Operação Libertas desmonta rede nacional de tráfico de fauna silvestre
Políticas PúblicasA ação coordenada pelo Ministério Público e órgãos ambientais resulta na maior ofensiva do ano contra o comércio ilegal de animais, revelando também crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa

Na última quarta-feira (29/10), uma operação conjunta entre Ministérios Públicos, Polícias Ambientais e órgãos de fiscalização de 11 estados brasileiros prendeu 18 pessoas e resgatou 755 animais silvestres. Batizada de Operação Libertas, a ação teve como alvo 84 suspeitos de integrar uma rede de tráfico de fauna e cumpriu 116 mandados judiciais.
Entre os animais apreendidos estavam espécies ameaçadas de extinção, como araras, papagaios, trinca-ferros, azulões e curiós, capturados nos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Os animais foram encaminhados a centros de reabilitação do Ibama e de órgãos estaduais para tratamento e, quando possível, reintrodução na natureza.
Coordenada pela Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente (Abrampa) e pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), com apoio da Freeland Brasil e financiamento do Escritório de Assuntos Internacionais sobre Narcóticos e Aplicação de Lei dos Estados Unidos (INL), a operação reuniu forças de Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Bahia.
Crime organizado e impacto ambiental
Além do tráfico, as investigações revelaram a prática de crimes como receptação, falsificação de documentos, maus-tratos, porte ilegal de armas e lavagem de dinheiro. Durante as ações, foram apreendidos 37 celulares, quatro armas de fogo, 1.230 munições, um veículo, além de armadilhas e gaiolas utilizadas no transporte dos animais.
A promotora de Justiça Luciana de Paula Imaculada, coordenadora da operação pelo Projeto Libertas, destacou que a ação “A operação deflagrada é uma resposta contundente do Estado para proteger nossa fauna, essencial para o equilíbrio ambiental”. Segundo ela, as investigações continuam para consolidar provas e oferecer denúncias criminais.
Para Juliana Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, o combate ao tráfico de fauna é também uma medida de proteção à saúde pública e à segurança nacional. “Essa ação integrada demonstra o compromisso sério do Ministério Público brasileiro com o enfrentamento ao tráfico de fauna silvestre, um crime que causa sofrimento a milhões de animais, ameaça espécies inteiras e compromete os serviços ecossistêmicos essenciais à vida. Combater essa prática é também proteger a saúde pública, a integridade ambiental e a própria governança do país, uma vez que essas redes criminosas frequentemente estão associadas a outras atividades ilícitas que afetam a segurança e a estabilidade ambiental”, ressalta em nota à imprensa.
Rota e lavagem de dinheiro
A investigação identificou a atuação de uma rede interestadual de tráfico de fauna entre Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, ligada ao traficante Weber Sena de Oliveira, o ‘Paulista’, preso em setembro. Considerado um dos maiores traficantes do país, ele já havia sido flagrado com mais de 1.500 aves e dezenas de jabutis.
O grupo atuava com estrutura organizada em quatro núcleos: captores, transportadores, operadores financeiros e receptadores. Além da captura e venda, os investigados movimentavam grandes quantias por meio de lavagem de dinheiro, ampliando o escopo da responsabilização penal.
O promotor Augusto César Carvalho de Matos, do Ministério Público da Bahia, destacou que os resultados das operações Fauna Protegida e Libertas refletem a importância da cooperação interinstitucional e do compartilhamento de inteligência entre os estados.
O Projeto Libertas, da Abrampa, atua nacionalmente no fortalecimento da atuação ministerial contra crimes ambientais, promovendo capacitação de agentes públicos, mapeamento de rotas do tráfico e integração entre órgãos. A iniciativa já resultou em centenas de investigações em andamento no país.
