Transformar desigualdades exige convergência
Políticas Públicas

Por Fabiana Prianti, head da B3 Social
As desigualdades regionais, raciais e de gênero continuam a limitar o desenvolvimento do Brasil. Apesar de avanços importantes, o acesso à educação de qualidade, às oportunidades e aos serviços públicos ainda é muito desigual. A experiência mostra que ações isoladas não resolvem problemas estruturais. Para mudar esse quadro, é preciso enfrentar as causas da desigualdade com estratégias mais integradas e consistentes.
A desigualdade começa cedo. Enquanto 55% das crianças das famílias com maior renda frequentam creche, entre as 20% mais pobres esse acesso não chega a 25%, segundo a PNAD Contínua do IBGE. Essas diferenças iniciais se acumulam ao longo da vida escolar, afetam a aprendizagem, aumentam o risco de abandono e reduzem as chances de conclusão do Ensino Médio e de acesso a melhores oportunidades no futuro.
Nesse contexto, as organizações da sociedade civil que atuam nos territórios têm um papel fundamental. Por estarem próximas das comunidades, conhecem os desafios reais enfrentados por crianças e jovens e ajudam a construir soluções onde o poder público, muitas vezes, encontra limites. Esse trabalho, no entanto, só gera impacto duradouro quando está conectado às políticas públicas e fortalecendo sua implementação – não substituindo a atuação do Estado, mas o complementando e acelerando seus movimentos, criando soluções inovadoras para reduzir desigualdades e promover desenvolvimento.
A educação pública é um dos espaços onde essas desigualdades aparecem de forma mais clara. Diferenças de aprendizagem ligadas ao nível socioeconômico, à raça, ao gênero, às barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência e ao território de origem seguem moldando trajetórias. No Brasil, o CEP ainda pesa muito sobre o futuro. Um estudo do Todos Pela Educação, com base na PNAD Contínua (2015–2025), mostra que apenas 69,5% dos jovens pretos, pardos e indígenas concluem o Ensino Médio até os 19 anos, frente a 81,7% entre brancos e amarelos. Entre os jovens de baixa renda, esse percentual cai para 60,4%, enquanto chega a 94,2% entre os de renda mais alta.
Diante disso, não há atalhos. Soluções eficazes precisam respeitar os contextos locais, valorizar práticas que já existem e escutar quem vive o problema no dia a dia. Incorporar esses saberes não é apenas uma questão de justiça, mas uma condição para que políticas e iniciativas funcionem melhor.
Conectar filantropia estratégica, educação pública de qualidade e inovação social é um desafio grande, mas necessário. Quando dados, diálogo entre setores e ações alinhadas às políticas públicas caminham juntos, surgem caminhos reais para ampliar oportunidades e reduzir desigualdades. É nessa convergência que o Brasil pode avançar, com impacto que não termina no presente, mas constrói futuro.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
