Mais estudo, menos salário: o paradoxo enfrentado por mulheres negras jovens
Direitos HumanosApesar de terem apresentado o avanço mais consistente no ensino superior na última década, as mulheres jovens negras seguem com a menor remuneração média do mercado formal, aponta estudo

*Por Lucas Neves
Em 2026, 8 de março marca a 115º celebração do Dia Internacional da Mulher. Além de simbolizar a luta histórica pela igualdade de gênero, a data convida a sociedade a refletir sobre os atuais problemas da sociedade.
Em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, a presidente do Conselho Consultivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial, Wânia Sant’Anna, destaca a necessidade de reconhecer e contornar os desafios que as mulheres jovens negras enfrentam, sobretudo, no mercado de trabalho.
O estudo “Juventudes Negras e Empregabilidade”, publicado em 2025 pela Fundação Itaú em parceria com o Pacto de Promoção da Equidade Racial, expôs dados paradoxais, gerados pela combinação do racismo estrutural e o machismo.
Apesar de terem apresentado o avanço mais consistente no ensino superior na última década, as mulheres jovens negras seguem com a menor remuneração média do mercado formal (R$ 1.997,68). Wânia explica que esse paradoxo expõe o que é chamado de “teto de concreto”.
“Isso acontece porque o mercado ainda utiliza mecanismos inaceitáveis de discriminação e exclusão. Muitos afirmam que estamos diante de filtros invisíveis como o fit cultural e critérios subjetivos que penalizam quem não reproduz o padrão das elites brancas. Isso é verdade, mas também é verdade que essas práticas e obstáculos representam um enorme desperdício ao desenvolvimento econômico e social do país“.
Wânia também lembra do impacto causado pelo trabalho não remunerado. Conforme o estudo, 89,3% das jovens negras estão sobrecarregadas com tarefas domésticas e de cuidados.
“Sem suporte público ou flexibilidade nas empresas, essa sobrecarga funciona como uma barreira que empurra 46,1% dessas jovens para a informalidade, onde não possuem proteção social”, salienta.
Combatendo a desigualdade de gênero e o racismo estrutural
Os dados da pesquisa “Juventudes Negras e Empregabilidade” apresentam uma análise aprofundada da inserção da juventude negra no mercado de trabalho brasileiro. Wânia acredita que, quando se trata do racismo estrutural e da desigualdade de gênero, é preciso transformar diagnósticos em governança estratégica para haver mudança.
Segundo ela, o primeiro passo é a transparência salarial, visando corrigir a penalidade racial que faz mulheres negras ganharem 47,5% a menos que homens não negros em funções similares.
O passo seguinte é a implementação de metas inegociáveis para alta liderança, espelhando o exemplo do setor público que já estabelece mínimos de 30% para cargos de decisão.
“Por fim, é essencial investir em políticas de permanência que combatam o etarismo e ofereçam suporte real ao cuidado, garantindo que o acúmulo de experiência dessas mulheres se converta em poder de decisão e não em estagnação na carreira“, conclui.
Juventudes Negras e Empregabilidade
O Pacto de Promoção da Equidade Racial é uma associação que trabalha para centralizar a questão racial no debate econômico, atraindo a atenção de empresas, investidores institucionais, sociedade civil e governo para a importância da diversidade e inclusão.
Junto à Fundação Itaú, a associação trabalhou no estudo “Juventudes Negras e Empregabilidade”. Analisando o contexto atual brasileiro, Wânia fala sobre a relevância desse trabalho. “As juventudes negras representam a maioria da população jovem brasileira (59,51%) e essa expressiva maioria precisa ser vista e compreendida como fonte potencial de transformação econômica do país“.
Segundo ela, é necessário ter a capacidade de superar as desigualdades históricas que minam as chances e oportunidades desses jovens. Nesse sentido, os dados específicos sobre a juventude negra permitem sair do discurso simbólico e construir estratégias baseadas em evidências.
“O estudo revela, por exemplo, que a exclusão racial se torna mais severa justamente nos níveis mais altos de escolaridade, como na pós-graduação, onde o índice de exclusão chega a -0,37. Ignorar esses dados é aceitar o desperdício de capital intelectual da maioria demográfica do Brasil“, finaliza.
