Empreendedorismo feminino e inclusão produtiva: quando a necessidade revela potências e limites estruturais
Políticas Públicas

Por Vitor Hugo Neia
O Brasil é um país majoritariamente feminino. Ainda assim, essa maioria demográfica não se reflete em igualdade de oportunidades. Para muitas mulheres, especialmente aquelas que vivem em territórios vulnerabilizados, empreender não é uma escolha estratégica, mas uma resposta à ausência: de trabalho formal, de renda estável, de redes de apoio e, em alguns contextos, até de segurança e proteção.
Soma-se a esse cenário um fator estrutural que insiste em se manter ao longo do tempo: a responsabilidade histórica pelo cuidado com os filhos, familiares em geral e pelas tarefas domésticas. Uma sobrecarga cotidiana que limita escolhas, restringe tempo disponível e aprofunda desigualdades de gênero no acesso à autonomia e prosperidade socioeconômica.
Esse contexto ajuda a explicar por que o empreendedorismo feminino é tão presente naqueles territórios e, ao mesmo tempo, tão desafiador de se sustentar e se expandir. Não se trata de falta de iniciativa ou de potencial. O que está em jogo é a possibilidade real de crescimento em meio a condições estruturalmente desiguais e excludentes.
O estudo “Potencialidades & Inclusão Produtiva”, realizado pela Fundação Grupo Volkswagen em parceria com o Instituto Toré em três comunidades de atuação da Fundação, oferece um retrato consistente dessa dinâmica, que também se conecta à realidade de mulheres empreendedoras em outras localidades periféricas do Brasil. Nos quatro locais analisados — Favela Alba, Jabaquara (SP), Montanhão e Pós-Balsa (São Bernardo do Campo/SP) e Região das Barras, Resende (RJ) — as mulheres lideram uma parcela expressiva dos empreendimentos locais.
Na Alba, elas estão à frente de 100% dos negócios mapeados. No Montanhão, lideram 68,1% das iniciativas; no Pós-Balsa, 51,3%; já em Resende, 70% dos 120 empreendimentos identificados têm mulheres no comando. Os números não deixam dúvidas: nessas comunidades, o empreendedorismo local tem rosto majoritariamente feminino.
O estudo também evidencia que o principal gargalo não está na ausência de iniciativa. Pelo contrário: essas mulheres demonstram, diariamente, uma enorme capacidade de adaptação e de criação de soluções. O desafio está em lidar com um conjunto de barreiras estruturais persistentes, sobretudo a falta de tempo, fortemente influenciada pela sobrecarga de cuidado; o acesso limitado a capital; e a escassez de oportunidades de formação, articulação e conexão com redes de apoio.
Para ilustrar essa realidade, 45,1% das mulheres empreendedoras na Alba cuidam sozinhas de outras pessoas, frente a apenas 4,2% dos homens. No Montanhão, 24,9% das mulheres são cuidadoras exclusivas, ou seja, as únicas responsáveis por todas as atividades de cuidado. Esses dados evidenciam como a dupla, ou tripla, jornada impacta diretamente na capacidade produtiva e de gestão dos negócios. Vale mencionar que, no Brasil, as mulheres dedicam cerca de 10 horas semanais a mais do que os homens em atividades domésticas, cifra que pode superar as 22 horas semanais para as mulheres negras, segundo estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) realizado em 2025.
Essa equação revela um ponto central: o empreendedorismo feminino nos territórios é, ao mesmo tempo, potência e limite. Potência porque sustenta economias locais, garante renda e amplia oportunidades. Limite porque, quando ocorre sem suporte adequado, enfrenta obstáculos que dificultam crescimento, formalização e sustentabilidade no longo prazo.
Não por acaso, a maior parte daquelas mulheres que empreendem nos territórios pesquisados fazem isso por necessidade de subsistência, sem formalização. Em São Bernardo do Campo (SP), por exemplo, os empreendimentos informais representam 60% e 70% da amostra pesquisada no Montanhão e no Pós-Balsa, respectivamente, com a maioria alegando dificuldades financeiras para poder se formalizar. Esse cenário vai ao encontro dos dados da PNAD Contínua, que revela uma informalidade persistente no mercado de trabalho brasileiro: 37,5%, ou seja, 38,5 milhões de trabalhadores estavam informais no trimestre de novembro de 2025 a janeiro de 2026, com percentuais ainda mais elevados entre mulheres negras, sobretudo.
Superar essa situação exige mais do que incentivar o “espírito empreendedor”. Exige estratégia. A inclusão produtiva só avança de forma consistente quando é tratada de maneira integrada, articulando incentivo à formalização, acesso a crédito, formação técnica e socioemocional, fortalecimento de redes de apoio e soluções concretas para enfrentar a sobrecarga de cuidado e tarefas domésticas.
É a partir dessa compreensão que iniciativas como o Empreenda Social, projeto da Fundação Grupo Volkswagen desenvolvido inicialmente em Resende (RJ) e que será expandido para outros municípios em 2026, ganham ainda mais relevância. A iniciativa promove formação em empreendedorismo para mulheres líderes de pequenos negócios comunitários, com concessão de bolsa-auxílio, capital semente, acompanhamento socioemocional, entre outras estratégias de acesso, inclusão e permanência. Mas seu principal diferencial foi reconhecer as condições reais de vida dessas participantes: ao incorporar atividades voltadas também para seus filhos e familiares — como ações culturais, esportivas e oficinas educativas — o projeto enfrentou um obstáculo estrutural que frequentemente impede a permanência das mulheres em processos formativos e de qualificação.
Experiências como essa deixam claro que políticas e projetos voltados ao empreendedorismo feminino precisam ir além da capacitação técnica. É fundamental considerar o contexto em que essas mulheres estão inseridas e criar condições reais para que elas possam aproveitar as oportunidades oferecidas.
Os dados são contundentes: o empreendedorismo nos territórios é majoritariamente feminino e, em grande parte, negro e periférico. Ignorar essa realidade é desperdiçar a chance de estruturar políticas públicas e investimentos sociais mais eficazes e inclusivos. Reconhecê-la, por outro lado, permite direcionar recursos de forma mais estratégica, com potencial real de mobilidade social.
Quando apoiadas de forma estruturada, essas mulheres ampliam renda, fortalecem e desenvolvem suas comunidades e constroem novas referências para as próximas gerações. A pergunta, portanto, não é se as mulheres empreendem — os dados mostram que sim, e em larga escala. O desafio está em garantir que esse empreendedorismo deixe de ser apenas uma necessidade de sobrevivência e passe a ser uma escolha com reais possibilidades de autonomia e prosperidade individual e coletiva.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
