Ele foi escravizado, se tornou advogado e desvendou ‘roubo do século’ no Brasil
Luiz Gama foi o único abolicionista que passou pela experiência da escravidão no Brasil. Após ter conquistado sua própria liberdade, ele se tornou escritor e o primeiro advogado negro do país.

Luís Gonzaga Pinto da Gama, mais conhecido Luiz Gama, nasceu em Salvador (BA), em 21 de junho de 1830. Filho da mítica Luíza Mahin e de um pai branco, do qual nunca foi revelado o nome, ele foi vendido pelo mesmo aos 10 anos de idade.
“Luiz Gama foi o único dos abolicionistas que passou pela experiência da escravidão. Eu costumo dizer que ele foi o primeiro escravizado que libertou”, conta Ligia Fonseca Ferreira, professora associada no Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista na obra do autor.
Iniciou seu letramento aos 17 anos. Autodidata, ele se tornou um caso único no Brasil, pois, ao chegar à maioridade, conquistou judicialmente a própria liberdade. “Luiz Gama tinha anseio pelo conhecimento e, antes de tudo, ele conquistou a palavra”, afirma Ferreira.
Gama se tornou patrono no campo da literatura, educação, política, imprensa e direitos humanos no Brasil; foi reconhecido como um dos melhores advogados que o Brasil tinha na época.
Em uma carta autobiográfica a Lúcio de Mendonça, Gama estimou que já havia libertado do cativeiro mais de 500 escravizados. Ele dedicou toda a sua vida à causa, mas morreu em 1882 em São Paulo, seis anos antes da Lei Áurea, sem ver seu sonho concretizado.
No dia 16 de fevereiro de 1877, um roubo misterioso chocou o Império brasileiro. Ao final do expediente do dia 16 de fevereiro, uma sexta-feira, o tesoureiro da alfândega do porto de Santos, no litoral paulista, guardou o dinheiro recolhido pela repartição naquele dia, trancou o cofre e foi embora para a folga do fim de semana. Até aí, tudo normal.
No início da semana, porém, uma notícia inundou os jornais do país: o cofre foi aberto durante a noite, e 185 mil contos de réis, uma fortuna que seria equivalente a R$ 20 milhões hoje, foram retirados do local sorrateiramente.
Quem teria entrado ali? Era um ou mais assaltantes? Quem planejou o roubo? Como o ladrão conseguiu abrir um cofre? Ele tinha a chave?
A trama do assalto, intrincada e surpreendente, ao estilo de obras de ficção como o filme Um plano perfeito, de Spike Lee, e a série La Casa de Papel, foi desvendada por Luiz Gama. Esse crime milionário é apontado por historiadores como o maior roubo conhecido no período imperial do Brasil, que durou de 1822 a 1889.
Gama defendia o principal suspeito do crime, o tesoureiro da alfândega Antonio Eustachio Largacha, um homem branco de família espanhola.
Ele era o único que tinha a chave do cofre da repartição, cujo dinheiro vinha de taxas pagas por cafeicultores, e foi preso sob a acusação de ter se apossado do dinheiro.
O enredo também envolveu acusações e depoimentos falsos, um cofre inglês comprado pelo governo que seria “impossível de ser arrombado”, um telegrama enviado na hora errada, um empreiteiro famoso e uma quadrilha de imigrantes alemães.
Toda essa história foi redescoberta pelo historiador Bruno Rodrigues de Lima, doutor em História e Teoria do Direito pelo Max Planck Institute, em Frankfurt, na Alemanha.
Em março, ele lançou mais dois volumes das Obras Completas de Luiz Gama (editora Hedra), projeto com 11 livros e 900 textos do advogado – mais de 80% deles inéditos.
Além de analisar mais de 200 depoimentos, o advogado investigou, escreveu e publicou a história em um suplemento pago do jornal A Província de S. Paulo (hoje, O Estado de S. Paulo), no dia 18 de novembro de 1877. Mas, até recentemente, sua participação no caso era desconhecida.
Na época, o impacto da publicação foi quase imediato: 45 dias depois, a Justiça revisou a condenação do tesoureiro pelo crime, que foi inocentado e solto da prisão.
“O valor roubado era altíssimo para a época”, diz o historiador Clemente Penna, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que não encontrou em pesquisas nos jornais da época nenhum roubo com valor superior ao da alfândega.
Ele calcula que os 185 mil contos de réis seriam o equivalente a R$ 20 milhões, mas ressalta que a conversão de réis para reais é apenas uma estimativa por conta da dificuldade de calcular a diferença em um longo período de tempo.
“Era um bocado de dinheiro, suficiente para comprar 150 trabalhadores escravizados, mais do que suficiente para tocar uma fazenda grande de café”, explica Penna, vinculado à Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).
“E o fato de o roubo ter acontecido na alfândega também é surpreendente, porque era um local com uma boa estrutura de vigilância.”
Para a polícia, que ouviu mais de 200 depoimentos, o assalto aconteceu assim: horas depois de guardar o dinheiro e ir embora, Largacha teria retornado ao prédio já vazio da alfândega e tentado abrir o cofre com uma chave micha, mas não teria conseguido e usado sua própria chave para finalmente retirar o dinheiro.
Depois, segundo a acusação, ele teria mexido nas telhas e espalhado uma série de objetos pelo local – tudo isso para simular uma invasão por alguém vindo de fora, situação que o tiraria do rol de suspeitos, porque, em tese, ele não precisaria de tudo isso para furtar o dinheiro.
Mas nada aconteceu como parecia, descobriu Gama. Os objetos encontrados na sala foram essenciais para entender como Gama resolveu o mistério.
A acusação de que Largacha seria o autor do assalto acabou prevalecendo em duas instâncias da Justiça, e o tesoureiro foi condenado a quatro anos de prisão. Alguns depoimentos apontaram diretamente para ele.
Um deles foi dado pelo serralheiro alemão Adolpho Sydow, ouvido na condição de perito.
Segundo ele, o modelo de cofre da empresa britânica Hobbs & Co., comprado pelo Império para guardar o dinheiro recolhido no porto, “era impenetrável”, nunca havia sido arrombado e só poderia ser aberto com a chave de Largacha.
Para Sydow, o ladrão da alfândega teria forçado a fechadura com uma chave micha, deteriorando as partes internas do cofre, mas, ao não conseguir atingir o objetivo, teria utilizado a chave original para acessar o dinheiro.
Luiz Gama contestou o laudo do serralheiro, afirmando que seu depoimento era uma “vergonha judiciária, deformidade legal, disparate forense e eterno atestado de imbecilidade”. E não só: o abolicionista afirmou que Sydow não apenas teria mentido, como estaria envolvido no crime.
Meses antes, o serralheiro havia sido contratado para fazer uma manutenção no cofre. Ou seja, segundo Gama, Sydow sabia muito bem como funcionava aquela caixa de aço de mais de três metros de altura.
Gama também contestou a fama de que o cofre inglês seria impossível de ser arrombado. Para isso, usou uma reportagem da Revista Industrial de Turim, na Itália, publicada em 1873, que relatou uma divertida história.
Em uma exposição industrial em Londres, narrou a revista, a fabricante prometeu um prêmio de 200 libras a quem conseguisse abrir o cofre sem a chave original. “A empresa julgava ter descoberto a pedra filosofal”, ironizou a revista italiana.
“Apareceu um serralheiro, que pouco se recomendava pelos modos, e menos ainda pelo trajo (roupa). Seguro de que obteria o prêmio no caso de êxito, deixou-se revistar. Levava consigo apenas alguns pedaços de arame”, contou a publicação, anexada ao texto de Gama.
Nos 30 minutos seguintes, o serralheiro abriu o cofre inglês com facilidade. “Achei que fosse coisa mais séria”, brincou o trabalhador.
Neste ponto da trama, é preciso apresentar outros personagens importantes: o engenheiro Luiz Manoel de Albuquerque Galvão, empreiteiro rico e conhecido em Santos, e seu sócio e amigo íntimo, o imigrante alemão Rodolpho Wursten. Na época, a dupla era responsável por uma obra no prédio da alfândega.
Segundo testemunhas, já na manhã da segunda-feira seguinte ao roubo, Galvão teria espalhado um boato de que Largacha seria o autor do crime.
Em seu depoimento, porém, o engenheiro se defendeu: “Não tenho por costume ocupar-me da reputação alheia, porque fui educado em princípios inteiramente opostos a isto”.
Foi seu amigo Rodolpho Wursten quem cometeu um erro crucial, notado por Gama, que causou uma reviravolta na história.
Além de empresário, Wursten era jornalista e correspondente do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.
Às 11h daquela segunda-feira, ele enviou um telegrama ao jornal dando detalhes do assalto, como a exata quantia levada. Porém, essas informações só foram descobertas pela polícia depois.
“Como Wursten poderia saber o valor do assalto antes mesmo da própria polícia tomar conhecimento do caso?”, questionou Gama em sua narrativa, notando que o horário do telegrama havia sido publicado no jornal.
Para o advogado, a resposta era simples: Wursten, seu amigo Luiz Galvão e o serralheiro e perito alemão Adolpho Sydow seriam parte da quadrilha que havia planejado e executado o roubo. Gama apontou ainda que o trio conhecia muito bem o prédio e como funcionava o cofre.
“Está demonstrado, com incontestável evidência, que entre os boatos espalhados pelo dr. Galvão e aquele celebérrimo telegrama, há uma filiação misteriosa, uma trama sibilina, um plano preconcebido, cujo resultado é: responsabilizar o tesoureiro Largacha pelo roubo da alfândega”, escreveu Gama.
O advogado também descobriu que, três dias após o roubo, Kronlsin e o empreiteiro Luiz Galvão “fugiram” de Santos em um navio com destino ao Rio de Janeiro.
O tesoureiro Antonio Eustachio Largacha ficou dez meses na cadeia. Só foi inocentado e solto depois de Luiz Gama publicar sua investigação.
Em seu texto, Luiz Gama falou pouco sobre o dinheiro e não demonstrou qualquer interesse em recuperá-lo.
Por outro lado, fez duras críticas à Justiça e ironizou a sociedade abastada da qual a quadrilha de assaltantes fazia parte.
“Está provado que os roubadores, os principais, são pessoas de elevada condição civil, de inteligência pouco vulgar, de trato social, dotados de atividade, amestrados e de incontestável influência e prestígio.”
Fonte: BBC Brasil
