ONG mantém preservado último igarapé limpo em área urbana de Manaus 

Impacto das ONGs
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Em meio à urbanização desordenada de Manaus, a ONG Mata Viva mantém acesa a esperança no último igarapé limpo da cidade, transformando preservação em ato de resistência

Igarapé Água Branca, considerado o último igarapé limpo em área urbana de Manaus. (Créditos: Agência Falcon)

Por Vitória Serrão.

Escondido em meio ao avanço urbano da metrópole mais populosa da Amazônia, um igarapé resiste como símbolo de esperança diante da crescente poluição ambiental que ameaça as águas e margens habitadas da região.

Em Manaus, capital do estado do Amazonas, o Água Branca, considerado o último igarapé limpo dentro da zona urbana manauara, sobrevive graças ao cuidado da ONG Mata Viva, que atua na conscientização, fiscalização e proteção da biodiversidade local. O projeto exemplifica a força de ações comunitárias frente às devastações ambientais.

A poluição dos igarapés em Manaus 

Segundo dados do National Geographic (2021), as grandes cidades situadas às margens do rio Amazonas e de seus afluentes estão crescendo de forma descontrolada, lançando nas águas uma grande quantidade de contaminantes, entre eles microplásticos, defensivos agrícolas, fármacos, metais pesados e outros compostos usados pela indústria. 

Além da contaminação química, o lixo urbano também representa um grave problema para esses ecossistemas. Só em 2023, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), foram retiradas 10.733 toneladas de resíduos dos igarapés de Manaus, o equivalente a cerca de 29,4 toneladas por dia.

Na contramão dos efeitos negativos da urbanização, a ONG Mata Viva luta diariamente pela proteção do Igarapé Água Branca.

“Todos os igarapés de Manaus morreram calados, morreram sem voz. Eles foram morrendo aos poucos e ninguém falou sobre o assunto”, compartilha o jornalista e fundador da organização, Jó Farah.

O igarapé inicia e termina no perímetro urbano, com mais de 7 km de extensão. (Créditos: Agência Falcon)

Atuação da ONG Mata Viva 

A ONG Mata Viva surgiu a partir de um momento de conscientização e aprendizado pessoal de Jó, que conta que, ao passar a morar no bairro Tarumã, desmatou uma parte da floresta próxima ao Igarapé Água Branca. Ao perceber o problema que havia causado, iniciou a buscar maneiras de mitigar os danos.

Ao notar que estava reproduzindo as práticas comuns de desmatamento em Manaus, o jornalista decidiu agir. “Comecei a plantar muitas árvores, a fazer o plantio de espécies nativas do próprio igarapé. Começamos a pensar no estrago causado, algo tão comum na região, e eu estava repetindo a mesma coisa. Esse igarapé vivo, limpo, puro, cristalino, com água boa e eu ajudando a matar ele também”, relata Jó. 

Além das práticas de preservação, Jó decidiu utilizar seus conhecimentos em comunicação para propagar informações e a história do espaço. Na década de 90, uniu-se a colegas das áreas de jornalismo e tecnologia para criar um blog, iniciativa que, com o tempo, se expandiu para outras plataformas de comunicação.

Jornalista Jó Farah, fundador da ONG Mata Viva. (Créditos: Agência Falcon)

Além disso, a ONG promove trilhas ecológicas na área do Igarapé, uma ação viabilizada com o apoio da Universidade Federal do Amazonas(Ufam). A atividade aproxima e conscientiza a comunidade do local sobre a importância da preservação dos igarapés da capital.

O fundador da ONG também compartilha suas frustrações ao lidar com o poder público, mencionando a falta de apoio, às denúncias muitas vezes ignoradas e o despreparo na gestão ambiental. “Se a gente não tiver muita perseverança, a gente não continua. A única coisa que me mantém nessa batalha é esse igarapé, que eu amo muito. E ele não precisa me pagar nada, porque ele me dá tanta coisa boa que eu não conseguiria pagar o que ele me dá”, enfatiza Jó.

O Água Branca como esperança

O Igarapé Água Branca nasce e deságua no perímetro urbano, localizado no Bairro Tarumã, zona oeste de Manaus. É o único igarapé limpo existente em área urbana da capital amazonense. 

Legalmente considerado uma Área de Preservação Permanente (APP) que, conforme o Novo Código Florestal Brasileiro, Lei n.º 12.651/12, são áreas protegidas que buscam preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, proteção do solo e assegurar o bem-estar das populações do entorno.

O igarapé possui mais de 7 km de extensão, nascendo nas matas protegidas do Aeroporto Eduardo Gomes e vai até Cachoeira Alta, no Tarumã. Ele é um importante contribuinte de água limpa e fria para a Bacia Hidrográfica do Rio Tarumã-Açú, local severamente poluído pelas águas que recebe de outros igarapés de Manaus.

A nascente do Água Branca deságua na bacia do rio Tarumá-Açu. (Créditos: Agência Falcon)

A preservação das nascentes — como a do igarapé Água Branca — é essencial, pois são elas que fornecem água para os córregos e rios que abastecem toda a cidade. Além disso, são fontes de vida para diversos organismos constantemente ameaçados pela ocupação humana em seu entorno.

Reforçando a importância do apoio científico e comunitário na proteção e monitoramento da biodiversidade amazônica, o líder comunitário destaca:

“Floresta urbana tem o seu valor ambiental, fauna e flora lá dentro, uma riqueza. Muitas vezes abriga água de melhor qualidade, água pura. Não é um lugar para se mexer ou explorar, mas sim estudar com mais ciência, com mais cuidado, para que a gente não perca tudo”.

Para suporte financeiro ou para saber mais sobre o trabalho realizado no igarapé manauara, Jó compartilha o contato por meio das redes sociais da ONG Mata Viva (@aguabranca_), onde é possível conhecer e contribuir com a preservação e subsistência das iniciativas realizadas.

De olho na COP 30

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30) está chegando. De 10 a 21 de agosto, o estado de Belém do Pará, na região Norte do Brasil, sediará o encontro internacional que reunirá representantes dos países membros da Convenção Climática da ONU para discutir e negociar ações globais de enfrentamento às mudanças climáticas.

Pensando na importância desse debate para o terceiro setor e para iniciativas comunitárias de preservação ambiental, o Observatório reúne uma série de conteúdos especiais sobre Meio Ambiente e sustentabilidade.

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