Biomarcadores podem revolucionar o diagnóstico da depressão
TecnologiaBrasil ODS apresenta o Estudo da USP em parceria com Harvard que aponta nova conexão entre sistema nervoso e imunológico, enquanto dados reforçam o avanço da doença no Brasil e no mundo

Por Vitória Serrão.
A depressão é um dos transtornos psíquicos mais comuns enfrentados pela humanidade. De acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), cerca de 300 milhões de pessoas no mundo vivem com a doença.
O Brasil lidera os índices na América Latina: 5,8% da população com depressão, o equivalente a 11,7 milhões de brasileiros, segundo o relatório “Depressão e outros transtornos mentais”, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Em reflexão a essa realidade, o programa Brasil ODS debate o tema em seu novo episódio “Biomarcador pode prever quadros de depressão”. Apresentado pelo jornalista e fundador do Observatório do Terceiro Setor (OTS), Joel Scala, o bate-papo também contou com o apoio da colunista do OTS, Nina Orlow. A discussão está alinhada ao ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) da Agenda 2030 e se desenvolve a partir de uma pesquisa sobre marcadores biológicos.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com a Universidade Harvard, e publicado na revista científica Translational Psychiatry. A pesquisa representa um importante avanço da ciência na identificação de biomarcadores capazes de prever a depressão e ampliar as possibilidades de diagnóstico e tratamento.
Os resultados apontam uma conexão inédita entre o sistema nervoso e o sistema imunológico, na qual genes tradicionalmente associados ao funcionamento dos neurônios, como o PAX6, podem apresentar superexpressão em células de defesa do organismo em contextos de estresse e depressão.
A depressão é uma doença “democrática”
Segundo estudo do Ministério da Saúde, até 15,5% da população brasileira pode desenvolver depressão ao menos uma vez ao longo da vida. A OMS também destaca que a doença pode afetar pessoas em diferentes contextos sociais, mas com crescimento expressivo em países de baixa renda.
No Brasil, fatores como desigualdade social, dificuldade de acesso a tratamento de qualidade na rede pública, estigmas sociais sobre transtornos mentais e a falta de protocolos estruturados de atendimento agravam o cenário, atingindo principalmente populações mais vulneráveis.
Para a psicanalista Juliana Henrique, participante da Rede Clinica Jacques Lacan (IP/USP), articulada a Saúde Mental nas Periferias (ZO de São Paulo) e a Casa de Saúde Cultura Viva de Ubatuba, a depressão pode ser entendida como um indicador do mal-estar contemporâneo que pode afetar a todos.
“A depressão poderia ser chamada de um transtorno ‘democrático’, no sentido de que pode atingir qualquer pessoa. Ao mesmo tempo, manifesta-se de maneira muito particular em cada indivíduo. É importante lembrar que ela é uma forma de expressão de algo que não vai bem”, enfatiza Juliana.
Pensando na importância da prevenção da doença, o professor Otávio Cabral-Marques, livre-docente em Medicina Molecular da Universidade de São Paulo (USP) que participou da pesquisa sobre os marcadores biológicos que podem prever a depressão, a sociedade precisa ampliar o olhar sobre os fatores psíquicos.
“A depressão afeta o ‘software central’ da nossa vida, que é o sistema nervoso central. Mas o estudo mostra que não se trata apenas disso: o sistema nervoso periférico e o sistema imunológico também estão intimamente ligados. É isso que investigamos na psiconeuroimunologia, a interação entre mente, sistema nervoso e sistema imunológico. Esses achados ajudam a combater a ideia equivocada de que a depressão é ‘frescura’ ou algo sem importância”, destaca Otávio.
Acompanhe o Brasil ODS
O Brasil ODS é uma produção audiovisual do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, com o apoio da Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A iniciativa é voltada à divulgação científica e ao debate público sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.
O programa vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 15h na Rádio Brasil de Fato.
