Um ato de amor
Cultura Organizacional

Por Luiza Serpa
Imagino que, ao ler o título, você tenha pensado que eu contaria maravilhas sobre os nossos belos trabalhos. Mas esta não é uma dessas reflexões. O que proponho aqui é um olhar mais atento sobre a crítica, esse gesto tantas vezes mal compreendido, mas profundamente necessário nas relações humanas, institucionais e sociais.
Sou considerada uma pessoa bastante exigente e crítica em algumas áreas da minha vida. Sempre busco entender os pontos de vista, de onde vêm as percepções. Converso com meus pares sobre como lidam com suas lideranças, equipes e parceiros, e muitos sentem algo muito parecido comigo.
Faço críticas porque quero o melhor. Só se critica aquilo em que se acredita. Só se dedica energia ao que se deseja ver crescer, prosperar e se fortalecer. A indiferença, essa sim, é silenciosa e estéril.
Claro, falo a partir do que eu entendo como o melhor para mim, para a organização, para a equipe e para a minha família. Quando faço uma crítica, faço com o coração cheio de sentimentos: esperança, frustração, preocupação e confiança. Mas, acima de tudo, amor.
Só critico quem ou o que acredito.
Quem quero ver crescer, prosperar e se fortalecer.
Alguns podem pensar: “Mas nunca nada está bom para ela?”
Está, sim.
Mas quase sempre dá para melhorar mais um pouquinho.
Não quero aqui bater palma para essa onda tóxica da positividade excessiva, da superação permanente e da produtividade sem fim. Sempre lembro de frases que atravessam o tempo e nos ajudam a pensar o crescimento de forma mais honesta. “Mar calmo não faz bom marinheiro.” “O que não nos mata nos torna mais fortes.” “As grandes almas têm vontades; as fracas, apenas desejos.” Um provérbio africano também nos lembra que nenhuma árvore cresce forte sem enfrentar ventos fortes.
Quando sabemos que quem critica o faz para o nosso bem, algo pode florescer ali. Agora, se a crítica vem apenas para derrubar ou destruir, talvez essa relação já tenha azedado há bastante tempo.
Isso não significa defender o conflito permanente ou a crítica destrutiva. Pelo contrário. Trata-se de reconhecer o valor das boas relações, aquelas em que a crítica é exercida como cuidado, como convite ao deslocamento de olhar e como oportunidade de reinvenção.
Eu só faço críticas a quem eu gosto.
Do contrário, deixo seguir.
Critico pessoas, organizações e espaços nos quais desejo permanecer, justamente porque quero continuar acreditando neles. A crítica, nesse sentido, é um gesto de permanência, não de ruptura.
Nossa reação à crítica diz muito sobre nossa segurança emocional. E essa segurança pode e deve ser trabalhada, cuidada e fortalecida.
Andamos um pouco entorpecidos, apáticos, desanimados, com falta de sensibilidade emocional e mental. Vamos normalizando esse estado, cheio de vazios, até que ele nos leva ao esgotamento.
Talvez seja hora de fazer o caminho inverso.
Valorizar quem acredita na gente.
Quem discorda.
Quem se importa.
E aceitar, de uma vez por todas, que a crítica também pode ser um ato de amor.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
