Quase 6 em cada 10 famílias de favela passam fome. E o Brasil está comemorando o fim da fome infantil cedo demais
Políticas Públicas

Por Carolina Marciale
O Brasil teve uma notícia boa neste ano. A insegurança alimentar grave entre crianças e adolescentes caiu de 2,5 milhões para 1,8 milhão de pessoas entre 2023 e 2024 – queda de quase 30% em um ano, o menor patamar desde que o IBGE começou a medir isso, em 2004.
Só que essa boa notícia não chegou na favela inteira.
Crianças matriculadas têm metade da chance de passar fome em casa. PNAE reforçado, Bolsa Família funcionando, escola como rede de proteção: a política pública funcionou onde conseguiu chegar.
Estudo do Instituto Desiderata, organização carioca dedicada a direitos de crianças e adolescentes, divulgado em abril de 2026, feito em três territórios (Maré e Caramujo, no Rio, e Coque, em Pernambuco), encontrou 60,7% das famílias em algum grau de insegurança alimentar. Quase o dobro da média nacional, que está em 24,2%. O motivo mais citado é preço: 43% dos entrevistados dizem que o alimento in natura está disponível na esquina, mas o orçamento não fecha.
O resultado é o que pesquisadores chamam de dupla carga da má nutrição: a mesma criança que passa fome também engorda, porque o que sobra no orçamento é ultraprocessado. No Coque, 34,7% das crianças de 5 a 10 anos já estão com excesso de peso. Fome e obesidade infantil, lado a lado, na mesma casa.
Quando o assunto é fome, não deveria existir direita, centro ou esquerda. Existe fazer o certo. E fazer o certo significa garantir que o próximo governo herde a mesma meta – não o mesmo discurso.
Mesmo assim, 54 milhões de brasileiros ainda vivem com algum grau de insegurança alimentar e 7 milhões passam fome todos os dias. Isso devia estar fora de qualquer disputa eleitoral: compromisso que sobrevive à troca de governo.
E tem um recorte que os números nacionais escondem bem: na pesquisa do Desiderata, 89% dos responsáveis pela alimentação das famílias são mulheres, majoritariamente negras. Fome, na favela, tem rosto, tem nome e quase sempre tem gênero.
A conta é simples de entender. O Brasil melhorou no agregado. A favela ficou para trás. Gente trabalhando nisso dentro do território não falta. Falta orçamento público chegando lá com a mesma força que chegou na média nacional.
O que precisa mudar não é complicado de listar: cesta básica com comida de verdade, indo além da caloria. Merenda escolar que as crianças aceitem comer, com escuta sobre por que tanta criança ainda recusa o prato da escola no Coque, por exemplo. E reconhecimento de quem já faz esse trabalho dentro da favela como parceiro permanente de política pública, e não só como socorro quando o Estado falha.
O Brasil tirou 700 mil crianças da fome grave em um ano. É uma conquista real. O próximo passo é levar esse mesmo resultado até onde a fome ainda é regra de vida, sem dar a vitória por encerrada.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Sobre a autora:
Carolina Marciale é jornalista e Diretora de Comunicação com mais de 20 anos de carreira entre agências, grandes marcas e organizações do terceiro setor. Atua há quase sete anos com estratégias de reputação, imprensa e gestão de crise para iniciativas voltadas à favela e à periferia – territórios que trata como campo de atuação permanente, não como causa passageira.
