Filantropia em foco: avanços, desafios e caminhos para o futuro

Cultura de Doação
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Imagem: Divulgação

 

Por Custódio Pereira

 

Em 20 de outubro, celebramos o Dia Nacional da Filantropia. A data instituída pela Lei nº 13.925, a partir de uma mobilização liderada pelo FONIF, é mais do que uma comemoração: ela simboliza o reconhecimento de um setor que impacta milhões de brasileiros nas áreas de saúde, educação e assistência social. E é também uma oportunidade para refletirmos sobre o papel da solidariedade na transformação social e os desafios que ainda limitam o pleno desenvolvimento da cultura de doação no país.

Segundo a Pesquisa Doação Brasil 2024, conduzida pelo IDIS em parceria com o Instituto Ipsos, o volume estimado de doações individuais alcançou R$ 24,3 bilhões, o maior já registrado desde o início da série histórica. O dado revela que, mesmo em um cenário econômico instável, os brasileiros seguem comprometidos com causas sociais. O valor médio das doações cresceu e novas formas de contribuição, como o uso do PIX e plataformas digitais, ampliaram o alcance das iniciativas. Ainda assim, o estudo mostra que o número de pessoas que doam caiu de 84% em 2022 para 78% em 2024. Um sinal de que a generosidade se mantém viva, mas precisa ser cultivada de forma mais estruturada.

O levantamento também evidencia mudanças no perfil dos doadores. Cada vez mais conscientes, eles buscam informações sobre as organizações e desejam ver resultados concretos. A confiança se tornou um fator decisivo para manter o vínculo com as causas. Não por acaso, 49% dos entrevistados afirmaram já ter interrompido doações após notícias negativas sobre uma instituição. Esse dado reforça a importância da governança, elemento fundamental para fortalecer a credibilidade das organizações da sociedade civil e, consequentemente, ampliar a recorrência das contribuições.

Outro aspecto relevante está na forma como as pessoas se mobilizam em situações de emergência. A mesma pesquisa aponta que metade dos brasileiros realizou doações em resposta a tragédias climáticas recentes, o que mostra a potência da empatia nacional. No entanto, grande parte dessas contribuições é pontual, surgindo apenas em momentos de crise. O desafio, portanto, é transformar esse impulso solidário em compromisso contínuo, capaz de sustentar projetos que atuam de forma permanente nas comunidades.

A filantropia corporativa e familiar também vem ganhando novos contornos. O relatório do IDIS Perspectivas para a Filantropia no Brasil 2025 indica que empresas e famílias de alto patrimônio buscam uma atuação mais estratégica, voltada a causas estruturantes como saúde mental, educação e diversidade. Ao mesmo tempo, cresce o interesse de pequenas e médias empresas em integrar o investimento social às suas práticas de responsabilidade corporativa. Essa ampliação da base de apoiadores é um sinal de maturidade do setor, mas ainda requer políticas públicas, incentivos fiscais e marcos regulatórios que facilitem o engajamento de novos atores.

Nesse mesmo movimento, o relatório GIFE Olhares do Investimento Social Privado 2024 reforça a convergência entre a filantropia individual e a institucional ao destacar que a credibilidade e a lisura são hoje os pilares centrais do investimento social no país. Segundo o estudo, 75% dos investidores consideram a confiabilidade e a transparência das organizações apoiadas como principal critério para a destinação de recursos. Assim como indica o IDIS, o GIFE aponta que o setor vive um processo de amadurecimento: sai de um modelo assistencialista e avança para práticas estruturantes, baseadas em parcerias, mensuração de impacto e fortalecimento das organizações da ponta – elementos indispensáveis para consolidar uma cultura de doação sustentável no Brasil.

A filantropia brasileira, portanto, avança em um cenário paradoxal: cresce em valor e visibilidade, mas ainda precisa vencer barreiras de confiança, continuidade e representatividade. Fortalecer as organizações da sociedade civil, ampliar a transparência, valorizar o voluntariado e estimular a educação para a cidadania solidária são passos fundamentais para consolidar esse movimento.

Celebrar o Dia Nacional da Filantropia é, portanto, celebrar a capacidade coletiva de atuar pelo bem comum. Mas também é um convite à ação consistente. Para que o setor cresça de forma sustentável, é preciso incentivar parcerias entre o poder público, empresas e cidadãos, investir em governança e comunicação e criar um ambiente favorável à doação recorrente. A filantropia é mais do que um gesto de generosidade. É uma força estratégica para o desenvolvimento do Brasil.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Custodio Pereira

Custódio Pereira é presidente do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas – FONIF, mestre em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor pela Universidade de São Paulo. Também é professor do curso "Governança Corporativa para Instituições Sem Fins Lucrativos", promovido pela Universidade Corporativa FONIF em parceria com o IBGC e o Semesp.