O que aprendemos com um país que volta a se alimentar com dignidade
Políticas Públicas

Por Rafaela Vieira — Gerente de Relações Institucionais e Políticas Públicas do Pacto Contra a Fome
O ano de 2025 trouxe avanços importantes no enfrentamento da fome e do desperdício de alimentos no Brasil. Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas é fundamental reconhecer o que funcionou, porque são essas experiências bem-sucedidas que nos mostram como avançar de forma consistente.
Os indicadores nacionais de insegurança alimentar caíram pelo segundo ano consecutivo, e o Brasil deixou, pela segunda vez, o Mapa da Fome da ONU. Esses resultados merecem ser reconhecidos, especialmente porque refletem o fortalecimento de iniciativas estruturantes, construídas de forma conjunta por governos, sociedade civil, empresas e especialistas. É essa articulação que permite transformar respostas emergenciais em políticas públicas capazes de se sustentar para além de ciclos políticos.
Ainda assim, os desafios são expressivos. Segundo a PNAD Contínua 2024, 55,4 milhões de brasileiros vivem em algum grau de insegurança alimentar, e 6,4 milhões enfrentam a fome. Esses números deixam claro que não há espaço para complacência. Ao mesmo tempo, experiências concretas em nível estadual mostram que políticas bem implementadas, com governança e cooperação institucional, produzem resultados mensuráveis.
É o caso do Maranhão e do Pará, estados onde o Pacto Contra a Fome atua no fortalecimento do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan). Ambos foram reconhecidos pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social no Prêmio Brasil Sem Fome, e apresentaram avanços significativos tanto na redução da insegurança alimentar grave quanto na adesão ao Sisan, hoje, nosso indicador mais consistente de institucionalização da política. No Pará, o número de municípios aderidos saltou de 39 para 118, alcançando 28% de cobertura. No Maranhão, passou de 87 para 187 municípios, cobrindo 36% da população em insegurança alimentar, acima da média nacional de 20%. Esses resultados refletem a mobilização coordenada entre governos estaduais, municípios e demais setores em torno de uma agenda comum, técnica e permanente de segurança alimentar.
Outro marco de 2025 foi o lançamento da Agenda Legislativa “Da Política ao Prato”, construída em conjunto com outras organizações da sociedade civil. A agenda reuniu sete propostas prioritárias para combater a fome, ampliar a segurança alimentar e reduzir o desperdício de alimentos. Em pouco mais de 30 dias, três dessas medidas foram aprovadas pela Câmara dos Deputados e se tornaram lei, um ciclo raro no Congresso Nacional, reconhecido publicamente como histórico tanto pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, quanto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Entre os avanços, destaca-se a institucionalização do Pronaf, agora previsto em lei; a priorização de municípios com baixo IDH e alta insegurança alimentar no planejamento do Sisan; e a autorização para o uso da rede do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) em situações de calamidade pública. Mais do que o conteúdo das medidas, o processo revelou a força de uma agenda construída coletivamente e a importância de um Congresso mobilizado em torno do direito humano à alimentação adequada.
Mas nenhuma política pública se sustenta sem quem atua diariamente nos territórios. Por isso, um dos momentos mais simbólicos de 2025 foi a realização do Prêmio Pacto Contra a Fome, que destinou R$ 1,8 milhão em recursos ao longo de três anos para reconhecer e fortalecer iniciativas de todo o país no enfrentamento à insegurança alimentar e ao desperdício. As organizações premiadas demonstram que o combate à fome tem rosto, território e protagonismo, e que a sociedade civil é uma força estratégica indispensável para transformar políticas em resultados concretos.
Também em 2025, realizamos uma campanha nacional de conscientização sobre o desperdício de alimentos, levando ao grande público mensagens sobre perdas, consumo responsável e eficiência. Ao alcançar milhões de pessoas, a campanha ajudou a consolidar o entendimento de que o desperdício não é apenas uma questão individual, mas um problema econômico, social e ambiental que exige ação coordenada entre governos, empresas e consumidores.
Nesse mesmo espírito, apoiamos o lançamento da iniciativa Brasil Sem Desperdício, uma articulação multissetorial liderada pelo WWF-Brasil e pelo WRAP (Waste & Resources Action Programme). A iniciativa convida empresas, governos e organizações a medir, reportar e reduzir perdas de alimentos ao longo de toda a cadeia, com metas comuns, métricas independentes e alinhamento ao ODS 12.3. Trata-se de um passo decisivo para uma transformação estrutural na forma como o país produz, consome e valoriza alimentos.
O ano de 2026 será decisivo. As eleições definirão prioridades e moldarão a agenda pública dos próximos quatro anos. É indispensável que fome e desperdício de alimentos estejam no centro do debate eleitoral, não como slogans, mas como compromissos permanentes, baseados em evidências, governança e financiamento contínuo. A segurança alimentar precisa deixar de ser política de governo para se consolidar como política de Estado.
Se 2025 nos ensinou algo, foi que o Brasil avança quando reconhece o que funciona e escolhe fortalecer essas experiências. O país que voltou a comer com dignidade precisa agora garantir que esse direito seja permanente, protegido e inegociável.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
