Crise migratória: fortalecimento familiar como estratégia de proteção de crianças e adolescentes refugiados
Direitos Humanos

Por Michéle Mansor
Nos últimos anos, o Brasil se consolidou como destino para pessoas que buscam proteção internacional. Dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) revelam que o país concedeu status de refugiado a 164 mil pessoas entre 2019 e 2024, sendo que, desse total, 148 mil eram migrantes da Venezuela. Isto é, nove em cada dez refugiados reconhecidos no país são venezuelanos.
Estamos falando de seres humanos que se viram obrigados a atravessar fronteiras em busca de segurança, dignidade e a possibilidade de começar do zero. São mães, pais, crianças e adolescentes que abandonaram suas casas, rotinas e redes de apoio e se lançaram à própria sorte em busca de oportunidades em um novo país.
A travessia raramente é simples. Ela envolve incertezas, longas jornadas e o desafio de reconstruir a vida em um território desconhecido. Para as famílias migrantes, além dos perigos envolvidos no deslocamento em si, existe ainda o risco de haver enfraquecimento e até mesmo ruptura dos laços em solo estrangeiro.
É comum imaginar que a separação entre familiares seja uma consequência inevitável da migração. No entanto, a realidade mostra que esse desfecho também está relacionado às condições que as famílias encontram ao chegar ao país de destino. Quando faltam condições como moradia adequada, acesso a serviços básicos, educação para as crianças, oportunidades de trabalho e redes de apoio, o cotidiano se torna instável e aumenta a pressão sobre os vínculos familiares.
Crianças e adolescentes são os mais afetados nesse cenário. A ausência de estabilidade pode interromper trajetórias escolares, comprometer o desenvolvimento psíquico-emocional e enfraquecer vínculos fundamentais para o bem-estar infantil. Em situações extremas, a precariedade das condições de vida pode levar à separação de membros da família como estratégia de sobrevivência.
Por outro lado, quando há políticas públicas e iniciativas sociais capazes de garantir acolhimento, acesso a direitos e oportunidades de integração, a história tende a seguir outro caminho. Famílias que encontram apoio para reconstruir sua autonomia têm mais chances de permanecer juntas, fortalecendo vínculos e criando um ambiente seguro para que crianças e adolescentes possam continuar se desenvolvendo.
Nesse contexto, iniciativas de acolhimento têm demonstrado que proteger famílias migrantes também é uma forma de proteger a infância. Esse é o caso do programa Brasil Sem Fronteiras, que, desde o final do ano passado, é 100% financiado pela Aldeias Infantis SOS. A iniciativa oferece, desde 2018, apoio a refugiados e migrantes, especialmente famílias venezuelanas que chegam ao país em situação de extrema vulnerabilidade. O suporte vai desde hospedagem temporária e acesso à saúde até a matrícula de crianças na escola e apoio para inserção no mercado de trabalho, criando condições reais para que essas famílias reconstruam suas vidas com dignidade.
Experiências como essas mostram que o acolhimento não se resume a oferecer abrigo temporário. Trata-se de construir caminhos de integração, fortalecer vínculos comunitários e garantir que meninas e meninos tenham assegurados seus direitos fundamentais, independentemente de sua origem.
O Brasil tem uma tradição de direitos universais que precisa ser constantemente reafirmada. Em um cenário global marcado por crises humanitárias e deslocamentos forçados, a forma como acolhemos famílias refugiadas diz muito sobre os valores que orientam nossa sociedade. Ademais, proteger famílias também significa garantir que nenhuma criança ou adolescente precise enfrentar sozinho as consequências da migração.
Manter famílias unidas, oferecer oportunidades de recomeço e assegurar o acesso a direitos básicos são passos essenciais para que o refúgio represente, de fato, um novo começo. Porque, quando uma família consegue permanecer junta e reconstruir sua vida com dignidade, toda a sociedade se fortalece.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
