Mulheres que movem a história são homenageadas na Alesp

Premiação
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Mulheres de diferentes áreas foram reconhecidas por suas trajetórias de impacto social, entre elas a secretária Ana Estela Haddad e a jornalista e ativista Amelinha Teles, símbolo de resistência e luta pelos direitos humanos no Brasil

Imagem: Olívia Rueda/ Alesp

A Frente Parlamentar pela Defesa da Vida e Proteção de Mulheres e Meninas da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo realizou, na última terça-feira (28/04), a solenidade “Mulheres que Movem a História”. O evento idealizado pela deputada estadual Beth Sahão, homenageou mulheres de diferentes áreas de atuação que contribuem para promoção da igualdade de gênero, a defesa dos direitos das mulheres e a superação da violência.

Durante a homenagem, a parlamentar destacou a importância do evento em meio aos números recordes de violência contra a mulher no estado. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, 266 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025, maior número desde o início da série histórica, em 2018.

Beth Sahão conversou om Observatório do Terceiro Setor sobre a importância do evento, especialmente em um momento, que a violência contra as mulheres e casos de feminicídios dispararam no estado de São Paulo.

“É um atalho que permite que as mulheres tenham visibilidade, nas suas respectivas áreas de atuação, mais do que isso, elas representam as mulheres do nosso estado, a mulher que luta, que batalha, aquela que já foi infelizmente morta, as mulheres que sofrem que são agredidas, aquelas que conseguiram com as próprias pernas caminharem nas suas conquistas, isso é uma luta permanente, uma luta que não acaba nunca”, disse a deputada.

O evento não apenas celebrou o legado das homenageadas, mas o esforço coletivo de milhares de brasileiras, que fazem a diferença todos os dias, nos locais onde vivem. Ao todo, 18 prêmios foram entregues para personalidades femininas das áreas de saúde, empreendedorismo, ciência, arte e ativismo.

Homenageadas

Entre as homenageadas está a secretária nacional de Informação e Saúde Digital, Ana Estela Haddad, que tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de professora titular do Departamento de Ortodontia e Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo. Sua trajetória acadêmica é acompanhada por uma atuação na gestão pública, tendo ocupado cargos no Ministério da Educação e no Ministério da Saúde, contribuindo para o desenvolvimento de políticas públicas essenciais para a melhoria da qualidade de vida do povo brasileiro.

Um dia chegou às suas mãos uma carta dirigida ao então Presidente Lula. Havia um relato de uma mãe com extremas dificuldades financeiras que precisava pagar as parcelas do financiamento estudantil que garantiu que o seu filho pudesse concluir o curso de engenharia. Seis meses após a conclusão da graduação, o jovem faleceu, deixando para a mãe a responsabilidade por custear uma custosa dívida, fazendo-a reviver mês a mês a dor dilacerante pela perda do filho amado. Somadas a outras dezenas de cartas de jovens pobres e inadimplentes do Fies, todas com relatos de histórias reais de resistência e dignidade, veio à inspiração para criação de um programa de bolsas que atendesse a população de baixa renda, fazendo nascer o PROUNI.

Na gestão da secretaria digital, Ana Estela Haddad, implementou o SUS Digital em regiões de difícil acesso, onde pessoas levavam dias para chegar a um capital para marcar uma simples consulta médica, hoje com as teleconsultas, não precisam mais se deslocar da sua região, passando por especialidades médicas que não tinha acesso.

Secretária Ana Estela Haddad,  homenageada na ALESP/ Imagem: Observatório do Terceiro Setor

Ana Estela Haddad conversou com o Observatório do Terceiro Setor e falou sobre a responsabilidade e reconhecimento de ser uma das homenageadas e a valorização de iniciativas como o prêmio.

“Pra mim é uma honra participar desse prêmio e estar entre as mulheres reconhecidas. É uma responsabilidade também, quando a gente tem esse reconhecimento. Estamos em uma onda que ao mesmo tempo, que a sociedade vem promovendo o progresso no sentido de mais equidade, de mais diversidade, aceitação e tem muitas iniciativas nessa direção, a gente vê uma reação de parte conservadora da sociedade também no sentido oposto de retrocesso, de manter a desigualdade, às vezes ao custo de violência. Tem aumentado o número de feminicídio, violência contra mulher, acho que o prêmio tem uma importância de reafirmar a força da mulher.”

A secretaria respondeu também sobre o aumento do feminicídio no estado de São Paulo. O estado registrou 55 casos de feminicídio somente nos dois primeiros meses de 2026, número que representa quase 1 assassinato de mulher por dia. Em 2025, foram registradas 42 mortes no mesmo período, um aumento de 31%.

“O estado de São Paulo é muito dissidente, discrepante no que a gente vê na politica do governo federal, onde a gente tem o Ministério das Mulheres. No município quando o Haddad foi prefeito, teve a criação de uma secretaria de politicas publicas para as mulheres. E o presidente Lula promove politicas públicas voltada para as mulheres, o bolsa família o beneficio vai para a mulher, minha casa minha vida, a casa vai em nome da mulher, luz para todos, e assim por diante, são politicas que empoderam a mulher, nesse espaço de provedora, de chefe de família. São Paulo é um estado que apesar de ser rico, mais de 40%das famílias são monoparentais, e a chefe da casa é a mulher, então a gente precisa ter politicas publicas que apoiem a mulher. Ela tem um pilar na sociedade, seja na família e no trabalho fundamental”, diz Ana Estela Haddad.

Outra homenageada foi a jornalista e ativista Amelinha Teles, que foi entrevistada no podcast Conexão 3, do Observatório do Terceiro Setor. Sendo um dos programas mais visualizados nas redes sociais do Observatório.

Desde 1960, inspirada por seu pai, que também inspirou sua irmã Crimeia, Amelinha iniciou ainda muito jovem sua militância política, ligada às causas dos trabalhadores. Com o golpe civil-militar de 1964, passou a enfrentar o estado de exceção e suas armas com coragem. Presa em 1964, ao lado da sua irmã, vivenciou a força do arbítrio do Estado ditatorial. Solta, seguiu na luta contra a ditadura até a nova prisão, em 1972, desta vez sendo levada à Operação Bandeirantes. Lá, vivenciou o que a maldade humana é capaz de fazer, sentindo na própria carne a covardia de homens brutos, sob a liderança do Cel. Brilhante Ustra! Amelinha foi submetida a torturas e outras práticas degradantes.

Amelinha Teles, jornalista e ativista, durante homenagem na Alesp/ Imagem: Observatório do Terceiro Setor

Foi torturada ao lado do seu marido. Presenciou a morte de companheiros, barbaramente torturados. Enfrentou com coragem seus algozes, que não mediram esforços em descer aos esgotos da humanidade quando levaram seus filhos ainda crianças, de 4 e 5 anos, Edson e Janaína, para assistirem as sessões de tortura. Amelinha venceu as torturas, somou forças para derrotar a ditadura e se tornou protagonista da reconstrução democrática brasileira. Foi atuante do processo constituinte, legando ao povo brasileiro a Constituição.

Em 2005, Amelinha e sua família moveu uma ação declaratória contra Carlos Alberto Brilhante Ustra. Após o trâmite judicial, o coronel foi o primeiro agente da ditadura a ser declarado torturador. Ou seja, por ação da Família Almeida Teles, o Estado brasileiro reconheceu e declarou o Coronel Brilhante Ustra como Torturador.

Amelinha quando recebeu o prêmio fez questão de falar que é feminista e falou sobre a importância do legado das homenageadas e  enfrentamento do apagamento das  mulheres na história.

“Eu sou feminista, e então eu falo que estou recebendo uma “femenagem”, estou muito feliz e muito orgulhosa de ser “femenageada”, nesse momento, pela deputada Beth e sua assessoria. A iniciativa é extremamente importante para dar visibilidade para as mulheres que todos os dias, seja na academia, seja nas lutas, pelos nossos filhos, pelas nossas crianças, seja na transição sexual, enfrentado o apagamento das mulheres na história. Mulheres que movem a história, exatamente isso, a história só é movida quando existem mulheres, senão ela não sai do lugar”, disse orgulhosa Amelinha Teles.

Também foram homenageadas a bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz, o reconhecimento é também um incentivo para meninas ingressarem na ciência, a representante da Rede Nacional de Mulheres Negras no Combate à Violência, Silvana Veríssimo, Dora Colariccio, por sua atuação política relevante, em defesa da pesquisa científica no Estado de São Paulo, Liegi Légi Bariani Bernucci, professora titular da Escola Politécnica da USP e a primeira mulher a dirigir a instituição. A bióloga molecular e geneticista Mayana Zatz por seu brilhante trabalho cientifico, tendo produzido grandes avanços científicos, reconhecidos internacionalmente. Regina Chueire, bailarina e médica, em 2011, participou da instalação do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro em São José do Rio Preto, tornando-se diretora da unidade. Adriana Regina dos Santos, Fernanda Garcia dos Santos e Maria Cristina Quirino, duas mães e uma irmã, que lutam por justiça. Conhecido como o “ Massacre de Paraisópolis”, tiveram seus filhos e irmão com apenas 16 anos mortos por policias militares enquanto frequentavam um baile funk no dia 01/12/2019, desde essa data lutam para que os responsáveis sejam punidos. Assucena, cantora, compositora e atriz, foi forjando seu talento musical ouvindo, desde criança, vozes da Jovem Guarda e de cantoras da MPB. Durante a produção do disco “Mulher”, que Assucena iniciou seu processo de transição de gênero, assumindo a identidade de mulher transexual. Corpo feito política, por sua descendência judaica marroquina, em 2020 passou a integrar a comissão LGBTQ+ da Federação Israelita do Estado de São Paulo e colaborar com o Instituto Brasil-Israel. E o Bloco Ilú Obá de Min, um grupo de mulheres negras, ousadas, talentosas deu na criação do Grupo Ilú Obá de Min, que desenvolve diversos projetos, tendo como base as culturas de matriz africana, afro-brasileira e a mulher negra.