Lideranças comunitárias no centro da transformação dos territórios

Políticas Públicas
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Por Camila Jordan

 

Não existe transformação territorial consistente sem o protagonismo das lideranças comunitárias. Essa afirmação, embora recorrente no discurso do campo social, ainda é pouco incorporada na prática das políticas públicas, do planejamento urbano e mesmo de parte das intervenções do terceiro setor.

Nos territórios urbanos vulnerabilizados e historicamente marginalizados, essa ausência do Estado não se manifesta de forma isolada. Trata-se de contextos marcados pela sobrecarga territorial, na qual precariedades sociais, políticas, habitacionais, de infraestrutura, fundiárias, urbanísticas e ambientais coexistem e interagem de forma simultânea e cumulativa (SANTOS MELO, 2025). Essa sobreposição de carências não apenas soma problemas, mas produz desvantagens sinérgicas que incidem diretamente sobre corpos e comunidades específicas, restringindo drasticamente as possibilidades de vida digna e até mesmo de permanência no território.

Mesa: Vozes do Território durante o Lançamento do Panorama Climático em Brasília, Outubro 2025

É nesse cenário de abandono estrutural, cada vez mais agravado pela intensificação dos eventos climáticos extremos, que as lideranças comunitárias emergem como atores centrais de sustentação da vida, organização coletiva e resposta cotidiana às crises, operando onde políticas públicas e estruturas formais não chegam.

Com recursos escassos e, frequentemente, inexistentes, são elas, as lideranças comunitárias, na sua grande maioria mulheres, que sustentam o cotidiano dos territórios, organizam respostas coletivas às emergências, articulam redes de solidariedade, mediam conflitos e preservam a capacidade de ação comunitária. Operam no limite, mas seguem mobilizando pessoas, saberes locais e vínculos sociais para garantir condições mínimas de dignidade.

Experiências concretas no campo da habitação, da ação comunitária e da incidência urbana mostram que o fortalecimento do capital social comunitário não é um efeito secundário das intervenções: é o próprio fundamento de qualquer processo transformador. Confiança, organização coletiva, circulação de informação e capacidade de articulação institucional não se constroem sem presença territorial, escuta qualificada e corresponsabilidade.

Nesse sentido, organizações que atuam nesses territórios, como a TETO Brasil, entre outras, aprendem rapidamente que nenhuma metodologia se sustenta sem o reconhecimento da centralidade das lideranças locais. São elas que legitimam processos, abrem caminhos, tensionam abordagens externas e estabelecem as bases para que transformações sejam possíveis e duradouras. No caso da TETO, essa aprendizagem remonta ao seu surgimento, ainda em 1997, no Chile, quando a escuta atenta às demandas de moradores e lideranças redefiniu o foco da atuação inicial e estabeleceu uma lógica de trabalho baseada em diálogo, aprendizado mútuo e construção conjunta.

Bia Carvalho e Daiane Silva (Guardiãs do Território) com Laryssa Kruger (Insper Cidades) e Camila Jordan (autora, diretora na TETO Brasil)

Quando essa centralidade se materializa em espaços públicos e institucionais, seus efeitos tornam-se evidentes. Em 2025, diferentes arenas de debate ilustraram o impacto da presença direta de lideranças comunitárias: na SP Climate Week, um evento realizado no Museu das Favelas colocou a moradia no centro da agenda climática a partir da experiência de lideranças do Jardim Lapenna, integrantes dos Guardiões do Território, Bia Carvalho e Daiane Silva; no lançamento, em Brasília, do Panorama Climático desenvolvido pela TETO Brasil em parceria com o Insper, lideranças comunitárias de diferentes regiões do país ocuparam o mesmo espaço e tempo de fala que especialistas e representantes de alto escalão, colocando suas experiências territoriais em condição de igualdade no debate sobre urbanização, moradia e crise climática; e, em São Paulo, em um evento organizado com o FICA, Edite Vieira, liderança comunitária da favela City, encerrou uma mesa sobre moradia emergencial cobrando diretamente do poder público estadual maior participação de moradores e lideranças nos processos decisórios sobre territórios hiper vulnerabilizados — episódios que ainda são exceção, quando deveriam ser regra.

São episódios que não deveriam ser exceção, mas ainda são. Colocar lideranças comunitárias no centro, e não apenas como beneficiárias ou interlocutoras pontuais, implica uma mudança da lógica predominante. Trata-se de reconhecer seu papel político, garantir acesso a espaços de decisão, ampliar sua incidência sobre agendas públicas e permitir que falem em primeira pessoa sobre seus territórios, suas prioridades e, sobretudo, sobre suas propostas.

Edite Vieira, liderança comunitária da Favela City em São Paulo, falando durante o painel Habitação Emergencial em áreas informais e de risco, no Seminário Moradia e Clima, novembro 2025

Priorizar e viabilizar a presença de lideranças comunitárias em espaços institucionais está longe de ser simples ou trivial. Esses espaços, que funcionam como arenas de formulação de políticas públicas, seja nas capitais, seja em Brasília, não operam no campo do simbólico. A participação efetiva exige financiamento, articulação, cuidado e compromisso de longo prazo. Exige, sobretudo, o reconhecimento de que a disputa por políticas urbanas, justiça climática e direito à moradia não pode prescindir do conhecimento situado, da experiência concreta e da legitimidade que emergem dos territórios.

Fortalecer lideranças comunitárias é fortalecer o presente e o futuro das cidades. Não há política urbana justa, resposta climática eficaz ou agenda habitacional consistente que se construa à margem dos territórios.

Reconhecer esse protagonismo não é concessão: é condição para que ninguém precise seguir vivendo em um barraco com o piso de terra.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Camila Jordan

Urbanista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia. Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, atua com justiça habitacional e foi reconhecida pela Bloomberg Línea como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina.