A IA pode substituir o professor? Especialista analisa os limites da tecnologia na educação
EducaçãoPesquisadora analisa os desafios do uso da Inteligência Artificial (IA) na educação e destaca que o papel do professor continua central no desenvolvimento dos estudantes

Por Vitória Serrão.
As constantes mudanças tecnológicas vêm transformando profundamente não apenas processos de tomada de decisão, mas também o entendimento sobre o papel humano na mediação do conhecimento. Um exemplo é a Inteligência Artificial (IA), tecnologia com a capacidade de simular o raciocínio e comportamento humano.
Na sala de aula, além dos desafios estruturais da educação, os professores enfrentam a dúvida em como utilizar esse recurso de forma responsável e estratégica no processo de ensino. Ao mesmo tempo, especialistas discutem os impactos do uso excessivo dessas ferramentas entre estudantes, especialmente no desenvolvimento de competências como pensamento crítico, autonomia e capacidade analítica.
Em reflexão a essa realidade, o Observatório do Terceiro Setor entrevista a Diretora Pedagógica da Brink Mobil e Pesquisadora Associada ao NACE–Escola do Futuro da Universidade de São Paulo, Ana Karine Chiquim, que analisa as formas que os docentes podem incorporar a Inteligência Artificial com mais assertividade ao cotidiano educacional.
A IA como suporte pedagógico e não direcionamento
De acordo com a UNESCO, a Inteligência Artificial é uma tecnologia com potencial para adaptar ritmo, dificuldade e formatação do conteúdo para cada estudante, algo que pode representar inclusão para alunos com níveis distintos de aprendizagem e oferecer feedback mais rápido ao docente.
Segundo Ana Karine, o cuidado deve estar na aplicação desses conteúdos, pois os professores, na maioria dos casos, recorrem a ferramentas de IA de uso geral, as mesmas utilizadas para responder perguntas simples, realizar pesquisas ou auxiliar em tarefas diversas.
“O primeiro desafio surge justamente desse ponto: essas ferramentas não foram desenvolvidas especificamente para o contexto educacional. Por serem IAs generalistas, elas operam com diretrizes amplas e não seguem, necessariamente, parâmetros pedagógicos definidos, metodologias de ensino ou objetivos curriculares específicos”, ressalta Ana Karine.
Pensando nisso, a diretora pedagógica e pesquisadora reforça a necessidade da compreensão do docente como intermediador desse processo, por meio de uma análise crítica e adaptação antes da utilização do material em sala de aula.

Além disso, uma IA voltada para a educação precisa ser parametrizada de acordo com as diretrizes pedagógicas da Secretaria de Educação, garantindo que os conteúdos produzidos mantenham qualidade, coerência e alinhamento com os objetivos da rede de ensino.
“Quando falamos de uma rede de ensino, é fundamental que o uso da inteligência artificial esteja alinhado a parâmetros e diretrizes claras. Sem essa orientação, corre-se o risco de ampliar desigualdades já existentes, pois alguns professores utilizam a IA com frequência, outros não utilizam, e aqueles que utilizam podem fazê-lo de maneiras completamente diferentes”, completa a pesquisadora.
A importância do docente na mediação do ensino
Para Ana Karine, é importante haver padronização, pois sem esse cuidado a tecnologia pode gerar diferenças significativas na qualidade dos materiais oferecidos aos estudantes, reforçando desigualdades no processo de aprendizagem.
Destacando o papel humano nesse processo, a pesquisadora também ressalta que nenhuma inteligência artificial conhece profundamente a realidade de cada sala de aula, as necessidades específicas dos alunos ou os desafios de cada comunidade escolar.
“As IAs de uso geral trabalham com conhecimentos amplos, mas não possuem, por si só, o contexto específico de uma escola, de uma rede de ensino ou de uma comunidade. Elas não conhecem a realidade local, as características dos alunos, os objetivos pedagógicos da instituição nem as diretrizes curriculares que precisam ser seguidas”, compartilha Ana.
Pensando nisso, uma IA voltada para a educação deve incorporar informações sobre o contexto em que está sendo aplicada, pois quanto mais alinhada estiver às diretrizes da rede e à realidade da escola, mais relevantes e úteis serão os conteúdos produzidos.
Para Ana, o papel do professor continua sendo fundamental para adaptar, validar e aperfeiçoar aquilo que a tecnologia produz, garantindo que o resultado final seja pedagogicamente adequado e faça sentido para os estudantes.
“A IA não substitui o professor. Ela funciona como uma ferramenta de apoio à criação. O professor fornece os parâmetros, os objetivos de aprendizagem, os materiais de referência e o contexto da turma. A partir dessas informações, a IA pode sugerir atividades, planos de aula e conteúdos, mas a validação final deve sempre ser feita pelo educador”, ressalta.
O aprendizado com interação e presença faz toda a diferença
De acordo com a pesquisa “Perspectivas da Educação Digital da OCDE para 2026”, a tendência observada não é a substituição dos docentes, mas uma mudança nas tarefas repetitivas, como correção inicial, planejamento e organização de conteúdos, possibilitando mais tempo para mediação, acompanhamento e desenvolvimento crítico dos alunos.
Ana Karine também reflete que, apesar da ideia de uma educação totalmente personalizada por inteligência artificial ser muito interessante, é necessário um fator essencial: a interação contínua e frequente entre a IA e o aluno. Tendo em vista que, quanto mais a tecnologia acompanha o estudante, mais dados ela possui para compreender seu ritmo de aprendizagem, dificuldades e necessidades específicas.
“No entanto, o momento que vivemos na educação aponta para uma preocupação crescente com o excesso de tempo de tela. Há um esforço cada vez maior para equilibrar o uso da tecnologia com as interações humanas, as atividades presenciais e as experiências de aprendizagem fora do ambiente digital”, pontua.
A diretora pedagógica acrescenta que os alunos também podem se beneficiar da IA como uma ferramenta de apoio, funcionando como um tutor virtual para esclarecer dúvidas, revisar conteúdos ou complementar os estudos, mas sem substituir a necessidade e a importância do aprendizado em sala de aula.
“A verdadeira personalização da aprendizagem continua dependendo da mediação do professor, que conhece a realidade da turma, compreende o contexto de cada estudante e consegue interpretar aspectos que vão muito além dos dados que uma inteligência artificial consegue captar”, destaca a diretora pedagógica.

A partir da compreensão de que a IA é uma tecnologia que potencializa a capacidade do professor de personalizar o ensino — e não uma solução que substitui a relação pedagógica entre professor e aluno — Ana destaca que os educadores não devem ver a tecnologia como uma ameaça.
“Minha mensagem para os professores é que a inteligência artificial não veio para substituir o educador, mas para ampliar sua capacidade de ensinar. A tecnologia pode ajudar a economizar tempo em tarefas operacionais, apoiar a criação de materiais e oferecer novas possibilidades pedagógicas, mas ela não substitui aquilo que é essencial na educação: o olhar humano”, reflete Ana Karine.
De acordo com Ana Karine, o principal diferencial está no fato de que a Inteligência Artificial não conhece a história de vida dos alunos, não percebe emoções, não identifica mudanças de comportamento e não constrói vínculos. Esse continua sendo um papel exclusivo do professor, que no dia a dia compreende o contexto da turma, adapta estratégias, inspira, acolhe e dá significado ao processo de aprendizagem.
“O futuro da educação não será construído por professores ou por inteligência artificial isoladamente. Ele será construído por professores que saibam utilizar a inteligência artificial de forma ética, crítica e alinhada às necessidades reais de seus alunos”, ressalta.
A pesquisadora Ana Karine finaliza a entrevista refletindo que, da mesma forma que a calculadora não substituiu o ensino da matemática e a internet não substituiu os professores, a inteligência artificial também não substituirá o papel humano na educação. A tecnologia apenas possibilita mais tempo para que os educadores se dediquem justamente ao que nenhuma máquina consegue fazer: desenvolver relações, estimular o pensamento crítico, promover a criatividade e formar cidadãos
Conheça a Brink Mobil
A Brink Mobil é uma empresa brasileira com 38 anos de atuação no desenvolvimento de soluções educacionais. Seu portfólio inclui kits escolares, uniformes, laboratórios educacionais, playgrounds pedagógicos, instrumentos musicais e recursos alinhados à BNCC.
O grupo possui múltiplas unidades fabris no Brasil, incluindo a fábrica em Campina Grande do Sul (PR), que adota práticas sustentáveis como o uso de energia solar e a aplicação de materiais biodegradáveis, reforçando seu compromisso ambiental e social. Presente em todo o país, a Brink Mobil já beneficiou milhões de estudantes e professores brasileiros, consolidando-se como referência em inovação, qualidade e impacto positivo na educação.
