Brasil ODS discute como mobilidade urbana evidencia desigualdades e desafios no acesso ao transporte no Brasil

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Episódio do programa Brasil ODS discute como renda, localização e infraestrutura influenciam o deslocamento nas cidades, especialmente nas periferias

(Reprodução Internet)

Por Vitória Serrão.

O tempo gasto na locomoção diária e as possibilidades no acesso ao transporte são questões que evidenciam os impactos das desigualdades socioeconômicas e as dificuldades enfrentadas no dia a dia da população brasileira. Segundo levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), realizado em 2024, cerca de 29,4% dos usuários abandonaram o transporte público desde 2017, enquanto 27,5% reduziram sua frequência de uso.

A mobilidade urbana no Brasil revela desafios que afetam diretamente a qualidade de vida da população e a precariedade no planejamento urbano. Em 2020, apenas 36,5% dos municípios com mais de 250 mil habitantes possuíam planos de mobilidade urbana, e somente 17,6% utilizavam sistemas de bilhetagem eletrônica integrada no transporte público.

Em reflexão sobre essas questões, o programa Brasil ODS debate, em seu novo episódio “Os desafios da mobilidade urbana e suas relações com as condições de vida nas periferias”. Apresentado pelo jornalista e fundador do Observatório do Terceiro Setor (OTS), Joel Scala, o bate-papo também contou com o apoio da colunista do OTS, especialista e pesquisadora em mobilidade urbana e ODS, Gabriela Chabu.

Para discutir o tema, o programa recebeu Matheus Henrique Barboza, coordenador de mobilidade urbana na Quanta Consultoria e pesquisador do Centro de Ciência de Dados para Estatísticas Públicas (CCDEP), e Angela Pilotto, professora de planejamento urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

O episódio está alinhado ao ODS 11- Cidades e Comunidades Sustentáveis da Agenda 2030, e se desenvolve à partir da pesquisa de Matheus Barboza, que analisa padrões de deslocamento de moradores da cidade de São Paulo com base em dados de telefonia móvel. O estudo identifica diferenças significativas na maneira como moradores de favelas e de áreas não periféricas se deslocam pela cidade, evidenciando como as desigualdades urbanas influenciam as possibilidades de mobilidade no cotidiano.

A mobilidade urbana também reflete desigualdades sociais

A pesquisa Agenda Urbana 2024, realizada com 11,7 mil pessoas, revelou que 44% dos brasileiros veem a mobilidade como o maior desafio local e, na cidade de São Paulo, 64,8% dos entrevistados consideraram inadequado o tempo de espera no transporte público.

Durante o programa, a professora Angela Pilotto, destacou que as dificuldades são sentidas de maneiras ainda mais desiguais levando em consideração fatores como renda, localização e tipo de transporte utilizado.

“A renda influencia diretamente as possibilidades de mobilidade. Já a localização também faz diferença, se a pessoa vive em áreas mais centrais ou nas periferias. Existem favelas mais bem localizadas, próximas de empregos, escolas, hospitais e outros serviços, mas há também aquelas situadas em áreas mais distantes. Essa localização interfere na qualidade do transporte disponível. Além disso, o modo de deslocamento, seja transporte coletivo, caminhada, bicicleta ou automóvel, também influencia o acesso das pessoas às oportunidades existentes na cidade”, comenta Angela.

Os impactos dessa realidade são sentidos tanto na economia quanto na qualidade de vida da população. De acordo com a plataforma digital Endered, em São Paulo, o tempo médio de deslocamento diário no transporte público alcança 2h47, dez minutos a mais que no ano anterior, enquanto usuários de automóveis observaram melhora nos tempos de viagem, evidenciando o desequilíbrio entre modalidades e a falta de atratividade do transporte coletivo.

Com base em seu estudo sobre a variabilidade da mobilidade de moradores de favela de São Paulo, utilizando dados de telefonia móvel, o pesquisador Matheus Henrique destaca a necessidade de reformulação de alguns critérios durante o planejamento de transporte urbano e a importância do ODS 11:

“Quando analisamos o planejamento do transporte, percebemos que as desigualdades sociais ainda não aparecem como um critério central na definição das políticas públicas. Muitas vezes, as decisões sobre a implantação de linhas de metrô ou outras infraestruturas não consideram quem será beneficiado e quais são as características dessa população. O ODS 11 nos lembra que não basta garantir mobilidade: é preciso que ela seja sustentável e inclusiva, permitindo que todos possam ocupar e utilizar a cidade de forma equilibrada”, enfatiza Matheus.

Acompanhe o Brasil ODS

O Brasil ODS é uma produção audiovisual do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, com o apoio da Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A iniciativa é voltada à divulgação científica e ao debate público sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.

O programa vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 15h30 na Rádio Brasil de Fato.

Clique aqui para conferir o episódio!