Estamos em todo lugar e… quem está vendo?

Impacto das ONGs
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Imagem: ChatGPT

 

Por Erika Sanchez Saez – Diretora Executiva do Instituto ACP e Apresentadora do Perspectiva

 

Este mês, vou dividir este espaço com um colega.
Dias atrás, recebi um e-mail do Silvio, da Fundação Esquel — fundador da casa e, sem exagero, uma enciclopédia ambulante sobre sociedade civil no Brasil.

Abro esta coluna com o texto do Silvio que chegou na minha caixa de entrada:

Li no site da Candid (EUA) uma explicação interessante sobre por que nós, organizações da sociedade civil (OSCs), estamos tão “desprotegidas”.

Segundo Cathleen Clerkin – Diretora de pesquisa da  Candid (www.candid.ogr), nos Estados Unidos, esse cenário tem se tornado mais evidente diante de ações políticas recentes — incluindo cortes significativos de financiamento. Mas há um dado que chama ainda mais atenção: apenas 5,4% dos americanos reconhecem que suas vidas são impactadas, de alguma forma, pelos serviços prestados pelas OSCs.

Isso apesar de mais da metade da população receber, direta ou indiretamente, algum tipo de atendimento dessas organizações. Ou seja: o impacto existe — mas não é percebido.

A pesquisadora, então, sugere alguns caminhos para responder a esse dado preocupante — especialmente para quem conhece a importância e a capacidade das organizações:

a) chamar atenção para o fato de que as OSCs estão profundamente integradas e atuantes no cotidiano das sociedades;

b) explicitar que muitas dessas organizações vivem hoje um verdadeiro estado de emergência, enfrentando dificuldades reais de sobrevivência;

c) deixar claro quem pode — e deve — ajudar, e de que forma;

d) tornar essa realidade pessoal, mostrando a cada cidadão como sua própria vida é atravessada pelo trabalho das OSCs;

e) enfatizar o custo de não agir.

Agora, me arrisco a dialogar com essas provocações — porque essa realidade é, se não idêntica, perigosamente parecida com a nossa.

Com uma diferença nada trivial: por aqui, a precariedade e a vulnerabilidade das organizações são, em média, muito maiores do que as das norte-americanas.

Se, por um lado, faz todo sentido chamar atenção para o quanto as OSCs estão integradas ao cotidiano das pessoas, por outro, talvez esse seja justamente o nosso maior paradoxo: estamos em todo lugar — e, ainda assim, somos invisíveis.

Nomear um “estado de emergência” também parece necessário. Mas, no nosso caso, há o risco de isso soar menos como um alerta e mais como um ruído de fundo permanente. A emergência, por aqui, não é exceção — é quase regra. E talvez o desafio seja outro: como gerar senso de urgência em um contexto já saturado de urgências?

Quando se fala em deixar claro quem pode ajudar e como, esbarramos em um ponto sensível: no Brasil, a responsabilidade pela sustentabilidade das OSCs ainda é difusa — e, muitas vezes, convenientemente deslocada. Não há consenso de que elas são importantes e necessárias — e, mesmo entre os que reconhecem isso, poucos se veem como parte ativa da sua sustentação.

Tornar isso pessoal talvez seja o ponto mais potente — e também o mais desafiador. Porque exige sair da narrativa abstrata e mostrar, com todas as letras, como a vida concreta das pessoas é atravessada por essas organizações. Não como beneficiárias distantes, mas como cidadãs que já vivem — mesmo sem perceber — em diálogo com esse campo.

E, por fim, enfatizar o custo de não fazer. Aqui, talvez a gente precise ser ainda mais direta: o custo não é apenas institucional, nem restrito às organizações — esse é o menor dos custos. O custo realmente perigoso é social, democrático e ambiental. Ele é cotidiano. Aparece no vazio deixado onde antes havia presença, cuidado e articulação, sem que ninguém possa ser claramente responsabilizado pelo seu desaparecimento.

Talvez, no fim das contas, o nosso desafio não seja apenas mostrar que as OSCs importam — mas tornar impossível não perceber isso. E essa é uma responsabilidade coletiva, inclusive das próprias OSCs. Porque, enquanto esse trabalho seguir sendo invisível, ele continuará sendo também facilmente descartável.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Kika Sanchez Saez

Comunicadora social e pesquisadora, diretora executiva do Instituto ACP. Integra o comitê gestor da Plataforma Conjunta, a iniciativa Sociedade Viva e conselhos como Funbea, Move Social, Arredondar e CONFOCO. Autora de Filantropia Colaborativa e de outras publicações sobre filantropia e terceiro setor, é formada em Comunicação Social pela ESPM e mestre em Cooperação, Globalização e Desenvolvimento pela Universidade de Barcelona.