Aldeias Infantis SOS inaugura Casa de Oportunidades para jovens em Salvador
ONGs em AçãoProjeto piloto vai atender até 80 jovens em transição da acolhida institucional para a vida adulta, com oficinas, mentorias e suporte individualizado

Após 26 anos, a Aldeias Infantis SOS retoma suas atividades em Salvador–BA com a inauguração da Casa de Oportunidades, um projeto-piloto voltado aos jovens de 16 a 24 anos que estão em processo de transição de serviços de acolhimento para a vida adulta. A iniciativa foi lançada oficialmente no dia 10 de julho, às 9h, no Auditório do Ministério Público da Bahia.
Reconhecida por liderar o maior movimento de cuidado infantil do mundo, a Aldeias Infantis SOS amplia sua presença no estado com um projeto que pretende oferecer suporte completo para jovens em situação de vulnerabilidade social que já passaram ou ainda estão em serviços de acolhimento institucional.
A Casa de Oportunidades oferecerá oficinas, capacitações, mentorias, vivências comunitárias e apoio socioemocional. O objetivo é promover a autonomia e preparar os participantes para os desafios da vida adulta. Ao todo, até 80 jovens, entre adolescentes ainda acolhidos e egressos a partir dos 18 anos, serão atendidos, com acompanhamento durante dois anos.
A iniciativa também visa garantir o acesso aos direitos fundamentais desses jovens, com foco na inclusão social e no desenvolvimento de um projeto de vida. As atividades serão realizadas no escritório administrativo do programa, localizado no bairro Comércio, em Salvador.
O projeto conta com recursos do Governo Federal, que serão destinados à compra de materiais, realização das oficinas e pagamento de repasses mensais aos participantes ao longo de 24 meses.
Além de Salvador, a Aldeias Infantis SOS mantém unidades da Casa de Oportunidades em São Paulo (capital) e Campinas (SP), fora projetos em Lauro de Freitas, Camaçari, Candeias e Mata de São João.
A organização vê a iniciativa como uma possibilidade de influenciar a criação de uma política pública nacional voltada a jovens egressos do acolhimento, com base em legislação específica.
Em nota à imprensa, Olívia Maria Quesado Valente, gestora de território da organização na Bahia, afirma, a articulação com a rede municipal será essencial para garantir o acesso dos jovens aos serviços públicos e direitos sociais.
“O objetivo principal da Casa de Oportunidades é implementar ações integradas para garantir uma transição segura desses jovens para a vida adulta, por meio de capacitações, mentorias, vivências comunitárias e suporte socioemocional e individualizado. Isso fortalecerá a rede de proteção e contribuirá para a inclusão social e o desenvolvimento da autonomia dos participantes”, explica a porta-voz da Organização.
Vulnerabilidade Social e Desafios
A vulnerabilidade enfrentada por jovens egressos em transição para a vida adulta é reforçada por estudos recentes sobre o tema. Pesquisas como Minha Vida Fora Dali e Vozes (in)escutadas e rompimento de vínculos, esta última publicada em 2023 pela Aldeias Infantis SOS, apontam lacunas significativas na implementação de políticas intersetoriais e no acompanhamento pós-desligamento, o que resulta em vulnerabilidades como desemprego, exclusão educacional, instabilidade emocional e precariedade habitacional.
Dados do Censo SUAS (Sistema Único de Assistência Social) de 2023 mostram que 27% dos acolhidos têm entre 12 e 17 anos e que 24% permanecem nos espaços de acolhimento por mais de 18 meses, o que excede o período ideal. Em Salvador, os desafios são ainda maiores: 36% dos acolhidos permanecem além do tempo recomendado, e 32% têm entre 14 e 21 anos.
A cidade também registra altos índices de transtornos mentais (19%) e deficiência (12%) entre os acolhidos, agravados por uma realidade socioeconômica desafiadora, com 12,5% da população vivendo abaixo da linha da pobreza e uma taxa de desemprego de 11%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Dessa forma, a Casa de Oportunidade de Salvador surge como resposta a esse cenário adverso, fundamentada nos artigos 92 e 94 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que determinam a preparação gradativa para o desligamento e o acompanhamento contínuo dos jovens, e no Plano Nacional de Promoção, Defesa e Garantia do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC), que reforça a necessidade de ações que promovam a autonomia, a inclusão social e a integração comunitária desses jovens.
Suporte pós-acolhimento
A Aldeias Infantis SOS Brasil desponta como ator fundamental para conduzir esse tipo de iniciativa por conta da ampla experiência na execução de ações direcionadas à proteção e ao desenvolvimento integral de crianças e adolescentes em acolhimento e de jovens egressos desses serviços.
Em 20 das 30 localidades onde a Organização está presente no Brasil, há programas de referência nessa frente de atuação, como acolhimento nas modalidades de Casa Lar e Família Acolhedora, seguindo altos padrões de qualidade para acolher mais de 380 crianças e adolescentes, e Fortalecimento Familiar e Comunitário, que atualmente beneficia 322 famílias.
Há ainda ações de Apoio ao Jovem Egresso de Acolhimento, com 90 participantes, com destaque para as Repúblicas para Jovens em Limeira (SP), que oferecem suporte direto à autonomia de seus participantes, e a Casa de Oportunidades Semear, de Campinas, que, em parceria com a Fundação FEAC, atendeu, em seu primeiro ano de atividade, 40 jovens egressos do município do interior paulista. Este projeto, inclusive, serviu como modelo para o desenho da proposta agora lançada em Salvador.
No conjunto, essas iniciativas reforçam o papel da Organização na implementação de ações inovadoras e eficazes no campo da transição para a vida adulta.
Vidas Transformadas
O jovem Eder Lúcio dos Santos, que cresceu em uma Casa Lar, espaço de acolhimento da Aldeias Infantis SOS, e, após completar os 18 anos, participou da Casa de Oportunidades de Campinas, conta que o projeto trouxe uma nova visão de futuro.
“Um dos primeiros eixos do programa a serem trabalhados é o próprio projeto de vida. Para isso, a gente recebe todo um acompanhamento e apoio psicológico, com escuta ativa e atendimentos individuais. A equipe da Aldeias Infantis SOS ajuda a gente a olhar as coisas por uma outra perspectiva, para construir um futuro sobre alicerces sólidos”, conta. “A iniciativa apoia nossa total inserção na sociedade, além de nos dar acesso a tudo o que nos é de direito. Isso faz muita diferença em nossas vidas”, conclui.
No início dos anos 1980, um bebê de apenas 11 meses chegou à unidade da Aldeias Infantis SOS no bairro Alto de Coutos, na capital baiana, o primeiro condomínio voltado ao acolhimento, também fundado no início da década. Juracy Bahia morou nessa Casa Lar da Organização por 18 anos e lá, criou vínculos afetivos com outras crianças e com cuidadores locais, mantidos até hoje, mesmo após o fim do ciclo de acolhimento.
“Ter a possibilidade de crescer em um ambiente que me protegeu e cuidou desperta em mim um sentimento de gratidão profunda pela existência da Aldeias Infantis SOS. Tenho contato com irmãos da Organização, que são verdadeiros presentes na minha vida, tamanho é o amor e o carinho que temos um pelo outro”, destaca.
Atualmente, Juracy tem 43 anos e é articulador para juventude egressa na Coordenação Nacional de Juventudes da Aldeias Infantis SOS, onde contribui com o projeto Juventudes Digitais, voltado para jovens e adolescentes que buscam iniciar no mercado de trabalho. Ele será um dos envolvidos no projeto que acaba de chegar a Salvador. Lá, pretende transformar vidas com base na sua própria experiência na Aldeias Infantis SOS.
Serviço
Evento de lançamento — Casa de Oportunidades:
Data: 10 de julho, às 9h.
Local: Auditório do Ministério Público da Bahia
Endereço: Avenida Joana Angélica, 1312, bairro Nazaré.
Sobre a Aldeias Infantis SOS
A Aldeias Infantis SOS (SOS Children’s Villages) é uma organização global, de incidência local, que atua no cuidado e proteção de crianças, adolescentes, jovens e suas famílias. A Organização lidera o maior movimento de cuidado do mundo e atua junto a meninos e meninas que perderam o cuidado parental ou estão em risco de perdê-lo, além de desenvolver ações humanitárias.
Fundada na Áustria, em 1949, está presente em mais de 130 países. No Brasil, atua há 57 anos e mantém mais de 80 projetos, em cerca de 30 localidades de Norte ao Sul do país. Ao trabalhar junto com famílias em risco de se separar e fornecer cuidados alternativos para crianças e adolescentes que perderam o cuidado parental, a Aldeias Infantis SOS luta para que nenhuma criança cresça sozinha. Para mais informações, acesse o site oficial da Aldeias Infantis SOS.
