Caso de irmãos no MA expõe drama de crianças desaparecidas no país
Direitos HumanosO desaparecimento de Allan e Agatha, de 4 e 6 anos, revela a dor de milhares de famílias brasileiras que convivem diariamente com a ausência e a falta de respostas. Em 2025, 66 crianças e adolescentes despareceram por dia, no Brasil

Os irmãos Allan (4) e Agatha (6) desapareceram há exatamente um mês. Eles estavam com o primo, Anderson Kauã (8) quando saíram da casa da avó, na comunidade quilombola de São Sebastião dos Pretos, zona rural de Bacabal, no Maranhão.
As crianças seguiam para a casa do pai de Kauã, que ficava mais adiante. Os três foram vistos juntos pela última vez próximo a um atalho na mata.
Três dias após o desaparecimento, Kauã foi encontrado sozinho em uma estrada de terra, a quase 4 quilômetros de casa. Ele contou que os primos passaram por uma casa abandonada — que chamou de “casa caída” — e que depois acabaram se separando. Para a família, porém, os irmãos não estão mais na mata.
Desde então, a angústia tomou conta da comunidade. Mais de mil pessoas já participaram das buscas, entre moradores, voluntários e forças de segurança. Mesmo com o esforço coletivo, nenhum vestígio das crianças foi encontrado até agora.
O desaparecimento de Allan e Agatha escancara uma realidade muitas vezes invisibilizada no país.
Um levantamento baseado em dados enviados pelos governos estaduais ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça, aponta que o Brasil registrou 23.919 casos de desaparecimento de crianças e adolescentes em 2025. O número representa uma média de 66 desaparecimentos por dia, além de uma alta de 8% em relação a 2024.
Número de desaparecidos bate recorde no país
Considerando todas as faixas etárias, o cenário é ainda mais alarmante. Somente no ano passado, mais de 84 mil pessoas desapareceram no Brasil — o maior número desde o início da série histórica do Painel, iniciada em 2015, superando inclusive os índices registrados antes da pandemia de Covid-19.
A taxa nacional de pessoas desaparecidas em 2025 foi de 39 casos a cada 100 mil habitantes.
O estado de São Paulo concentra o maior número absoluto de registros: foram 20.564 pessoas desaparecidas, o que representa cerca de 24% do total do país — praticamente um em cada quatro casos. Proporcionalmente à população, porém, o maior índice é o de Roraima, com cerca de 80 desaparecimentos por 100 mil habitantes.
Tráfico humano
Parte considerável dos casos de desaparecimento está relacionada ao tráfico de pessoas.
No caso de crianças e adolescentes, o crime pode envolver fins ilícitos como adoção ilegal, exploração sexual e até comércio de órgãos. Dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam um crescimento de 20% nas denúncias de tráfico humano entre 2023 e 2024/2025.
A Lei 13.344, de 2016, incluiu na legislação novas modalidades do crime: trabalho análogo à escravidão, servidão, adoção ilegal e remoção de órgãos e tecidos. O tráfico humano afeta cerca de 2,5 milhões de pessoas e movimenta aproximadamente 32 bilhões de dólares por ano, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
Sistema de alerta para crianças desaparecidas
No caso dos irmãos, a força-tarefa conta com o apoio do protocolo Amber Alert, acionado em situações consideradas de alto risco.
Segundo Iara Buono Sennes, coordenadora de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas, a ferramenta tem sido fundamental na localização de crianças desaparecidas. O sistema emite alertas emergenciais e utiliza plataformas da Meta, como Facebook e Instagram, para divulgar informações e imagens das vítimas em um raio de até 200 quilômetros do local do desaparecimento.
Há o temor de que Allan e Agatha possam não estar mais no estado do Maranhão. Por isso, a divulgação das fotos e das informações sobre as crianças é essencial.
Caso reconheça alguma delas, a orientação é entrar em contato imediatamente com a polícia local ou pelos canais oficiais de desaparecidos.
ONG Mães da Sé
Referência nacional na busca por pessoas desaparecidas, a ONG Mães da Sé atua há quase três décadas no apoio a famílias e na mobilização por respostas. A organização foi fundada em 1996, em São Paulo, por Ivanise Esperidião, após o desaparecimento de sua filha, Fabiana — caso que permanece sem solução.
Desde então, a ONG realiza o cadastro e a divulgação de pessoas desaparecidas, orienta familiares sobre os primeiros procedimentos legais, oferece apoio psicológico e social e atua em articulação com autoridades públicas.
Ao longo de sua trajetória, a Mães da Sé já cadastrou milhares de casos e contribuiu para a localização de um número significativo de pessoas. A entidade também promove campanhas de conscientização e utiliza recursos tecnológicos, como bancos de dados e ferramentas de reconhecimento facial, para ampliar as chances de reencontro entre famílias e desaparecidos.
Entre no site da ONG Mães da Sé http://www.maesdase.org.br/ e verifique as fotos das crianças desaparecidas.
Se você reconheceu alguma criança no site ou tem informações sobre as crianças mostradas na matéria, ligue para o 190 ou para as Mães da Sé (tel.: 3337- 3331).
