IA para ampliar equidade e inclusão
Tecnologia
Por Fernanda Vieira
Em junho, o Google Brasil anunciou, em parceria com o Instituto Phi e a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, que destinará R$ 5 milhões para iniciativas de capacitação em Inteligência Artificial voltadas ao Terceiro Setor. O projeto será implementado pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social por três anos, e vai capacitar organizações sociais com habilidades e ferramentas para adotar a IA e aprimorar efetividade e sustentabilidade, gerando impacto positivo para seus beneficiários.
Essa é mais uma de muitas notícias que têm pipocado nas redes e que nos impulsiona, gestores do Terceiro Setor, a acelerarmos decisões em torno da formação de nossas equipes para o uso profissional da IA. Já temos boas pesquisas comprovando que ela pode, de fato, contribuir para a transformação da gestão e da operação de uma organização, elevando o alcance e a eficácia das ações sociais.
Precisamos nos convencer de que, num setor historicamente carente de recursos financeiros e com equipes enxutas, a IA não é um luxo, mas uma ferramenta estratégica para aumentar o impacto. Automação de tarefas administrativas – como preenchimento de relatórios, respostas a e-mails, organização de bases de dados e triagem de cadastros – pode liberar a equipe para focar em atividades de ponta, o que representa economia de tempo e maior precisão.
Em ações de captação de recursos, a IA permite segmentar públicos, personalizar mensagens e identificar padrões de doação, tornando as campanhas mais eficazes e com menor custo. Já no atendimento ao público, chatbots treinados com linguagem inclusiva e parametrização adequada conseguem orientar beneficiários com agilidade, mantendo o vínculo e garantindo escuta. A propósito (é bom que nos familiarizemos com esses termos), chatbots são programas de mensagens automáticas que simulam conversas humanas em atendimento ou suporte online; e parametrização é o processo de configurar um sistema com critérios específicos para que funcione de acordo com as necessidades da organização. ;-)
Há, ainda, os usos voltados à análise de impacto: com ajuda da IA, é possível gerar relatórios automáticos com indicadores relevantes, facilitando a prestação de contas a financiadores, conselhos e ao público em geral.
A edição mais recente da pesquisa The State of AI, publicada pela McKinsey em março deste ano, mostra que o uso da inteligência artificial segue em rápida expansão nas empresas, em geral: 78% delas utilizam IA em pelo menos uma função do negócio, e 71% fazem uso regular de IA generativa, com ferramentas de automação de conteúdo. Mais do que uma simples adoção tecnológica, o relatório evidencia que as organizações estão “reorganizando suas estruturas para capturar valor”, ou seja, várias redesenharam seus fluxos de trabalho, capacitaram suas equipes e criaram mecanismos de governança para mitigar riscos.
Como podemos constatar, não se trata apenas de instalar uma ferramenta ou contratar um software. O uso responsável e estratégico da inteligência artificial exige formação contínua da equipe, clareza sobre os problemas a serem enfrentados com apoio da tecnologia e, principalmente, uma cultura organizacional que valorize a tomada de decisão baseada em dados.
A capacitação pode se dar de diversas formas: cursos online gratuitos voltados para diferentes níveis de familiaridade com o tema; palestras internas com especialistas, adaptadas ao universo do Terceiro Setor; e criação de núcleos de aprendizado que testem pequenos usos no dia a dia da organização, com avaliação de resultados. O que não é mais possível é tratar a IA como uma ferramenta “de outro mundo”. Ela já está aqui – acessível, disponível e, se bem usada, profundamente transformadora.
No INCAvoluntário – área de ações sociais do Instituto Nacional de Câncer -, essa transformação já é uma realidade. Temos trabalhado ativamente no letramento digital da equipe, com foco no uso ético e estratégico da inteligência artificial para fortalecer nossas ações sociais. Acreditamos que o acesso à informação, à tecnologia e à formação contínua é essencial para ampliar nosso impacto, promover inclusão e garantir que a inovação esteja, de fato, a serviço dos pacientes e familiares que atendemos todos os dias.
No final das contas, é o próprio propósito das organizações sociais que deve orientar esse movimento. Porque usar inteligência artificial no Terceiro Setor não é sobre automatizar por automatizar. É sobre garantir que mais pessoas sejam alcançadas, que os recursos sejam melhor aplicados, que o tempo das equipes seja mais bem aproveitado. E, sobretudo, que a inovação esteja a serviço de causas que importam. Se a IA for capaz de ampliar justiça social, equidade e inclusão com ética, transparência e senso de missão, então não é apenas bem-vinda. É necessária.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
