Educar para compreender o mundo: por que a cidadania precisa estar no centro da educação?
Educação

Por Anne Wilians
O dia 28 de abril, reconhecido no Brasil como um marco para a reflexão sobre a educação, é uma oportunidade importante para ampliarmos o olhar sobre o que significa, de fato, educar.
Mais do que celebrar a educação como um princípio, esse momento nos convida a refletir sobre sua qualidade, sua intencionalidade e sobre o que ela efetivamente possibilita na vida das pessoas, considerando um país marcado por realidades diversas e desafios persistentes relacionados ao acesso, à qualidade e à equidade educacional.
Essa reflexão também precisa reconhecer um ponto muitas vezes pouco visível, que a educação não acontece apenas dentro da escola. Em diferentes territórios do país, organizações da sociedade civil contribuem diariamente para que esse direito se concretize. Seja apoiando o reforço escolar, articulando redes para garantir acesso e permanência na escola, atuando em casos complexos nos territórios ou orientando jovens sobre como conhecer e acessar seus direitos, essas organizações ampliam, de forma concreta, o alcance da educação e fortalecem sua presença na vida das pessoas.
Ao longo das últimas décadas, o Brasil avançou de forma importante no acesso à escola e na permanência de crianças e jovens na educação básica. Ainda assim, permanecem desafios relevantes quando observamos a aprendizagem, a formação integral e a capacidade de jovens compreenderem o mundo em que vivem.
Nesse contexto, me parece importante trazer uma reflexão direta e necessária, que educar não é apenas garantir acesso a conteúdos, mas criar condições e possibilidades para que as pessoas consigam interpretar a realidade, conhecer seus direitos, se reconhecerem como sujeitos de direitos e participar da vida em sociedade com autonomia e responsabilidade.
Para isso, é fundamental considerar as condições concretas em que as juventudes estão vivendo e se formando hoje. A experiência educativa não acontece de forma isolada. Ela é atravessada por fatores sociais, emocionais, econômicos e institucionais que influenciam diretamente a forma como jovens aprendem, se posicionam e constroem suas perspectivas de futuro.
Dados recentes ajudam a compreender esse cenário de forma mais ampla. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE em 2026, mostra que 28,9% dos adolescentes relataram tristeza recorrente e 42,9% afirmaram sentir-se irritados, nervosos ou mal-humorados com frequência. Esses dados indicam que uma parcela significativa dos jovens atravessa sua formação em um contexto de instabilidade emocional, o que impacta sua relação com a aprendizagem e com o próprio ambiente escolar.
Ao mesmo tempo, os desafios educacionais permanecem. Indicadores recentes mostram que muitos estudantes concluem etapas da educação básica sem atingir níveis adequados de aprendizagem, especialmente em áreas como a Matemática, o que limita a capacidade de leitura crítica da realidade e de tomada de decisão informada.
Esse cenário se torna ainda mais complexo quando consideramos fatores estruturais. Jovens negros e de territórios periféricos enfrentam, de forma desproporcional, maiores barreiras de acesso a oportunidades educacionais e estão mais expostos a contextos de vulnerabilidade social e violência.
Além disso, pesquisas recentes sobre juventudes no Brasil indicam baixa confiança nas instituições públicas e políticas, mesmo diante de um desejo de construir um futuro melhor. Esse distanciamento não aponta para desinteresse, mas para uma desconexão entre a vida cotidiana dos jovens e os espaços formais de participação.
Quando esses diferentes fatores se combinam, o desafio educacional ganha outra dimensão. Não se trata apenas de acesso ou desempenho escolar, mas da capacidade de formar jovens que compreendam o mundo em que vivem, confiem em referências institucionais e se reconheçam como sujeitos de direitos.
É nesse ponto que a educação para a cidadania deixa de ser um complemento e passa a ser parte essencial da resposta a esse cenário.
Educação para a cidadania como parte da qualidade da educação
A educação para a cidadania não deve ser compreendida como um complemento periférico, mas como parte integrante da qualidade da educação.
Eu repito todos os dias, por onde passo, que toda pessoa tem o direito de conhecer seus direitos. Mas esse direito não se realiza de forma automática. Ele depende de processos educativos intencionais, capazes de conectar informação, compreensão e ação.
Educar para a cidadania significa criar condições e possibilidades para que os jovens compreendam o funcionamento das instituições, reconheçam-se como sujeitos de direitos e saibam, na prática, como acessar políticas públicas, tomar decisões e participar da vida em sociedade.
Quando essa dimensão não é trabalhada de forma intencional nos diferentes espaços educativos e nas diferentes práticas do cotidiano educacional, existe o risco de que estudantes concluam sua trajetória escolar sem desenvolver plenamente as condições para exercer sua cidadania.
Esse processo tem implicações concretas. Quando os jovens compreendem seus direitos, ampliam sua capacidade de fazer escolhas mais conscientes, de permanecer na escola, de acessar oportunidades e de construir caminhos que impactam diretamente sua renda, sua autonomia e sua mobilidade social.
Esse entendimento dialoga com o que organismos internacionais vêm apontando.
A UNESCO, ao tratar da Educação para a Cidadania Global, destaca que a formação educacional deve incluir o desenvolvimento de valores, conhecimentos e habilidades relacionados a direitos humanos, justiça social, diversidade e participação.
Da mesma forma, estudos recentes da OCDE e pesquisas sobre juventudes na América Latina indicam que, em contextos de baixa confiança institucional, processos educativos que fortalecem a compreensão de direitos e a participação social contribuem para ampliar o engajamento e qualificar a vida pública.
Não se trata de uma solução isolada, mas de um conjunto de práticas que ajudam a aproximar indivíduos, instituições e sociedade de forma mais consistente.
Esse processo não se limita à escola e se fortalece na articulação entre educação formal e não formal, envolvendo organizações sociais, educadores e territórios, ampliando as possibilidades de aprendizagem e conexão com a realidade.
O que a prática tem mostrado
Ao longo dessa trajetória, um elemento tem se mostrado central: o encontro.
O encontro entre jovens e educadores. O encontro entre diferentes realidades. O encontro entre conhecimento e experiência. O encontro entre o direito e a vida concreta.
Foi a partir dessa compreensão que o Instituto Nelson Wilians escolheu, de forma intencional, o encontro como fio condutor do seu Relatório de Impacto Social, porque é no encontro que a educação ganha sentido, que os vínculos se constroem e que os caminhos passam a ser possíveis.
O encontro não é apenas um momento, ele é um processo que pode abrir perspectivas, fortalecer histórias de vida, gerar oportunidades e, em muitos casos, contribuir para transformações legítimas na vida das pessoas. Transformações que passam pela permanência na escola, pelo acesso a direitos, pela geração de renda e pela construção de uma vida com mais autonomia e dignidade.
Quando olhamos para os resultados do Instituto, o que vemos não são apenas números. Vemos histórias atravessadas por encontros que ajudaram a ampliar horizontes e a reorganizar possibilidades.
Esses aprendizados reforçam uma percepção importante, de que a educação para a cidadania não acontece de forma espontânea. Ela exige intencionalidade, método e continuidade ao longo do tempo.
É a partir dessa compreensão que o Instituto Nelson Wilians orienta sua atuação, desenvolvendo tecnologias sociais, metodologias e experiências educativas com foco na educação para a cidadania e na cultura da legalidade.
Um percurso que gera aprendizados
Em breve, o Instituto Nelson Wilians apresenta seu Relatório de Impacto Social, que reúne aprendizados construídos ao longo de sua trajetória.
Esse material não se limita à apresentação de resultados, ele também busca sistematizar evidências de campo sobre como processos educativos estruturados podem contribuir para ampliar o acesso a direitos, fortalecer a confiança nas instituições e qualificar a participação social.
Ao dialogar com evidências produzidas por organismos internacionais e pesquisas sobre juventudes, essas experiências ajudam a reforçar que a educação para a cidadania, quando trabalhada de forma intencional, pode produzir efeitos consistentes na forma como jovens compreendem e exercem seus direitos.
Celebrar a educação é assumir um compromisso coletivo
Celebrar o Dia da Educação é, acima de tudo, reafirmar um compromisso coletivo.
Em um país marcado por desigualdades e por desafios complexos, educar é também contribuir para que as pessoas compreendam seus direitos, desenvolvam confiança nas instituições e ampliem sua capacidade de participação na vida pública.
E aqui me parece importante afirmar com clareza que a educação para a cidadania não é apenas desejável, mas necessária.
Não basta garantir que jovens estejam na escola. É preciso que eles compreendam por que permanecer, o que podem construir a partir desse percurso e como o conhecimento pode se transformar em oportunidade, renda e mudança concreta de vida.
Educar para a cidadania é ajudar jovens a perceberem que aprender tem consequência, que conhecer direitos amplia possibilidades e que participar da vida em sociedade é parte do caminho para construir um futuro mais estável e mais digno.
Esse é um processo que exige tempo, articulação e consistência, e que depende da atuação conjunta de escolas, organizações sociais, educadores, famílias e diferentes atores da sociedade.
Sigo acreditando que a educação, em todas as suas formas, é um dos caminhos mais consistentes para ampliar oportunidades e fortalecer a vida em sociedade.
E que educar para a cidadania, de forma intencional, é parte essencial desse caminho.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
