O valor do suprapartidarismo na agenda pública brasileira

Políticas Públicas
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Imagem: ChatGPT

 

Por Rafaela Vieira

 

Em um país da complexidade do Brasil, onde os desafios sociais acompanham a dimensão de seu território, a construção de consensos é fundamental para a resolução dos graves problemas sociais. Pensar em políticas públicas como políticas de Estado — e não de governo — é condição essencial para que avancem com consistência, mantenham continuidade e, sobretudo, alcancem resultados concretos.

Em áreas como a insegurança alimentar — realidade vivida de forma aguda por cerca de 7 milhões de brasileiros —, esse padrão é especialmente necessário, já que o enfrentamento da fome exige consistência, escala e previsibilidade. São desafios urgentes que não podem esperar o próximo ciclo eleitoral nem devem ser alterados a cada novo governo.

Nesse contexto, o suprapartidarismo se coloca como um princípio estruturante para a construção de soluções duradouras. Ao promover a convergência entre diferentes espectros políticos em torno de objetivos comuns, desloca o foco das divergências ideológicas para aquilo que une: a resposta a desafios concretos do país. Em temas sensíveis e urgentes, como o combate à fome, essa abordagem é essencial para garantir continuidade, coordenação e efetividade, assegurando que políticas públicas sejam sustentadas ao longo do tempo e não interrompidas por ciclos eleitorais ou disputas partidárias.

Ser suprapartidário não é ser apolítico. O apolítico e o apartidário se colocam neutros ou à margem do processo político, ou não possuem vinculação partidária. Já uma instituição suprapartidária — como o Pacto Contra a Fome — reconhece a política como um campo legítimo de debate, sem se alinhar a uma corrente ideológica específica. Seu objetivo é justamente o oposto: articular diferentes correntes partidárias e visões de mundo em torno de objetivos comuns, como o fortalecimento da segurança alimentar e a redução do desperdício. É a busca por consensos, amparada por dados e evidências, que conecta diferentes lados e viabiliza políticas públicas capazes de atravessar ciclos eleitorais.

Foi com esse espírito que construímos a Agenda Legislativa da Política ao Prato. Lançada em agosto de 2025, a iniciativa reuniu sete projetos prioritários relacionados à segurança alimentar e ao combate ao desperdício. Com 22 parlamentares de diferentes correntes ideológicas engajados no processo e o apoio de 21 instituições, alcançamos resultados expressivos em um curto intervalo de tempo: em pouco mais de um mês, quatro projetos foram votados na Câmara dos Deputados e três deles foram sancionados, tornando-se lei. Um exemplo concreto de como a construção de consensos pode acelerar e qualificar a agenda pública.

E por que isso importa agora? O país enfrentará, neste ano, um processo eleitoral marcado pela intensificação da polarização. Nesse cenário, é fundamental garantir que, independentemente do resultado das urnas, haja espaço para o diálogo qualificado sobre políticas públicas, sejam elas novas ou já instituídas.

Para isso, o diálogo com diferentes partidos e candidatos é essencial, tendo como objetivo a continuidade e o aprimoramento de políticas estruturantes para a erradicação da fome. Para instituições como o Pacto Contra a Fome, a questão central não é quem apoiar — isso sequer está em discussão —, mas o que sustentar ao longo de um processo permanente e amplo de articulação.

É nesse ponto que o suprapartidarismo se afirma como uma forma de resistência aos radicalismos, protegendo agendas públicas de serem capturadas por interesses conjunturais. Ao atuar com neutralidade institucional e rigor técnico, organizações suprapartidárias se conectam ao que é estrutural para o país, exercendo um papel de convergência — construindo pontes, em vez de muros.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Sobre a autora: Rafaela Vieira é gerente de Relações Institucionais e Políticas Públicas do Instituto Pacto Contra a Fome

 

Diálogos Contra a Fome

O Pacto Contra a Fome é uma coalizão multissetorial que atua para mobilizar a sociedade, governos, academia e empresas na busca de soluções para erradicar a fome e reduzir o desperdício de alimentos no Brasil. Nesta coluna, porta-vozes da organização debatem temas relacionados a esta jornada e compartilham experiências e evidências que podem auxiliar quem trabalha por um Brasil sem fome.