“Criei o Instituto Hypolito para oferecer às pessoas aquilo que eu não tive na minha infância”

Por Andréa Wolffenbüttel
Algumas pessoas parecem viver muitas vidas dentro de uma só vida. Diego Hypolito é assim. Superou as dificuldades de uma infância pobre, tornou-se atleta de ponta e conquistou medalhas olímpicas. Ganhou fama e dinheiro. Perdeu a fortuna e se recuperou. Descobriu o circo e se encontrou nele. Em meio a tudo isso, assumiu-se como homossexual, disposto a enfrentar os preconceitos. Aceitou o desafio de participar do Big Brother Brasil BBB 2025 e passou por seis paredões. Quem vê essa biografia, pode pensar que ele é um super-herói, mas a força do Diego está no contrário: na sua humanidade. E foi o coração que o levou a sempre se preocupar com os que têm menos condições e fez com que decidisse dedicar seu tempo e seu conhecimento ao trabalho social. Nesta entrevista, ele conta um pouco deste lado da sua história.
Você criou o Instituto Hypolito em 2022, mas quando começou a se preocupar com problemas sociais?
Eu fui uma criança muito pobre. Mesmo morando em uma região rica, como a Zona Sul do Rio de Janeiro, essa não era minha realidade. Eu cheguei a não ter o que comer dentro de casa. Por isso, essas questões sociais me preocupavam desde que eu era pequeno. E assim que comecei a ganhar dinheiro com a ginástica, que foi aos quinze anos, já quis ajudar minha família. Então, quando pude, criei o Instituto Hypolito para oferecer às pessoas aquilo que eu não tive durante minha infância.
Quais foram as principais atividades sociais que você desenvolveu até hoje?
Ah, foram muitas… e muito diversas. Primeiro, doações de todo tipo. Desde ovos de Páscoa e brinquedos para crianças de comunidades carentes até doações para hospitais. Como eu já disse, a partir do momento em que comecei a ganhar dinheiro, eu também comecei a fazer doações. Mas o trabalho mais consistente é o próprio Instituto, que além de oferecer treino para as crianças, oferece também experiências de vida. Elas foram levadas para o Teatro Municipal, para assistir ao Quebra-Nozes, foram ao Maracanã ver a Rayssa Leal, foram conhecer as atletas da seleção brasileira de ginástica e ver as competições.

O que o levou a criar o Instituto Hypolito, mesmo depois de ter perdido boa parte do dinheiro que você ganhou como atleta?
Não é porque eu estava no meu momento financeiro mais conturbado que eu não tinha a cabeça no lugar. Muito pelo contrário. Foi quando eu tive que me entender. Me entender como empresário e me entender como atleta, mesmo que não atuante. Foi nessa época que eu entrei no circo, que me conecta com a arte e a cultura. Também foi quando o Luciano Huck me chamou para participar da Dança dos Famosos e eu queria tirar o Instituto do papel. Minha vida não parou. Eu dei continuidade aos meus planos, especialmente o do Instituto porque eu queria muito dar oportunidade a quem não tem. No meu caso, eu acho que foi Deus quem me ajudou, mas outros precisam contar com a sorte.

Você acha que, no universo da ginástica, existe um ambiente favorável ao apoio a projetos sociais? Os atletas têm essa consciência?
Eu acho que o que falta é conhecimento. Os atletas não têm conhecimento sobre a legislação brasileira, sobre as leis de incentivo e o que é possível fazer. Eu tento transmitir esse conhecimento para as pessoas que conheço e para os jovens no meu instituto. Agora estão surgindo algumas iniciativas. Tem o Projeto Brasileirinhos, da Dayane Santos. Também tem o do Arthur Zanetti, em São Caetano do Sul. Mas na minha opinião ainda são poucos. Seria possível existir muitos mais projetos sociais se os atletas conhecessem a legislação.
Qual o maior desafio em apoiar projetos sociais e qual a maior recompensa?
Essa pergunta é muito fácil. O maior desafio é ter que captar patrocínio todos os anos. Eu passo o ano todo controlando tudo o que o Instituto faz, tudo o que a gente gasta porque a prestação de contas é muito rigorosa. Eu viajo, vou para Brasília, vou para São Paulo, e estou o tempo todo pensando no Instituto e como conseguir recursos. Sobretudo recursos livres. Porque o dinheiro que vem da Lei do Esporte só pode ser gasto com o projeto específico ao qual se destina. Se houver algum problema, algum imprevisto, eu não posso usar essa verba. No ano passado, por exemplo, tivemos inundação nos nossos dois ginásios e precisamos fazer obras de recuperação. Se não fosse o apoio dos patrocinadores privados, como a BV, AEGEA, Ortobom, Banlek e Cimento Nacional, não haveria como recuperar os estádios. Então, sem dúvida, o maior desafio é a captação recursos. Mas tudo vale a pena quando chega a recompensa: o sorriso e a gratidão das famílias. Porque existe mudança social direta e palpável. E você percebe em cada criança, em cada pai.
Se você pudesse provocar uma transformação no mundo, qual seria?
Eu queria que o esporte voltasse a ter um brilhantismo maior dentro dos colégios, que fosse algo obrigatório. Porque o esporte transmite para a criança a questão do respeito, da educação e da disciplina. Eu tenho a sensação de que, mesmo que o esporte, hoje em dia, seja mais valorizado financeiramente do que era na minha geração, há um menor interesse das crianças. De alguma maneira eu queria transmitir para essas crianças a importância de praticar uma atividade, de cuidar da saúde e de cultivar o respeito ao próximo. Tudo isso o esporte proporciona.

Existe algum filantropo que você admira?
Eu baseei meu projeto no Instituto Reação, do Flávio Canto, no Rio de Janeiro. Ele é um querido amigo e o que ele consegue fazer é surreal. O Flávio é um exemplo para mim.
Leia a entrevista que o Observatório fez com o Flávio Canto.
