Quase 6 a cada 10 pessoas doaram a ONGs em 2024
Cultura de DoaçãoLançado na última semana (11), o levantamento Retrato da Solidariedade, do Instituto Pensi, busca compreender como doaram os brasileiros em 2024; entre 2023 e 2024, as doações financeiras aumentaram de 27% para 32%

Por Lucas Neves
Em 2024, quase 6 a cada 10 pessoas doaram para organizações da sociedade civil (OSCs). Conforme a segunda edição da pesquisa Retrato da Solidariedade: comportamento pró-social no Brasil, as doações financeiras cresceram de 27% para 32%, entre 2023 e 2024.
Conduzida pelo Laboratório de Comportamento Pró-Social e Políticas Públicas do Instituto Pensi, a pesquisa foi divulgada na última semana (11/12). O propósito do levantamento nacional de opinião pública é examinar como a população brasileira ajuda o próximo.
Com mais de 2,6 mil entrevistas presenciais, a pesquisa também espera auxiliar gestores públicos, OSCs e pesquisadores a entender o cenário de solidariedade brasileiro para construir estratégias mais efetivas.
O trabalho de campo, realizado em dezembro de 2024 pela empresa Quaest, ouviu pessoas que doaram e não doaram, de todas as classes sociais, com amostra representativa do Brasil nas suas cinco regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Além disso, a pesquisa incluiu visitas adicionais a lares de alta renda, para compreender com mais assertividade essa camada da população, o que, segundo os pesquisadores, é inédito em pesquisas sobre comportamento pró-social no Brasil.
Os efeitos da tragédia no Rio Grande do Sul
Retratando o cenário de 2024, o levantamento buscou compreender os efeitos das fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul (RS) no último ano. A ideia era avaliar não só quantos brasileiros ajudaram durante as enchentes, mas também entender se essa mobilização impactou o total de doações no ano.
Segundo o cientista político, Dr. Flávio Pinheiro, pesquisador principal do levantamento, era esperado que os efeitos das enchentes no RS fossem significativos na edição de 2024. “Talvez a nossa expectativa fosse um pouco maior, que tivesse um impacto mais relevante nos resultados”, comenta.
Em relação ao impacto das enchentes do RS sobre a proporção de doadores para OSCs em 2024, a pesquisa mostra que ele variou conforme o tipo de doação. O impacto estimado da tragédia na doação de bens, por exemplo, foi de 8,3 pontos percentuais, enquanto em dinheiro e voluntariado a estimativa percentual foi de 3,9 e 1,5, respectivamente.
Mobilizando solidariedade para além das tragédias
Eventos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, costumam gerar mobilizações de solidariedade sem precedentes. Nesse sentido, um dos assuntos discutidos durante o lançamento da pesquisa foram os caminhos para engajar a sociedade nas causas sociais e fomentar a cultura de doação além dos momentos de crise.
Para Mariana Campanatti, diretora executiva do Instituto Mol, é fundamental compreendermos que existe um papel importante para todo tipo de doação, seja ela de curto, médio ou longo prazo. “A doação emergencial pode ser uma oportunidade de experimentar essa generosidade e solidariedade, transformando isso num hábito. Mas é importante que a gente também atue na educação, para que todo o setor seja fortalecido de maneira geral”, salienta.
Ainda sobre doação, Mariana afirma que um dos dados que mais chamou sua atenção nesta edição da pesquisa foram os motivos que levaram parte dos entrevistados a não doarem dinheiro às organizações em 2024.
Conforme a pesquisa, a falta de recursos (34%) e desconfiança sobre o uso dos recursos doados (21%) lideraram o ranking. No entanto, Mariana destaca o terceiro motivo mais citado: 17% dos entrevistados que não doaram dinheiro disseram que nunca receberam pedidos.
“Eu fico arrasada. Porque, se você perguntar para qualquer organização social, eles vão falar que eles estão pedindo o tempo todo”, lamenta. Para ela, existe uma grande deficiência na comunicação, sendo necessário compreender como realizar o pedido e alcançar os doadores efetivamente.
Aumento das doações financeiras e uso do Pix
No último ano, as doações financeiras para OSCs cresceram 40%, chegando ao valor total de R$ 23,6 bilhões. Depois do dinheiro, o método de doação mais utilizado é o Pix, que vem se firmando como meio dominante na economia brasileira.
O estudo também avaliou as principais causas escolhidas pelos doadores para prestarem suporte financeiro em 2024. As 3 primeiras colocações ficaram com: combate à fome (30% dos doadores), assistência social (25%) e saúde (21%).
Para Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, era esperado que essas causas representassem mais de 75% das doações financeiras recebidas. “Sendo o Brasil um país extremamente desigual, ter essas questões — que para mim são necessidades básicas — faz muito sentido”.
Nesse aspecto, Márcia pontua a necessidade de aumentar o número de doações em geral, independentemente da causa, contemplando “todas as necessidades e demandas que a sociedade precisa fortalecer e para atender onde o estado está falhando”.
