Relatório inédito revela pressão crescente sobre abrigos de animais no Brasil e aponta urgência de políticas públicas baseadas em dados

Políticas Públicas
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Relatório Anual de 2025 - Medicina de Abrigos Brasil

Relatório aponta que abrigos de animais no Brasil estão sob crescente pressão, com mais entradas do que saídas. Em 2025, foram 4.349 entradas e 3.139 saídas. O cenário evidencia a urgência de políticas públicas focadas na prevenção do abandono

Em um país onde ainda não existem estatísticas oficiais consolidadas sobre o abandono de cães e gatos, um novo relatório nacional lança luz sobre a realidade dos abrigos e traz um alerta importante: o sistema de acolhimento animal no Brasil está sob pressão crescente.

A iniciativa Medicina de Abrigos Brasil – Infodados de Abrigos de Animais acaba de divulgar o Relatório de Transparência dos Dados de Abrigos de Animais – Análise de 2025, um levantamento que consolida, pela primeira vez em escala nacional, dados contínuos sobre a dinâmica populacional de cães e gatos em abrigos e lares temporários brasileiros.

“A cada semestre, centenas de animais a mais entram do que saem dos abrigos brasileiros. Isso revela um desequilíbrio estrutural que não pode ser resolvido apenas com adoção — ele exige políticas públicas de prevenção do abandono”, afirma Lucas Galdioli, cofundador da iniciativa.

Principais dados de 2025

4.349 entradas de cães e gatos (+13,1% em relação a 2024)

3.139 saídas (+26,3%)

Saldo positivo de 1.092 animais

295 abrigos ativos cadastrados, sendo 96 novos no ano

Na prática, isso significa que para cada animal que sai, 1,35 entram nos abrigos.

Mais do que um retrato numérico, o relatório revela um problema estrutural. A capacidade de resposta dos abrigos, mesmo com crescimento nas adoções, ainda não acompanha o ritmo de entrada de animais.

Para Galdioli, isso evidencia um limite claro do modelo atual: “Não se trata apenas de melhorar a saída dos animais, mas de reduzir a entrada. Enquanto a lógica for só responder ao problema, os abrigos vão continuar operando no limite. Precisamos atuar na origem: controle populacional, educação e políticas públicas estruturadas.”

Sociedade civil sustenta a proteção animal

O levantamento também evidencia o protagonismo do terceiro setor. A maior parte das instituições mapeadas é composta por abrigos privados e protetores independentes, enquanto a participação do poder público ainda é limitada.

Esse cenário reforça que, hoje, a proteção animal no Brasil é sustentada majoritariamente pela sociedade civil, muitas vezes com recursos escassos e alta demanda.

“Os dados mostram que o Brasil depende estruturalmente da sociedade civil para cuidar desses animais. Ao mesmo tempo, evidenciam o quanto o poder público ainda precisa se integrar de forma mais ativa e estruturada”, explica Galdioli.

Dados inéditos para um problema invisível

Além dos números absolutos, o relatório traz análises sobre padrões e comportamento da dinâmica populacional. Entre os principais achados está a influência de fatores sazonais, com picos de entrada no início do ano, especialmente em períodos como verão, pós-férias e carnaval.

O estudo também aponta avanço na qualidade e regularidade dos registros, indicando o amadurecimento da rede de instituições participantes.

Para os organizadores, esse é um dos principais marcos da iniciativa. “Pela primeira vez, começamos a enxergar padrões. O abandono deixa de ser um problema invisível e passa a ser um fenômeno que pode ser analisado, monitorado e enfrentado com base em evidências”, afirma Galdioli.

Dados como base para políticas públicas

O relatório reforça que a ausência histórica de dados estruturados é um dos principais entraves para o avanço da causa animal no Brasil. Hoje, grande parte das estimativas nacionais ainda se baseia em fontes indiretas ou metodologias pouco padronizadas.

Nesse contexto, a iniciativa se propõe a construir uma infraestrutura nacional de dados, capaz de subsidiar decisões mais eficazes. “Sem dados, não existe política pública consistente. O que estamos construindo é a base para transformar o enfrentamento do abandono animal em uma agenda estruturada, com planejamento, monitoramento e avaliação”, diz Galdioli.