ financiamento é a ponta do iceberg de uma organização capaz de consolidar uma visão baseada em propósito, habilidade para comunicá-lo com clareza e assertividade em forma de visão, realização e implementação de projetos que reforçam e corroboram sua visão e, finalmente, engajamento do ecossistema de atores necessários para que o propósito se cumpra. Há quem doe tempo, há quem doe conhecimento, há quem doe recursos financeiros.  A doação é uma consequência de um trabalho estratégico bem feito, bem implementado e profissionalizado, e não apenas do ato de vender bem um produto. 

E por fim, mas não menos importante, eu desejo a escuta para a sua incorporação em campanhas e comunicações eficientes que sejam capazes de mudar a percepção sobre doação,  financiamento e a razão de ser de organizações não governamentais no Brasil, em tempo de disputas narrativas acirradas.  Philip Kotler em sua obra “Marketing 4.0”, aponta que a importância do reconhecimento dos “nós de redes” em comunicações de influência. Ou seja, num mundo de muitas informações compartilhadas, a audiência tende a confiar mais em grupos sociais próximos do que num influenciador distante de sua realidade. De maneira muito similar, Jeremy Heimans e Henry Timms, em  “O Novo Poder”, propõe um sistema de retroalimentação para construção de narrativas que se baseia num olhar estratégico e segmentado para os públicos com os quais uma organização se relaciona, onde a proximidade do público interno, voluntários, parceiros, financiadores é o catalisador para a ampliação de uma ideia. O processo é refinado. Não é suficiente saber em quem você espera que sua mensagem chegue, é necessário pensar em como ela vai chegar, qual o canal e o porta voz que trazem maior confiança e que, potencialmente, inspiram uma mudança de comportamento e reação. Não se trata de falar a língua de quem domina a contranarrativa, mas de entender como ela ressoa e porque ressoa em quem a ouve e a repete.Tudo isso exige, além de escuta, estrutura, gestão de relacionamento e comunidades e um bocado de desapego. Não vamos contar boas histórias sozinhos, vamos precisar de muita diversidade em nosso barco em alto mar.

E com estes três desejos, abrimos a nova temporada do Vozes, que irá trazer ao longo dos próximos meses muitas falas, pensamentos, desejos, ambições, desafios e oportunidades para inspirar mais gente a contar suas histórias.
Por fim, deixo aos que acompanham a newsletter a mesma pergunta que respondi: Quais são seus desejos para a cultura de doação nos próximos anos no Brasil?  E deixo também a proposta real de conexão para que possamos realizá-los juntos.

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Sobre a autora: Heloísa Garcia da Mota é profissional executiva de comunicação, engajamento e mobilização de recurso, líder de Captação de Recursos na Climate Ventures e integrante do Movimento para uma Cultura de Doação

 

Movimento por uma Cultura de Doação

Movimento por uma Cultura de Doação (MCD), foi criado em 2013 como uma articulação ampla, formada por pessoas físicas e jurídicas que se organizam voluntariamente para promover a cultura de doação a favor de um país mais justo, menos desigual e mais democrático.