Plataformização da educação na rede estadual paulista amplia precarização e pressões sobre a saúde mental, aponta relatório

Políticas Públicas
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Relatório produzido pela Dhesca, em parceria com a Ação Educativa e com o apoio do Fundo Malala e da organização Brot für die Welt

A rede estadual de ensino de São Paulo vive um processo acelerado de reconfiguração estrutural, marcado pelo avanço da privatização e da plataformização. Esse movimento tem ampliado a presença de empresas privadas na gestão educacional e consolidado o uso de plataformas digitais como eixo estruturante do ensino, com impactos diretos na autonomia docente, na gestão democrática e nas condições de aprendizagem – afetando também o bem-estar de estudantes e profissionais da educação.

É o que aponta relatório da Plataforma de Direitos Humanos – Dhesca Brasil, elaborado a partir de visitas a escolas, entrevistas com estudantes, professoras/es e equipes de gestão escolar, além da análise de dados públicos como o Censo Escolar e o Censo Demográfico. O documento indica que as plataformas, longe de serem apenas ferramentas pedagógicas, passam a impor conteúdos, metodologias e ritmos de ensino, redefinindo o cotidiano escolar sem a devida escuta da comunidade.

“A gente observa que as plataformas deixam de ser um apoio pedagógico e passam a organizar a dinâmica da escola, interferindo diretamente no que é ensinado, em como se ensina e nas condições de trabalho dos profissionais”, afirma Cláudia Bandeira, coordenadora executiva da Plataforma Dhesca Brasil.

O relatório foi produzido pela Dhesca, em parceria com a Ação Educativa e conta com o apoio do Fundo Malala e da organização Brot für die Welt (Pão para o Mundo).

O relatório aponta que o modelo em curso combina uso intensivo de tecnologias digitais, centralização pedagógica e mecanismos de controle orientados por metas, sem a garantia da infraestrutura necessária para sua implementação. Nesse contexto, a plataformização reorganiza os processos de ensino e fragiliza relações humanas fundamentais para a experiência educativa.

A mediação tecnológica excessiva, segundo o documento, tem reduzido o contato direto entre estudantes e professores, enfraquecendo vínculos, trocas de conhecimento e espaços de escuta e debate – elementos centrais para a construção coletiva do aprendizado e para a qualidade da educação.

Entre os impactos mais evidentes está o agravamento das condições de saúde mental. Professoras e professores relatam sobrecarga, pressão constante por metas, perda de autonomia e insegurança em relação aos vínculos de trabalho. “Esse processo não acontece sem consequências: há um aumento da sobrecarga, da pressão por desempenho e uma perda progressiva de autonomia, que impacta diretamente a saúde mental de profissionais e estudantes”, analisa Bandeira.

Dados evidenciam precarização e desigualdades

Os dados do Censo Escolar reforçam o cenário de precarização docente. Em 2024, a rede estadual paulista contava com 81.473 professoras/es temporários – número que supera em 17.870 o de efetivos, que somavam 63.603. O quadro está associado ao aumento do controle sobre o trabalho pedagógico, com monitoramento do uso de plataformas, metas de desempenho e penalizações, gerando adoecimento e afastamentos.

Entre os estudantes, o relatório aponta falhas recorrentes nas plataformas, dificuldades de acesso e pressão por desempenho, o que tem gerado ansiedade, frustração e um sentimento crescente de falta de perspectiva em relação ao futuro. Muitos relatam não se enxergar sequer prestando vestibular.

O crescimento do uso de tablets também chama atenção: passou de 5% para 32% entre 2022 e 2024. A expansão ocorre em meio à terceirização de serviços e contratos com o setor privado, além de limitações estruturais nas escolas, como conectividade precária e equipamentos insuficientes. Nesse cenário, estudantes frequentemente recorrem a celulares pessoais para acessar conteúdos, evidenciando a contradição entre a imposição das plataformas e a ausência de condições adequadas – o que esvazia, na prática, a Lei nº 15.100/25.