O que fica depois da trilha: legado, aprendizados e um alerta para o Terceiro Setor

Cultura Organizacional
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Imagem: Divulgação

 

Por Wenceslau Madeira

 

Nos últimos vinte anos, tive a responsabilidade de conduzir a De Peito Aberto em um período de forte amadurecimento institucional. O processo não foi baseado apenas em captar e executar projetos, mas em construir equipes, formar profissionais, renovar talentos e estimular debates internos que consolidaram uma organização mais preparada para as mudanças dos novos tempos.

Sempre acreditei que gestão no terceiro setor é, antes de tudo, um compromisso com pessoas: com quem atendemos e com quem trabalhamos todos os dias para que as ações aconteçam. E considero esse um diferencial do nosso trabalho.

O período que se encerra agora deixa um legado consistente. Foram 79 projetos executados: 48 pela Lei Federal de Incentivo ao Esporte, 6 pela Lei Estadual de Incentivo ao Esporte de Minas Gerais, seis pela Lei Rouanet, 12 termos de parceria com o Governo de Minas Gerais, 4 termos de colaboração com a prefeitura de Lagoa Santa, dois com Brumadinho e um projeto direto com a Hydro. No total, 67.712 alunos foram atendidos em 66 municípios de nove estados.

Os resultados mostram constância, presença real nos territórios e um time capaz de entregar com qualidade, mesmo diante de cenários desafiadores em um setor que liga sinais de alerta importantes pensando no futuro. Um setor cuja essência, infelizmente, tem perdido espaço para a tecnocracia.

Minha experiência revela como o ecossistema dos projetos incentivados vem se transformando — e nem sempre na direção desejada. Agências especializadas em captação e editais têm se tornado intermediárias quase obrigatórias entre proponentes e patrocinadores. À primeira vista, parecem facilitar processos. Na prática, têm reduzido o diálogo direto, encarecido etapas e afastado empresas da compreensão do impacto social gerado na ponta. Um mecanismo criado para aproximar passou a produzir distâncias.

A pauta ESG, por sua vez, ganhou protagonismo na tomada de decisões. Embora motive reflexões importantes, também tem forçado organizações a se adaptar a exigências externas que nem sempre dialogam com suas vocações. Quando os objetivos das entidades precisam se curvar aos interesses do patrocinador, perde-se profundidade.

A exigência de atender públicos específicos, muitas vezes determinada por critérios corporativos, tem reduzido o potencial agregador e inclusivo da cultura e do esporte, justamente duas áreas que, por natureza, deveriam acolher diferentes perfis, histórias e territórios.

Os desafios não se limitam a isso. Outro ponto sensível é a leitura equivocada sobre onde os projetos acontecem. Hoje, grande parte dos relatórios e estudos considera apenas o CNPJ das instituições, ignorando o CEP dos locais onde as atividades são realmente realizadas. Essa metodologia distorce diagnósticos, cria a falsa impressão de concentração no Sudeste e torna invisíveis iniciativas estruturantes no Norte e no Nordeste. A De Peito Aberto está no Pará há mais de dez anos pela Lei Federal de Incentivo ao Esporte, mas segue ausente de levantamentos que afirmam mapear a atuação nacional do setor. Essa visão incompleta influencia políticas públicas e direciona recursos sem refletir a realidade.

Ao concluir este ciclo, carrego a serenidade de quem percorreu um caminho intenso, exigente e profundamente transformador. Houve momentos de esforço contínuo, decisões difíceis e ajustes de rota. Houve também descobertas, aprendizados e a satisfação de ver a organização alcançar pontos que antes pareciam distantes.

Participar da COP30, em Belém, reforçou a convicção de que o trabalho realizado nos territórios dialoga com desafios globais e precisa ser permanentemente fortalecido. Também sigo convicto da importância da renovação de lideranças: quando gestores buscam mais evidência do que a própria instituição, o foco se desloca do trabalho e do legado para a figura individual, o que compromete a missão.

Encerro esta etapa com gratidão profunda a todos os colegas, professores, coordenadores, alunos, famílias e todos os profissionais que caminham conosco na De Peito Aberto, ajudando a construir uma história rica e longeva.

Aos leitores, meus desejos de boas festas e que, em 2026, sigamos somando forças a favor de um terceiro setor cada vez mais comprometido com o impacto real.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Wenceslau Madeira

Fundador e gerente de projetos da De Peito Aberto, organização voltada ao esporte, à educação e à cultura. Gestor público formado pelo UNIBH, especialista em natação e MBA em ESG pelo IBMEC, cursa atualmente pós-graduação em Comunidades Tradicionais, Licenciamento e Governança Socioterritorial na PUC Minas.