Aumento dos diagnósticos de transtornos mentais exige reflexão crítica, afirma especialista
Direitos HumanosEm entrevista ao Olhar da Cidadania, a psicanalista Mariana Desenzi analisa o crescimento dos diagnósticos de transtornos mentais

Por Lucas Neves
Os diagnósticos em saúde mental nunca estiveram em evidencia como no contexto atual. Somente em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais, crescimento de 15,66% em comparação a 2024.
No entanto, junto a esses diagnósticos, também cresce uma tendência preocupante: a transformação de experiências humanas comuns em transtornos psicopatológicos.
Para abordar esse tema, o Olhar da Cidadania recebe a psicanalista Mariana Desenzi, mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Durante o programa, a especialista abordou o avanço das classificações de diagnóstico na psiquiatria e explicou como as mudanças em manuais de medicina contribuíram para a ampliação das categorias de transtornos mentais.
Uma visão crítica sobre o aumento dos diagnósticos de transtornos mentais
Mariana afirma que é preciso ter um olhar crítico quando se trata do atual cenário de diagnósticos de transtornos mentais no Brasil. Afinal, esse aumento “significa que temos agora algum jeito de dizer as formas de sofrimento que, historicamente, foram sempre nomeadas de outras maneiras.”
“Questionar o aumento do número de diagnóstico não é invalidar que essas pessoas sofram” — Mariana Desenzi
Para esclarecer sua visão, Mariana cita o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), documento de referência global para a classificação e diagnóstico de condições de saúde mental. O primeiro DSM, de 1952, tinha 128 categorias de diagnósticos. Já o mais recente, de 2013, possui 541 categorias.
A psicanalista lembra que nenhum outro campo da ciência obteve um aumento tão expressivo quanto esse, questionando se estamos tendo, de fato, os melhores instrumentos para diagnosticar.
“Hoje em dia, o discurso é muito medicalizante. Isso significa que a medicina — e o seu léxico — apreende as experiências subjetivas humanas e coloca sob esses termos”, afirma a psicanalista.
Para Mariana, a quantidade excessiva de termos e classificações sobre transtornos de saúde mental pode gerar problemas de diagnóstico.
“Ao invés de dizer que uma pessoa está passando por uma tristeza muito profunda. Hoje, com muita facilidade, a gente pode dizer que uma pessoa está com depressão”, ressalta. “Isso não significa que a pessoa não esteja de fato com depressão, mas como esse vocabulário é amplo e popularizado, é comum que as pessoas se identifiquem com os termos antes de chegar a profissionais adequado”.
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Sobre o Olhar da Cidadania
O Olhar da Cidadania é um programa do Observatório do Terceiro Setor, apresentado pelo jornalista Joel Scala, contando com as colunas de Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP e Paulo Artaxo professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP.
O programa vai ao ar todas às quintas-feiras às 13:30h, na Rádio USP (São Paulo: 93.7 FM / Ribeirão Preto: 107.9 FM). Também é possível conferir os episódios posteriormente no portal do Observatório.
