Centro Expandido concentra 2x mais infraestrutura semafórica
ONGs em Ação
Falta de segurança nas travessias expõe desigualdade territorial em São Paulo, aponta Instituto Corrida Amiga
Nota técnica lançada no Maio Amarelo cruza dados obtidos via Lei de Acesso à Informação com bases públicas e aponta descaso com quem anda a pé na maior cidade da América Latina.
— Centro Expandido concentra o dobro da infraestrutura proporcional para pedestres em relação aos demais distritos de São Paulo
— 81,7% das viagens a pé da cidade ocorrem fora do Centro Expandido — mas apenas 62,4% da infraestrutura semafórica para pedestres está nesses territórios
Em São Paulo, cerca de 5,5 milhões de viagens são realizadas a pé todos os dias, o equivalente a 26,2% de todos os deslocamentos na cidade. Ainda assim, a infraestrutura voltada à travessia segura de quem caminha não acompanha de forma proporcional os territórios onde a mobilidade a pé é mais presente.
É o que aponta a nota técnica “Travessias seguras e desigualdade territorial em São Paulo”, lançada pelo Instituto Corrida Amiga neste Maio Amarelo. O estudo cruza dados obtidos via Lei de Acesso à Informação junto à CET-SP e à SP Regula, além de informações do Infosiga-SP, GeoSampa e Pesquisa Origem-Destino 2023.
A análise considerou os 96 distritos administrativos da cidade e identificou 13.462 registros de atropelamentos de pedestres entre 2022 e 2025, com 4.149 grupos focais semafóricos voltados à travessia (o que chamamos de “semáforos de pedestres”).
Os dados revelam de forma clara um descompasso territorial crítico. Enquanto a infraestrutura semafórica voltada à travessia de pessoas aparece mais concentrada nas áreas centrais e em eixos urbanos consolidados, os atropelamentos se distribuem por diferentes regiões de São Paulo, incluindo áreas periféricas das zonas leste, sul e norte. Ou seja: territórios onde muitas pessoas caminham no cotidiano, e onde há registros relevantes de atropelamentos, nem sempre recebem infraestrutura satisfatória para travessias seguras.
Segundo a nota, distritos como Raposo Tavares, Vila Matilde, Jabaquara, Lajeado e Jardim Helena aparecem entre os territórios com maior vulnerabilidade, considerando a combinação entre ocorrência de atropelamentos e baixa presença proporcional de semáforos de pedestre. O contraste reforça que a proteção à mobilidade a pé não chega da mesma forma ao centro e às periferias, aprofundando desigualdades no direito de atravessar a cidade com segurança.
“Todos os dias, milhões de pessoas caminham para trabalhar, estudar, acessar o transporte público ou viver a cidade. Quando a infraestrutura segura não chega de forma proporcional aos territórios onde a caminhada é mais presente, isso revela uma desigualdade concreta no direito de ir e vir. Mobilidade a pé também é mobilidade urbana.”, afirma Silvia Stuchi, do Instituto Corrida Amiga.
A nota também chama atenção para a concentração dos “semáforos inteligentes” nas regiões mais centrais da cidade. E expõe um fato alarmante: a própria CET-SP afirma que não leva em conta quem anda a pé para escolher como programar ou onde implementar estes equipamentos.
Para a Corrida Amiga, a discussão sobre inovação em mobilidade precisa considerar uma pergunta fundamental: estas novas tecnologias semafóricas protegem quem está mais exposto ao risco ou busca apenas otimizar a fluidez dos veículos sem se importar em poupar vidas?
