Flávio Canto: medalhista olímpico conta sua trajetória no Terceiro Setor
Direitos Humanos“Eu queria que todo mundo tivesse uma largada com a possibilidade de chegar no seu no melhor possível”, diz Flávio Canto, medalhista olímpico em Atenas

Por Andréa Wolffenbüttel
Para os muito jovens, ele já é uma lenda, entretanto, para aqueles que têm mais de vinte anos, a imagem de Flávio Canto, no pódio dos Jogos Olímpicos de Atenas, recebendo a medalha de bronze ainda é bem viva. Ele havia conquistado o ouro no Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, no ano anterior, e foi considerado o melhor judoca do mundo, em sua categoria, em 2006 e 2007. Flávio continuou lutando até 2012, mas, paralelamente, mantinha outra luta: contra a desigualdade e a injustiça social. O campeão, que sonha com um mundo no qual todas as pessoas tenham a possibilidade de alcançar seu máximo potencial, criou uma instituição para ensinar aos menos privilegiados que o caminho é possível. Longo e difícil. Mas um vencedor sabe cair, se levantar e seguir adiante.
A seguir, confira entrevista do Observatório do Terceiro Setor com Flávio Canto:
1. Depois de encerrar sua carreira como judoca, você decidiu criar uma organização social. Quando surgiu, em você, o desejo de desenvolver um trabalho social?
O fato de eu ter nascido e morado fora por um tempo, e depois ter entrado na seleção com 19 anos, me permitiu, desde cedo, comparar a realidade do Brasil com a de outros países mais desenvolvidos do ponto de vista social. Isso me motivou a querer transformar. Eu comecei com ações sociais pontuais. Nos treinamentos, a gente arrecadava alimentos, brinquedos e roupas, e distribuía no Natal. A gente fez isso alguns anos, e no começo era muito legal, mas em determinado momento me veio a sensação de que eu podia fazer mais. Aí comecei a pensar em algo mais transformador. Foi assim que, junto com dois amigos — um deles é o Luciano Gomide, até hoje junto comigo — surgiu a ideia do Instituto Reação. Inicialmente, era um projeto social ligado à alfabetização, mas o tempo foi passando, e ele não aconteceu porque era complicado. A gente tinha que aprender a alfabetizar. Então, depois da derrota numa Olimpíada na qual achei que fosse ganhar medalha, voltei e pensei que era uma boa oportunidade para experimentar como seria dar aulas de judô. Iniciei na Rocinha, e percebi o que acontecia. Ali, vi rapidamente que era uma transformação muito grande. Não só para quem aprendia, mas para mim também. Depois que eu percebi isso, nunca mais parei. O Instituto Reação foi crescendo e hoje é parte integrante de mim e de muita gente.

2. Seu instituto se chama “Reação”. Por que esse nome?
Em alusão a um momento pouco percebido no judô, mas que eu acho que é muito potente, que conversa muito com o que é a vida. É quando você cai e levanta. Como é que a gente reage? Como é que a gente se levanta? Eu acho que o judô tem a ver, especialmente, com a arte de levantar, e não de cair ou derrubar. Eu acho que é o que tem de mais bonito e forte no judô. O esporte vai educando a gente, desde cedo, para entender que não temos controle de muitos resultados na vida, tanto para o bom e para o ruim. A gente controla o treino, controla como chega na competição, mas não controla o resultado. Então, acredito que precisamos educar todo mundo para aprender a lidar melhor com cair, com perder. E isso é simbolizado pela reação, como a gente reage. Então não é sobre como não perder, é sobre como reagir quando estamos em dia ruim, quando perdemos algo que era importante, quando a expectativa e a realidade não são o que imaginamos. E numa caminhada longa, eu acho que quem reage melhor é quem chega mais longe. Reação é sobre isso, sobre educar os nossos alunos a perder, ensinar todo mundo a se preparar e reagir, quantas vezes for necessário.
3. Ao longo dos 20 anos de existência do seu instituto, qual foi o projeto que mais te realizou?
O Reação foi fundado em abril de 2003. Muita coisa aconteceu nesse tempo todo, desde alunos medalhistas em competições importantes, imponentes. Medalha olímpica, mundial e panamericana. A gente acompanhou alunos e alunas ganhando o mundo no tatame, e também outras histórias fora do tatame muito marcantes. Tem até uma aluna que vai apresentar um projeto seu em um congresso de Medicina em Chicago. Mas existem duas coisas que me marcam, me emocionam bastante. Uma é ver nossos alunos ocupando cargos de liderança no próprio Instituto Reação. Temos 160 colaboradores e boa parte deles é de ex-alunos. Para mim, é muito emocionante ver um ex-aluno – e alguns ex-alunos meus, porque nos primeiros 12 anos eu dava aula -, fazendo o que eu fazia com eles. Coordenando um programa de faixas pretas, e, de algum modo, conduzindo o barco para mim. É sempre muito emocionante. E tem outra coisa, que pode parecer menor, mas que me marcou muito. Nós tivemos um aluno, muito querido, que é como um filhão meu, que hoje dá aula de jiu-jitsu em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. Ele está super bem e, quando veio ao Brasil, convidou todo mundo para a comer num restaurante muito legal, aqui no Rio. No final da refeição, fiquei preocupado porque sabia que uma parte das pessoas teria dificuldade para pagar. Ao pedir a conta, o garçom me disse que ele já tinha pago para todo mundo. Eu até brinquei, dizendo que ele tinha virado sheik árabe, mas ele respondeu: “Não cara, eu sei que nem todo mundo aqui tem a possibilidade de pagar, e eu, felizmente, hoje tenho. Pra mim é um prazer”. Além disso, ele trouxe os melhores quimonos do mundo para os alunos. Um para cada um. Então, essas pequenas coisas mostram um pouco do que é ser faixa preta dentro e fora do tatame. Esses momentos para mim são muito fortes.
“Para mim, é muito emocionante ver um ex-aluno fazendo o que eu fazia com eles. Coordenando um programa de faixas pretas, e, de algum modo, conduzindo o barco” — Flávio Canto

4. Se você pudesse provocar uma transformação no mundo, qual seria?
Um fato que me entristece muito é ver a falta de possibilidade das pessoas de enxergarem o potencial que trazem dentro de si. E na maioria das vezes porque não tiveram nenhuma oportunidade de construir um repertório mais adequado para fazer uma boa escolha. O que a gente tenta fazer no Reação é oferecer mais repertório, tanto em sala de aula, como no tatame, desenvolvendo as habilidades socioemocionais, que a gente sabe que eles vão levar para a vida. É despertar a possibilidade desse potencial, muitas vezes adormecido, desconhecido, subestimado. É criar a possibilidade do potencial ser percebido pelos alunos e alunas, e eles se transformarem no que talvez jamais seriam, se não tivessem passado pelo Reação. O que mais dói é isso, é você ver tanta gente, que poderia ser tão mais, e acaba não sendo porque não teve nunca a possibilidade de descobrir isso. Então, eu acho que eu mudaria isso. Eu queria que todo mundo tivesse uma largada com a possibilidade de se descobrir e de se desenvolver e chegar no seu no melhor possível.

5. Você acha que existe um ambiente receptivo, no universo dos esportes, para apoio a projetos sociais?
Sim, acredito que existe um ambiente cada vez mais receptivo para apoio a projetos sociais no universo dos esportes. Muitas organizações e atletas têm reconhecido a importância de usar o esporte como uma ferramenta para promover mudanças sociais e comunitárias.
Projetos que oferecem oportunidades para jovens em situação de vulnerabilidade, promovem inclusão e diversidade, além de contribuir para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, estão ganhando destaque. A conexão entre esporte e responsabilidade social tem se fortalecido, com patrocínios e parcerias sendo direcionados a iniciativas que buscam impactar positivamente a sociedade.
Além disso, eventos esportivos também têm se tornado plataformas para arrecadar fundos e conscientizar sobre causas sociais. Então, sim, o ambiente está propício e há uma crescente valorização desses projetos!

6. Se você pudesse transformar algum atleta em filantropo, quem seria?
Acho que todo atleta, todo mundo poderia fazer mais, inclusive eu, obviamente. Mas, de fato, você tem atletas que são gigantes no Brasil, e que se entendessem esse poder. Que o fazer o bem, ajudar pessoas, no fundo, ajuda a você próprio. Se percebessem como isso é grande para a sua evolução pessoal, para o seu crescimento, eu acho que eles, em geral, fariam mais. A gente transforma e vai se transformando.
Mas pensando em alguém especial, eu acho que podia ser essa galera que recentemente foi bem na Olimpíada, Bia, Rebeca Andrade, as meninas do vôlei de praia.. estou trazendo os medalhistas de ouro aqui, mas há tantos outros, todos os medalhistas olímpicos. Inclusive porque tem alguns que saíram de projetos sociais. A própria Rafaela Silva e o Isaquias Queiroz. Eles sabem exatamente a força que tem um bom projeto para você se desenvolver. Então eu gostaria de ver todo esse pessoal, hoje, fazendo algo legal pelo social.
7. Quem é um filantropo que você admira e que acha que devemos entrevistar?
Um filantropo que muitas pessoas admiram é o Bill Gates. Ele, através da Fundação Bill e Melinda Gates, tem feito um trabalho significativo em áreas como saúde global, educação e combate à pobreza. Outra figura notável é a Oprah Winfrey, que também se destacou por suas contribuições para a educação e empoderamento de comunidades. Entrevistar alguém como eles poderia render insights valiosos sobre filantropia e impacto social!
Gostou da entrevista? Clique aqui para conferir a conversa do Observatório do Terceiro Setor com o DJ Alok!
