O Brasil está formando profissionais para um mercado que já não existe?

Educação
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Imagem: ChatGPT

 

Por Daniel Grynberg

 

A inteligência artificial já mudou a forma como as empresas trabalham, contratam e exigem novas habilidades. Mas será que os estudantes de hoje, que em poucos anos estarão no mercado, estão sendo preparados para essa mudança? Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades atuais dos trabalhadores devem ser transformadas ou se tornar obsoletas até 2030, enquanto inteligência artificial, big data e letramento tecnológico aparecem entre as competências de crescimento mais acelerado.

Enquanto esse debate avança com mais força nos grandes centros, algumas iniciativas buscam ampliar o acesso à formação digital para além das capitais e da rede privada, chegando também a escolas públicas. Em Luiz Antônio, no interior de São Paulo, um centro de inovação ligado ao Inova+, programa articulado pelo Grupo +Unidos, atende 10 escolas públicas e mais de 2 mil estudantes. O espaço reúne impressoras 3D, kits de robótica, cortadoras a laser e estúdio multimídia. Os alunos trabalham com programação, prototipagem, cultura digital e fabricação digital, competências que por muito tempo ficaram mais associadas a escolas técnicas bem financiadas, cursos privados ou contextos de alto investimento nas grandes cidades.

Se as exigências do mercado já mudaram, a formação escolar também precisa mudar. A educação digital não pode continuar aparecendo como iniciativa isolada ou algo restrito a contextos de alto investimento. Ela precisa se tornar parte estruturante da formação de estudantes em diferentes territórios, inclusive na escola pública. Sem isso, o país corre o risco de ampliar a distância entre quem aprende cedo a lidar com programação, prototipagem, cultura digital e experimentação tecnológica e quem só vai encontrar esse repertório quando já estiver em desvantagem.

A escala ajuda a mostrar que Luiz Antônio não é um caso isolado. Em Minas Gerais, os Componentes de Inovação e Robótica ligados ao mesmo programa alcançam 2,4 mil escolas da rede estadual e impactam cerca de 600 mil estudantes por ano. Quando esse número entra na equação, a discussão muda de patamar. Já não se trata apenas de um projeto localizado, mas de um modelo possível para ampliar o acesso à formação tecnológica em redes públicas e fora dos centros que tradicionalmente concentram inovação, infraestrutura e capital educacional.

Num cenário em que a inteligência artificial e o letramento tecnológico passam a ocupar um espaço cada vez maior nas exigências do mercado, sai na frente quem aprende cedo a lidar com esse repertório. Por isso, essa formação não pode continuar concentrada em poucos lugares. Ela precisa chegar desde agora a mais estudantes, inclusive na escola pública e para além das capitais, para que o acesso à tecnologia deixe de ser privilégio e passe a fazer parte da preparação real de quem vai disputar espaço no mercado nos próximos anos.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Daniel Grynberg

Daniel Grynberg é diretor executivo do Grupo +Unidos, bacharel em Administração de Empresas pelo Insper e mestrado em Gestão Pública pelo Insper.