Violência contra mulheres e exclusão socioeconômica: como a insegurança nas cidades compromete a mobilidade social feminina

Políticas Públicas
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Imagem: ChatGPT

 

Por Vitor Hugo Neia

 

Em pleno ano de 2026, o Brasil continua longe de alcançar uma sociedade verdadeiramente justa e igualitária. A desigualdade de gênero permanece evidente nos centros urbanos, demonstrando que o progresso social no país nem sempre ocorre de maneira contínua ou sequer se concretiza.

A pesquisa “Viver nas Cidades – Mulheres”, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis e Ipsos-Ipec com apoio da Fundação Grupo Volkswagen, revela um cenário alarmante, ainda que bem conhecido, infelizmente: 71% das mulheres entrevistadas em 10 capitais brasileiras afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio, majoritariamente em espaços públicos.

O que esses dados revelam não é apenas sobre insegurança, mas sobretudo sobre o direito básico de circular, ocupar e pertencer à cidade, que deveria ser acessível a todas as pessoas. Os espaços públicos e o transporte coletivo continuam sendo os locais onde as mulheres se sentem mais vulneráveis, o que reforça a ideia de que as cidades, da forma como estão organizadas, ainda não garantem o direito pleno de circulação e segurança para as mulheres.

Mais do que isso, a pesquisa traz à tona a característica estrutural dessa desigualdade: para muitas mulheres, viver nos centros urbanos significa conviver constantemente com o medo. Essa restrição tem impactos diretos também na dimensão econômica. A insegurança afeta decisões cotidianas como aceitar um emprego distante, estudar no período noturno ou buscar por uma qualificação. Em muitos casos, limita a permanência no mercado de trabalho formal ou empurra mulheres para ocupações mais precárias, próximas de casa e com menor remuneração. O medo, portanto, opera como mais um fator silencioso de exclusão econômica.

Os crescentes casos de violência reforçam que o problema não é pontual, mas sistêmico. Eles evidenciam uma sociedade que ainda normaliza comportamentos baseados na desigualdade de gênero. Enquanto essas estruturas persistirem, muitas vezes reproduzidas desde a infância por meio de padrões culturais e educacionais, continuaremos distantes de uma transformação real.

Outro dado que chama atenção refere-se à divisão dos afazeres domésticos. Ainda que muitos homens percebam uma divisão equilibrada, as mulheres seguem acumulando responsabilidades relacionadas ao cuidado da casa e dos filhos, somadas à sua atuação no mercado de trabalho. Essa sobrecarga reduz tempo, energia e disponibilidade para estudo, crescimento profissional e geração de renda, aprofundando desigualdades e restringindo trajetórias de ascensão.

É nesse ponto que o debate sobre justiça social precisa ganhar profundidade. Não basta reconhecer os dados; é necessário compreender suas implicações. Uma sociedade que restringe a liberdade das mulheres e as sobrecarrega também limita seu potencial produtivo, sua autonomia econômica e sua participação plena na vida pública. A desigualdade de gênero, portanto, é um entrave ao desenvolvimento sustentável de todo o país.

Como organização comprometida com a mobilidade social, a Fundação Grupo Volkswagen entende que enfrentar essas desigualdades exige ação estruturada. Investir em educação, acesso e capacitação de mulheres não é apenas uma escolha programática, é uma estratégia de transformação. Quanto mais ampliamos oportunidades, mais criamos condições reais para que mulheres possam viver, trabalhar e prosperar de forma digna e inclusiva.

Por isso, a atuação da Fundação prioriza mulheres e jovens negras, grupos que, historicamente, enfrentam maiores barreiras de acesso e estão mais expostos a contextos de vulnerabilidade. Entre as iniciativas, está a trilha de empregabilidade Autonomia, voltada à formação técnica e socioemocional com foco em habilidades de tecnologia (incluindo apoio psicossocial), e o projeto Empreenda Social, que prioriza pequenas empreendedoras das comunidades onde a Fundação atua. Essas ações dialogam diretamente com os desafios apontados pela pesquisa, ao atuar tanto na prevenção das desigualdades quanto no fortalecimento da autonomia feminina.

Essa escolha não é apenas um recorte de público, mas um posicionamento claro: promover mobilidade social passa, necessariamente, por enfrentar desigualdades estruturais com intencionalidade.

Os dados da pesquisa não deixam espaço para neutralidade. Eles nos colocam diante de uma pergunta urgente: que cidades estamos construindo e para quem? Promover a mobilidade social também significa assegurar que todas as pessoas possam existir nos espaços urbanos com dignidade, segurança e liberdade.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Vitor Hugo Neia

Vitor Hugo Neia é diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen e integra a organização desde 2018. Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), possui sólida experiência em planejamento, gestão e execução de iniciativas no terceiro setor, com ênfase em projetos de inclusão produtiva, desenvolvimento comunitário e redução de desigualdades sociais.