No Brasil, a cada 25 horas, uma pessoa LGBT é assassinada

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Com 343 mortes, 2016 teve recorde negativo de violência envolvendo homofobia

Por Mateus Vasconcellos

O ano de 2016 foi marcado pelo recorde negativo de homicídios motivados por homofobia: foram 343 assassinatos de pessoas LGBT. Isso representa uma morte a cada 25 horas. O levantamento foi realizado pelo Grupo Gay da Bahia (GBB), projeto que há 37 anos tem como proposta divulgar dados referentes a crimes dessa natureza.

A última pesquisa realizada pelo poder público sobre o tema foi divulgada em 2016 pelo Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, mas usa dados de 2013. E não é só na ausência de estudos sobre o assunto que o poder público deixa a desejar.

“O Estado brasileiro ainda não criminalizou a homofobia. Falta uma postura que efetivamente torne a vida da população LGBT um bem jurídico”, explica o advogado Dimitri Sales, presidente do Instituto Latino Americano de Promoção e Defesa de Direitos Humanos.

Para Sales, a diminuição do preconceito está diretamente ligada a uma proteção jurídica da comunidade.

“Uma lei contra a homofobia tem importância singular. Isso, porque a sociedade é ‘avisada’ que o estado não vai tolerar discriminações direcionadas à população LGBT. Isso faz com que seja passado um recado para todos. Essa ideia não é apenas punitiva. Ela também serve como uma forma de educação sobre direitos iguais”.

Ele complementa, ainda, explicando por que isso influenciaria na diminuição dos crimes dessa natureza: “Delegar aos agentes do poder público, delegados, promotores e juízes, um instrumento que possa garantir a efetiva punição em casos que envolvam discriminação pelas diferenças sexuais é parte fundamental do processo”.

Para compreender como é ser homossexual no Brasil, o Observatório do Terceiro Setor entrevistou o jornalista Alexandre Putti, que assumiu sua homossexualidade aos 14 anos. A seguir, veja os desafios que ele já enfrentou pelo fato de ser gay e o que ele pensa sobre temas como família, violência e comunidade LGBT.

Observatório do Terceiro Setor: Como foi se assumir homossexual?
Alexandre Putti: Assumir-se é um processo longo, primeiro você precisa se aceitar, depois contar para a família e a sociedade. Há pessoas que passam a vida inteira sem “sair do armário”.

A primeira lembrança que tenho da minha vida homossexual foi quando tinha três ou quatro anos. Eu tenho a lembrança exata de gostar de um garoto da minha sala.

Aos oito anos de idade, tive outra experiência marcante. Tinha um “namoradinho” e em uma conversa ele perguntou quem seria o gay da relação. Por não existirem discussões sobre o tema na escola, nós achávamos que ser gay era igual a ser a mulher da relação.

Quando eu tinha 12 anos, meu tio – três anos mais velho – se assumiu gay para a família. Foi a primeira vez que minha mãe sentou para conversar comigo sobre o assunto e até então eu não sabia exatamente o que era ser gay. Depois dessa conversa, eu percebi que também era.

Observatório: Qual foi a reação da sua família quando você se assumiu?
Alexandre: Eu tinha 14 anos quando me assumi. Sentei com minha mãe para conversar sobre gostar de outros homens. A primeira reação dela foi de proteção, ela tinha um convívio grande com homossexuais e via os preconceitos e abusos que eles sofriam. Foi um processo demorado para ela aceitar que os tempos tinham mudado.

No início, eu tinha raiva da reação dela, mas hoje eu vejo que era uma forma de me proteger.

Minha mãe contou para toda a família, exceto meu pai.

Já em relação ao meu pai, foi mais complicado. Com 16 anos, eu furei a orelha e a reação dele foi falar “isso é coisa de viado” e eu respondi dizendo que era. Esse foi o momento em que assumi minha orientação para ele. Sua primeira atitude foi jogar minhas coisas pra rua e me mandar pra fora de casa.

Quase tive o mesmo destino que a maioria dos gays do Brasil. Sorte que eu tinha minha mãe e avó, que o enfrentaram para que eu ficasse.

Nossa relação atual é um lado sendo gay e o outro, homofóbico. Mas não conversamos sobre isso, temos uma relação bem fria.

Observatório: Você sofreu algum tipo de preconceito na escola?
Alexandre: Desde que me lembro como “gente”, sempre sofri bullying na escola. Eu não entendia por que apanhava, era xingado, humilhado, pois demorei a descobrir o que era ser gay. Eu me assumi na oitava série, e depois disso as pessoas começaram a me respeitar mais.

Assumir-se gay é um processo muito doloroso, mas é confortável ao mesmo tempo. As pessoas não precisam mais supor, pois já é algo presente. Acredito que a melhor coisa que fiz na escola foi me assumir, porque depois do choque as pessoas começaram a se aproximar e ver que eu não era um “bicho de sete cabeças”.

Observatório: Já sofreu algum tipo de agressão por ser homossexual?
Alexandre: Já sofri muita agressão psicológica. É constante! Porém, é necessário entender as diferenças existentes entre ser gay e parecer gay. A sociedade brasileira é extremamente homofóbica, mas o problema não é se você tem relacionamento íntimo com uma pessoa do mesmo sexo e sim se isso é demonstrado publicamente.

Eu tenho uma voz fina, nasalada e por muito tempo eu ouvi coisas como: “engrossa a voz”, “sua voz é horrível”, “você nunca vai conseguir nada com essa voz”. Fui até em fonoaudiólogo para tentar mudar meu modo de falar e parar de ouvir risadas só de abrir a boca para falar.

Também já apanhei por ser gay quando tinha 16 anos. Foi a única agressão física que sofri na vida, o que é motivo para se comemorar, pois tenho amigos que sofrem sempre.

Observatório: Você percebe diferença no modo como te tratam na sua profissão?
Alexandre: A capacidade do gay é colocada de lado sempre. Teve um caso em que eu queria cobrir a morte do ministro Teori Zavascki, mas meu chefe pediu para um colega hétero cobrir esse assunto e me incumbiu de falar sobre a gravidez da Beyoncé. Ali eu percebi como era estereotipado por ser e parecer gay.

Outro caso foi quando cobri uma coletiva de imprensa do governador de São Paulo. Quando comecei a falar, todos os presentes começaram a me encarar e rir. Não me entenderam como colega de profissão, com capacidade para estar ali.

O mercado de trabalho ainda não é inclusivo. Muitas vezes as pessoas nem falavam comigo, eu sempre almoçava sozinho. Na minha vida, nunca estive à vontade em um ambiente de trabalho. O mercado de trabalho é opressor. Para você ser bom, tem que ser perfeito e para isso não pode ser gay.

Observatório: Que análise você faz sobre a comunidade LGBT no Brasil?
Alexandre: A comunidade LGBT no Brasil é quase inexistente. Isso porque o homossexual consegue disfarçar, como disse anteriormente. Você só sofre preconceito se parecer gay em público. Eu poderia sofrer muito menos do que sofri não “saindo do armário”, mas vejo essa atitude com um simbolismo político importante. Entretanto, muita gente não se assume, pois sabe o tanto de sofrimento que existe nessa escolha.

Outra coisa que falta na comunidade LGBT é solidariedade, as pessoas não costumam se ajudar muito. Falta união, pensamento coletivo. Enquanto não nos juntarmos, nos entendermos como comunidade, não vai existir mudança, continuaremos em um país violento e preconceituoso.