Sem oportunidades para os jovens, o Brasil não supera a pobreza

Impacto das ONGs
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Imagem: ChatGPT

 

Por Vitor Hugo Neia

 

A erradicação da pobreza é um compromisso que precisa ser renovado a cada geração. Neste mês em que se celebra o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17 de outubro), vale lembrar que os desafios permanecem significativos. Dados do IBGE (2023) mostram que 27,4 % da população brasileira vivia abaixo da linha da pobreza e 4,4 % em extrema pobreza, os menores percentuais desde 2012. Entre as juventudes, a vulnerabilidade permanece elevada: 10,3 milhões de pessoas de 15 a 29 anos, o equivalente a 21,2% dessa faixa etária, não estudavam nem trabalhavam em 2023. No levantamento anterior (2022), mais de 60% desses jovens estavam em situação de pobreza. Essa geração carrega energia e capacidade de inovação, mas ainda enfrenta as maiores barreiras para transformar conhecimento em prosperidade.

Entender o lugar das juventudes nesse cenário é essencial para pensar soluções duradouras. A Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades & Mobilidade Social 2025, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec e a Fundação Grupo Volkswagen, oferece um retrato abrangente das desigualdades urbanas no país e das percepções sobre mobilidade social. Entre seus diversos recortes, o levantamento revela dados importantes sobre os jovens brasileiros, que ajudam a compreender como a desigualdade de oportunidades limita sua ascensão. Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 68% ampliaram seu nível de escolaridade nos últimos cinco anos, um sinal claro de investimento em capital humano.

No entanto, o panorama geral das capitais brasileiras revela que a melhora educacional ainda não se traduz em estabilidade econômica. De forma abrangente, 56% da população precisou recorrer a atividades informais para complementar o orçamento, segundo a pesquisa. A juventude se qualifica, mas o mercado não acompanha seu ritmo. O resultado é um ciclo de ascensão interrompida, em que o esforço individual esbarra, muitas vezes, em empregos precários e em trajetórias instáveis.

Mesmo com mais anos de estudo do que os pais, muitos jovens não conseguem alcançar renda suficiente para sustentar suas famílias ou planejar o futuro. O país corre o risco de formar uma geração mais preparada, mas menos capaz de prosperar. Quando a juventude é subaproveitada, a sociedade inteira perde. Cada porta fechada representa potencial produtivo desperdiçado e desigualdade reproduzida.

A pesquisa mostra, ainda, que 74% dos brasileiros apontam a criação de empregos como a principal medida para combater a pobreza e a fome. É um chamado claro para que as políticas públicas coloquem o trabalho digno no centro da estratégia de inclusão social.

Diante desse cenário de desafios persistentes, diversas organizações públicas e privadas vêm unindo esforços para ampliar as oportunidades de trabalho e renda para as juventudes. Entre essas iniciativas está o Pacto Nacional pela Inclusão Produtiva das Juventudes, uma aliança entre governo federal, estados, empresas, fundações e movimentos juvenis. O objetivo é ambicioso: criar, até 2030, um milhão de oportunidades de trabalho digno, priorizando jovens em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A Fundação Grupo Volkswagen, signatária desde 2024, passou em 2025 a integrar o Comitê Gestor do Pacto, reforçando seu papel de articulação entre o setor privado e as políticas públicas.

A estratégia combina qualificação profissional, apoio à permanência nos cursos, metas de contratação inclusiva e redes de mentoria que fortalecem o início da trajetória profissional. Os resultados iniciais demonstram o potencial dessa agenda. Cinco mil jovens já concluíram formações apoiadas pelo Pacto, e 68% deles conseguiram o primeiro contrato formal em até seis meses. Entre as mulheres negras, a taxa de formalização chegou a 71%, com salários iniciais 37% superiores aos obtidos na informalidade. Cada emprego gerado representa um passo concreto para romper o ciclo de vulnerabilidade e ampliar a autonomia das famílias.

Além de apoiar iniciativas coletivas como o Pacto, a Fundação Grupo Volkswagen também desenvolve programas próprios de inclusão produtiva que geram resultados diretos nas comunidades em que atua. Um exemplo é o Projeto Autonomia, desenvolvido em parceria com a Associação Padre Leo Commissari, que qualifica jovens de 16 a 21 anos da comunidade do Montanhão, em São Bernardo do Campo (SP). O programa combina mais de 400 horas de formação técnica em informática com 80 horas de desenvolvimento socioemocional, abordando temas como projeto de vida, diversidade, saúde emocional e orientação profissional. Para incentivar a permanência, os participantes com frequência mínima de 80% recebem bolsa-auxílio, e suas famílias participam de rodas de conversa que fortalecem a rede de apoio.

Na turma-piloto, composta majoritariamente por mulheres negras, todos os 30 participantes foram contratados como aprendizes pela Volkswagen do Brasil, com contrato de dois anos, salário, benefícios e formação técnica oferecida pelo SENAI. O Autonomia é a porta de entrada de uma trilha formativa que pode chegar à graduação em Ciência de Dados, totalmente custeada pela Fundação. Essa jornada, que alia aprendizado técnico, suporte emocional e oportunidades reais de inserção no mercado, mostra que mobilidade social é um processo sustentado por continuidade e propósito.

Ainda assim, nenhum programa isolado é capaz de resolver um problema tão profundo. A erradicação da pobreza depende da convergência entre políticas de proteção social e estratégias de inclusão produtiva. Enquanto o trabalho digno não se torna realidade para todos, é fundamental manter programas de renda mínima e medidas de segurança alimentar que garantam condições básicas de sobrevivência. Também é essencial investir em educação pública de qualidade, ampliar o acesso digital e fortalecer centros comunitários de inovação, cultura e tecnologia.

A juventude brasileira é o maior ativo social do país e a chave para romper o ciclo da pobreza intergeracional. Investir nela significa apostar em inovação, produtividade e coesão social. Se o Brasil quiser avançar de fato na erradicação da pobreza, precisará criar ecossistemas que transformem aprendizado em renda e sonhos em trajetórias sustentáveis. Com o apoio certo, os jovens brasileiros não serão apenas o futuro do país, serão o presente que o transforma.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Vitor Hugo Neia

Vitor Hugo Neia é diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen e integra a organização desde 2018. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), possui sólida experiência em planejamento, gestão e execução de iniciativas no terceiro setor, com ênfase em projetos de inclusão produtiva, desenvolvimento comunitário e redução de desigualdades sociais.