Confiança e senso de comunidade fortalecem a cultura de doação, aponta relatório global

Cultura de Doação
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O World Giving Report 2026 apresenta um indicador que mede a generosidade dos países com base na proporção da renda destinada a doações; 59% dos brasileiros realizaram algum tipo de doação no último ano

Imagem: Divulgação

Por Lucas Neves

Relatório anual revela fatores que impulsionam doações em mais de 100 países. Publicado em junho, o World Giving Report 2026 mostra que o senso de pertencimento comunitário e a confiança nas organizações estão entre os fatores mais associados a maiores níveis de doação.

Representada no Brasil pelo IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), a pesquisa ouviu mais de 60 mil pessoas, em 105 países. O propósito era compreender como indivíduos apoiam causas de interesse público e quais fatores influenciam suas decisões de doação.

“O World Giving Report 2026 oferece elementos que nos ajudam, como setor, a influenciar o fortalecimento da cultura de doação. Em países onde doar é um valor fundamental e prática cotidiana, as pessoas cobram esses comportamentos das marcas que consomem e de famílias de alta renda, gerando um círculo virtuoso de recursos para o combate às desigualdades”, destaca Luisa Gerbase de Lima, gerente de comunicação e conhecimento no IDIS

A importância do senso de pertencimento comunitário

Entre os principais achados da pesquisa está a relação entre o sentimento de pertencimento comunitário e os níveis de doação.

Conforme o relatório, em países onde mais de 80% da população afirma sentir forte conexão com sua comunidade local, a média de doações chega a 1,7% da renda. Por outro lado, em nações onde menos da metade da população compartilha esse sentimento, a média cai para 0,6%.

No Brasil, os números seguem essa tendência. Entre os principais motivos para doar, houve um crescimento na parcela de pessoas que afirmam apoiar suas comunidades locais, subindo de 25% para 32%. 

O país também conquistou um aumentou no percentual daqueles que entendem a doação como um dever coletivo, passando de 39% para 48%, índice significativamente acima da média global (36%) e sul-americana (17%).

“Os achados do World Giving Report mostram que mobilizar doações não deve ser visto apenas como captação de recursos, mas como construção de relacionamento, confiança e pertencimento”, salienta Luisa. 

“As organizações precisam aproximar seus públicos da causa, do território, das pessoas beneficiadas e dos resultados alcançados” — Luisa Gerbase de Lima

A transparência como chave

Segundo Luisa, é necessário uma comunicação clara, acessível e contínua sobre o uso dos recursos e o impacto gerado, tratando a transparência não apenas como obrigação administrativa, mas sim  como uma estratégia de vínculo.

“O doador precisa entender não só para onde o recurso vai, mas por que aquela atuação importa, quais mudanças ela produz e qual é o seu papel nessa transformação”, completa a gerente de comunicação e conhecimento no IDIS. 

Os próprios resultados da pesquisa ressaltam o poder da transparência e clareza sobre o impacto das doações. Afinal, esses elementos aparecem entre os principais quando se trata do estímulo à participação da população em causas sociais.

No contexto global, 63% dos entrevistados afirmam que mais transparência sobre a gestão das organizações aumentaria sua disposição para doar e 47% gostariam de compreender melhor os resultados alcançados pelas iniciativas apoiadas. 

“Esses movimentos apontam para um doador mais consciente, que entende seu papel na construção de soluções coletivas, e por isso também mais exigente”. Para Luisa, esse fortalecimento da confiança será decisivo para transformar a intenção em ação e consolidar uma cultura de doação mais robusta no Brasil.

A influência da mídia na cultura de doação

Outro dado relevante do World Giving Report 2026 diz respeito ao papel da mídia como um agente de fortalecimento da cultura de doação. Conforme o relatório, 27% dos brasileiros doaram por influência da cobertura midiática.

“Ao dar visibilidade a causas, organizações e histórias de transformação, a imprensa ajuda a aproximar a sociedade de temas sociais e pode transformar sensibilização em ação”, afirma Luisa.

Ela lembra que, para o IDIS, é fundamental que essa cobertura não aconteça apenas em momentos de emergência. Nesse sentido, Luisa acredita no poder de contribuição dos veículos ao mostrarem o trabalho contínuo das organizações da sociedade civil (OSCs), seus impactos, suas boas práticas e as diferentes formas pelas quais as pessoas podem doar.

“As crises mobilizam, mas os desafios sociais são permanentes” — Luisa Gerbase de Lima

“Também é fundamental evitar generalizações. A cobertura jornalística deve, naturalmente, fiscalizar e denunciar irregularidades quando elas existem, mas casos isolados não podem fragilizar a confiança em todo o setor”, ressalta.

Conforme Luisa — ao mostrar organizações sérias, transparentes e comprometidas — o jornalismo ajuda a fortalecer a confiança pública e a consolidar a doação como prática cidadã.

O contexto brasileiro

No Brasil, o World Giving Report 2026 mostra um cenário de estabilidade no volume de doações, com o percentual de pessoas que realizaram algum tipo de doação, em 2025, caindo de 62% para 59%. A média global foi de 61%.

No contexto de doação para OSCs, os números se mantiveram estáveis no país, com 28% fazendo alguma doação em dinheiro para ONGS e 19% doando tempo na forma de voluntariado.

Quando se trata de doação proporcional à renda, o país ficou levemente abaixo da média. Enquanto no contexto global os entrevistados destinaram 1% de sua renda às contribuições sociais, a média brasileira foi de 0,9%.

“As diferenças regionais mostram que generosidade não pode ser explicada apenas por renda. Fatores históricos, culturais, religiosos, comunitários e institucionais influenciam profundamente as formas de doar. Em alguns contextos, a solidariedade se expressa mais pelo apoio direto a pessoas e famílias; em outros, por meio de organizações formais, instituições religiosas ou mecanismos mais estruturados de filantropia”, avalia Luisa.

Segundo ela, a comparação internacional ajuda a mostrar que culturas de doação mais fortes combinam vínculos comunitários, confiança nas instituições, canais acessíveis para doar e narrativas sociais que reconhecem a doação como parte da cidadania.

Para o Brasil, Luisa acredita que o principal aprendizado é a valorização da solidariedade de proximidade e a criação condições para que ela se conecte de forma mais recorrente e estruturada às OSCs.

“Isso passa por fortalecer a confiança, melhorar a comunicação sobre impacto, ampliar a transparência e construir um ambiente mais favorável à doação, inclusive com políticas públicas, incentivos e campanhas que estimulem a prática de doar. O Brasil tem uma base solidária importante; o desafio é transformar essa disposição em uma cultura de doação mais institucionalizada e permanente”, conclui.