Projeto propõe novo olhar para a saúde e destaca o papel dos saberes tradicionais no cuidado

Direitos Humanos
Compartilhar

Iniciativa apresentada no Brasil ODS investiga práticas de cuidado de saúde construídas por comunidades e discute alternativas ao modelo biomédico tradicional

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Por Vitória Serrão.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que o conceito de saúde vai muito além da ausência de doenças, sendo compreendido como um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Entendendo que a saúde pode ser pensada a partir de múltiplos conhecimentos e práticas, torna-se importante reconhecer a riqueza e a potência dos saberes tradicionais e das ações desenvolvidas por comunidades frequentemente marginalizadas, que evidenciam que o cuidado ultrapassa os limites do modelo biomédico tradicional.

É nesse contexto que surge o projeto Cosmopolíticas do cuidado no fim do mundo, coordenado pelo professor José Miguel Nieto Olivar, da Faculdade de Saúde Pública da USP, com apoio da FAPESP. Em reconhecimento a essa diversidade de experiências, o projeto articula seis eixos de investigação, chamados de “parcelas” em diferentes territórios, promovendo o encontro entre saberes hegemônicos e não hegemônicos, instituições acadêmicas e coletivos populares, modos de viver e formas de resistência.

Em reflexão a essa realidade, o programa Brasil ODS debate, em seu novo episódio “Projeto Cosmopolíticas do Cuidado no Fim do Mundo visa fornecer cuidados plurais em saúde pública”. Apresentado pelo jornalista e fundador do Observatório do Terceiro Setor (OTS), Joel Scala, o bate-papo também contou com o apoio da colunista do OTS, Nina Orlow. A discussão está alinhada ao ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ODS 10 (Redução das Desigualdades) e ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes) e apresenta ações e descobertas do projeto voltadas ao reconhecimento de formas plurais de cuidado em saúde.

Saúde é construída por múltiplos saberes e políticas

Para o professor José Miguel Nieto Olivar, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), o projeto desenvolve pesquisas de base antropológica junto a diferentes grupos, redes e comunidades frequentemente classificadas no campo da saúde como populações em situação de vulnerabilidade. Segundo o pesquisador, um dos aspectos mais marcantes da experiência é reconhecer a potência dos conhecimentos produzidos fora dos espaços acadêmicos tradicionais.

“Uma das coisas que mais chama atenção é a força do conhecimento. A quantidade, qualidade e sistematicidade dos saberes que as pessoas constroem, muitas vezes de formas que nós, do campo acadêmico, não estamos preparados para reconhecer. Existe conhecimento sobre o corpo, sobre processos de adoecimento, sobre relações que produzem sofrimento e também conhecimentos sobre recursos de cura, proteção, defesa e prevenção que nem sempre são reconhecidos pelos modelos tradicionais de saúde”, destaca José.

A professora Laura Camargo Macruz Feuerwerker, também da USP, que atua na construção do SUS e na pesquisa em políticas públicas de saúde, destaca que o reconhecimento desses saberes historicamente invisibilizados varia conforme os contextos políticos e sociais.

“Existiram momentos de maior diálogo e momentos de quase completa negação. Atualmente vivemos um cenário mais tenso: por um lado, diferentes movimentos sociais e povos tradicionais têm afirmado seus saberes e demandado reconhecimento; por outro, observamos um processo de enrijecimento dos modelos de cuidado produzidos pelas próprias políticas de saúde”, explica.

Acompanhe o Brasil ODS

O Brasil ODS é uma produção audiovisual do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, com o apoio da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A iniciativa é voltada à divulgação científica e ao debate público sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.

O programa vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 15h na Rádio Brasil de Fato.

Confira o programa: