O desafio da execução territorial na Amazônia

Políticas Públicas
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Imagem: ChatGPT

 

Por Daniel Grynberg

 

Quando as queimadas atingem um território, a imagem da destruição costuma ser o principal foco. O que demora mais, e muitas vezes nem chega, é o apoio necessário para reconstruir, restaurar e garantir continuidade para quem vive ali. Esse contraste diz muito sobre como ainda tratamos a Amazônia.

A COP ajudou a ampliar a visibilidade da região norte do país e a pressão por respostas concretas, inclusive no campo do investimento social. O novo Censo GIFE aponta R$5,8 bilhões em investimento social privado em 2024, o que mostra capacidade de mobilização de recursos. Mas a questão decisiva continua em aberto: esse dinheiro está chegando aos territórios de forma a fortalecer organizações locais e sua capacidade de execução, ou ele ainda chega aos territórios sem escuta e sem fortalecer quem já atua neles?

Hoje, há mais reconhecimento sobre o potencial da sociobioeconomia, que combina preservação, geração de renda e fortalecimento comunitário. O problema é que o debate, muitas vezes, avança mais rápido do que a implementação. Recursos chegam, iniciativas são anunciadas, mas nem sempre execução, se fortalece o que sustenta o impacto no cotidiano: organizações locais, articulação comunitária, gestão, logística e continuidade. Esse descompasso entre decisão e execução também aparece em outras frentes da agenda socioambiental na Amazônia, onde avanços institucionais nem sempre se convertem, na mesma velocidade, em resposta efetiva no território.

É por isso que o financiamento com execução territorial faz diferença. Não se trata apenas de repassar recursos, mas de apoiar quem já conhece o território e sustenta soluções na prática, com capacidade local, articulação comunitária e condições para que as respostas ganhem continuidade.

Experiências de apoio a iniciativas amazônicas ajudam a mostrar esse caminho ao fortalecer frentes como restauração, manejo e sociobioeconomia. Em contextos de eventos extremos, como as queimadas no Marajó, esse tipo de apoio é ainda mais relevante porque combina recuperação ambiental, organização comunitária e continuidade.

Se queremos que essa estratégia de desenvolvimento avance de forma consistente na Amazônia, precisamos qualificar também a forma de financiar impacto. O desafio não é apenas ampliar o volume de recursos, mas ampliar a capacidade de transformar recursos em execução territorial. No fim, a diferença está menos no volume anunciado e mais na capacidade de fortalecer quem sustenta a resposta no território.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daniel Grynberg

Daniel Grynberg é diretor executivo do Grupo +Unidos, bacharel em Administração de Empresas pelo Insper e mestrado em Gestão Pública pelo Insper.