Quando o centro é a comunidade: o que estamos construindo no Rio Grande do Sul
ONGs em Ação
Por Camila Jordan
Contexto e urgência constante – O que fica quando a água baixa
Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul e o Brasil viveram uma das maiores tragédias climáticas da sua história. Mais de dois milhões de pessoas foram afetadas pelas enchentes, que escancararam o quanto o clima extremo atinge as populações de forma desigual. Comunidades já vulnerabilizadas foram as primeiras a perder tudo e continuam sendo as últimas a receber apoio para a reconstrução. Mas mesmo em meio à devastação, surgem experiências com sentido, raiz e sentido de coletividade.
O Quilombo dos Machados
Em junho deste ano, a TETO começou a atuar em uma das zonas mais afetadas, o Sarandi, zona norte de Porto Alegre, no Quilombo dos Machados. O Quilombo possuía sede, que para além de todas as atividades culturais e educacionais, também foi de grande amparo durante as enchentes de 2024 (reportagem da Agência Pública), chegando até a abrigar famílias após a tragédia durante mais de um mês. No entanto, essa sede estava bastante debilitada com problemas estruturais. E como Rogério Machado, mais conhecido como Jamaica, contou, “as enchentes são uma constante, a emergência é constante”.
Na ausência de políticas públicas estruturantes, comunidades inteiras seguem resistindo com o que têm: redes de solidariedade, criatividade cotidiana e, quando possível, um lugar para se reunir, decidir, aprender e celebrar. Mais do que uma estrutura física, uma sede comunitária é o coração pulsante da vida coletiva. Especificamente na sede do Quilombo aconteciam aulas de capoeira, maracatu e maculelê. Ali se compartilhava oralidade, se fortalecia identidade, e se construía educação quilombola.
O que a TETO está fazendo — a proposta dos centros comunitários
É neste contexto que a TETO aposta nas sedes comunitárias como parte fundamental de sua atuação. Construídos com a comunidade, esses espaços são equipamentos-âncora de urbanismo social em escala local, com potencial de reorganizar o território a partir da escuta, da identidade, da ação coletiva e principalmente do fortalecimento comunitário a longo prazo. Esses são fatores decisivos de resiliência frente à crise climática.
Enquanto os grandes projetos urbanos costumam planejar de cima para baixo, as sedes comunitárias da TETO nascem de uma lógica invertida: a partir do território, das suas urgências e potências. Cada sede é pensada em diálogo com lideranças locais e moradores, desenhada de forma participativa e construída com mão de obra voluntária e comunitária.
Para Nataly Almeida, gestora da TETO no RS, a sede comunitária é infraestrutura de pertencimento e perspectiva: “É uma oportunidade enorme. Ela permite que os encontros coletivos aconteçam com dignidade. E isso fortalece o território, a identidade e a articulação política também.”
Em situações de emergência, como foi o caso das enchentes no Rio Grande do Sul, as sedes ganham ainda mais relevância. Se tornando espaços de abrigo, articulação e reconstrução. Mas, mesmo fora da crise, são onde se semeia o futuro: territórios organizados, com voz ativa e capacidade de exigir e sustentar políticas públicas.
A voz da comunidade — protagonismo e potência
O resultado é um espaço comunitário que atende às múltiplas funções que o cotidiano exige: reuniões, mutirões, acolhimento emergencial, educação comunitária, cultura, saúde, formação política. São espaços vivos, capazes de sustentar e catalisar práticas de bem viver nos territórios.
Com o apoio da TETO, a reconstrução dessa sede está em andamento — e se soma a uma resposta ampla que pretende deixar legado nos territórios onde a emergência climática escancarou vulnerabilidades históricas. Em vez de promessas vazias, um chão firme, construído junto.
Jamaica comentou: “Esse espaço vai reforçar nossa luta, dar sequência a tudo que a gente faz diariamente. Não é só pelo nosso território. Quando falamos de quilombos, falamos de todos. Esse centro vai servir a todos que necessitam. É protagonismo, é resistência.”
Desafios e aprendizados
A mobilização tanto comunitária quanto de voluntariado nunca é simples. Apesar de tudo, o Brasil não tem na sua cultura o voluntariado, como em outros países onde as crianças desde cedo aprendem a importância da ação coletiva a partir do trabalho voluntário. E por isso, não é surpreendente que um ano após as enchentes no RS a mobilização ainda seja desafiadora.
Ao refletir sobre os caminhos da TETO no estado, Nataly reconhece tanto a força da TETO quanto os obstáculos enfrentados. “Um dos principais aprendizados é o quanto somos potentes. Temos uma metodologia robusta, conseguimos chegar com presença e com qualidade nos territórios, articulando urbanismo social de forma prática. Mas o principal desafio tem sido mobilizar jovens para atuar. Tem sido difícil.”
Em paralelo, debates como aluguel social, compra assistida e o papel das OSCs no pós-desastre revelam a complexidade da atuação no RS, e a importância da adaptabilidade e do trabalho em rede. “O terceiro setor tem um senso de urgência muito forte. A articulação com outras organizações, como Mulheres em Construção, Habitat, redes locais, tem sido essencial. Isso fortalece nossa atuação e mostra como a resposta comunitária é eficaz quando feita em colaboração.”
A sede como recomeço
A metodologia da TETO, aplicada hoje em 18 países da América Latina é uma grande caixa de ferramentas, e que por isso nos permite atuar não só na emergência constante que existe em favelas e comunidades pela extrema desigualdade social e econômica, mas também em aldeias indígenas próximas a centros urbanos, como o trabalho em São Paulo, com aldeias no Jaraguá.
Nada disso é fácil e óbvio, mas é possível pela bagagem metodológica que carregamos, pela nossa capacidade de escuta comunitária, e principalmente pela nossa capacidade de mobilização e ação concreta. A TETO é uma organização que historicamente, no Brasil e na América Latina, esteve lado a lado de comunidades esquecidas e invisibilizadas, e que trabalha onde poucos chegam.
Mas é possível, e por isso queremos que o nosso trabalho seja sempre um convite para que mais pessoas se juntem, saiam da sua zona de conforto. Seja como voluntários/as ou dentro das suas atuações profissionais. Aqui é importante mencionar o nosso parceiro Azul Linhas Aéreas Brasileiras que tornou realidade o projeto no Rio Grande do Sul.
A sede do Quilombo da Família Machado renasce como resposta à urgência, mas também como semente de continuidade. Em um país que historicamente negligencia as periferias e os povos tradicionais, cada parede levantada com diálogo e dignidade é um gesto de reparação e de potência. Porque recomeçar, aqui, é muito mais do que voltar ao que era: é criar um novo chão para caminhar junto.
Para saber como participar das atividades no Rio Grande do Sul: Formulário de Interesse: TETO no Rio Grande do Sul
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*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
Sobre a autora: Camila Jordan é urbanista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia. Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, atua com justiça habitacional e foi reconhecida pela Bloomberg Línea como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina.

18/07/2025 @ 09:57
Parabéns à TETO pelo trabalho incansável e verdadeiramente colaborativo com as populações mais vulneráveis!