O território ainda determina o destino? Desigualdades regionais e mobilidade social no Brasil
Políticas Públicas

Por Vitor Hugo Neia
O último dia 20 marcou o Dia Mundial da Justiça Social, uma data que não pode se limitar a um simbolismo no calendário internacional. Esse, certamente, é um lembrete incômodo de que, no Brasil, a promessa de igualdade de oportunidades ainda esbarra em um fator decisivo: o território. A pergunta é direta: o local onde uma pessoa nasce continua determinando suas possibilidades de futuro? A resposta, embora desconfortável, é sim.
Em um País de dimensões continentais e desigualdades históricas profundas, a mobilidade social não é distribuída de forma homogênea. Ela é condicionada pelo acesso à infraestrutura, à qualidade da educação, à presença de políticas públicas eficazes e ao dinamismo econômico local. O CEP segue operando como um marcador social silencioso, delimitando horizontes antes mesmo que o mérito individual entre em cena. Falar em justiça social, portanto, exige reconhecer que a desigualdade territorial é um dos principais entraves à mobilidade no Brasil.
As disparidades regionais não são meras diferenças estatísticas. Elas estruturam oportunidades. Enquanto determinadas regiões concentram investimentos, inovação e empregos qualificados, outras convivem com fragilidade institucional, escassez de serviços públicos e mercados de trabalho instáveis e informais. Essa assimetria não apenas limita o crescimento econômico local, mas compromete trajetórias individuais e perpetua ciclos intergeracionais de desigualdade.
Nas grandes cidades, essa realidade assume contornos ainda mais visíveis. A proximidade física entre riqueza e pobreza não gera inclusão automática. Ao contrário, a segregação socioespacial impõe barreiras concretas: deslocamentos longos e custosos, escolas com menos recursos, menor acesso a redes de apoio e restrição a oportunidades profissionais qualificadas. O território deixa de ser apenas cenário e passa a ser estrutura. Ele molda expectativas, condiciona escolhas e, muitas vezes, antecipa limites.
A educação, frequentemente apontada como principal motor da mobilidade social, também sofre os efeitos dessa desigualdade territorial no País. Não basta ampliar matrículas; é preciso garantir qualidade. Escolas em regiões mais vulneráveis enfrentam desafios maiores de infraestrutura, retenção de profissionais e educadores e acesso a recursos pedagógicos de qualidade. O impacto disso se manifesta na transição para o ensino técnico, superior e, posteriormente, no mercado de trabalho. Quando a qualidade educacional varia conforme o território, a promessa de igualdade de oportunidades se fragiliza.
O mercado de trabalho aprofunda essa dinâmica. Regiões com maior dinamismo econômico concentram empregos formais e com melhor remuneração, enquanto áreas menos desenvolvidas oferecem, majoritariamente, ocupações informais e de baixa complexidade. A ausência de políticas consistentes de desenvolvimento regional limita a geração de renda e estimula fluxos migratórios que, embora ampliem oportunidades individuais, esvaziam economicamente determinados territórios. O resultado é um ciclo que retroalimenta desigualdades.
É por isso que mobilidade social e desenvolvimento territorial não podem ser tratados como agendas paralelas. São dimensões da mesma equação. Não basta ampliar políticas nacionais de educação ou emprego se elas não dialogarem com as especificidades locais. É preciso fortalecer capacidades institucionais nos territórios, apoiar economias regionais e integrar políticas públicas de forma estratégica. Sem essa abordagem, continuaremos produzindo soluções genéricas para problemas profundamente enraizados.
Nesse contexto, iniciativas da Fundação Grupo Volkswagen buscam atuar onde há essas barreiras. O programa Empreenda Social, por exemplo, oferece formação profissional associada ao acolhimento de filhos e dependentes das participantes durante o período de capacitação. Nele, vemos um enfrentamento de um obstáculo estrutural frequentemente invisibilizado: a sobrecarga de cuidado que limita a inclusão produtiva feminina. Mulheres, sendo elas em sua maioria jovens negras e LGBTQIAPN+, podendo estudar com segurança e foco, ampliando suas perspectivas de geração de renda e autonomia. Mais do que qualificação, trata-se de remover barreiras concretas impostas pelo território e pelo contexto social.
Da mesma forma, o CO.DE School integra formação tecnológica e inclusão produtiva como estratégia estruturante. Ao alinhar capacitação técnica às demandas reais do mercado, a iniciativa demonstra que é possível transformar potencial em oportunidade quando há intencionalidade estratégica e atuação territorial. O êxito da primeira edição confirma que inclusão produtiva não é retórica: é resultado de desenho consistente e compromisso de longo prazo.
O debate sobre justiça social, portanto, exige clareza. Não haverá mobilidade social robusta enquanto persistirem desigualdades regionais profundas. Garantir infraestrutura adequada, acesso equitativo a serviços públicos de qualidade e oportunidades produtivas em todas as regiões não é apenas uma meta administrativa — é uma decisão política. Quando o território deixa de ser barreira e passa a ser plataforma de desenvolvimento, a mobilidade social deixa de ser exceção.
No mês em que é celebrada a Justiça Social, a pergunta não pode permanecer no campo retórico. Que País estamos dispostos a construir? Um Brasil em que a geografia continue delimitando destinos ou uma nação que reconhece que justiça social começa pela correção das desigualdades territoriais? Transformar essa escolha em estratégia pública consistente é o desafio que se impõe. Sem enfrentamento estrutural das disparidades regionais, continuaremos celebrando datas simbólicas enquanto o destino seguirá sendo, para muitos, definido pelo mapa.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
