Onça-pintada corre risco de desaparecer da Mata Atlântica por falta de alimento, alerta estudo

Políticas Públicas
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Pesquisa aponta que a escassez de alimentos, agravada pelo desmatamento e pela caça ilegal, ameaça a sobrevivência do maior felino das Américas mesmo em áreas protegidas; confira a entrevista no Programa Brasil ODS

(Foto: Leonardo Mercon / Shutterstock.com)

Por Vitória Serrão.

A Mata Atlântica abrange cerca de 15% do território nacional e está presente em 17 estados brasileiros. A importância do bioma está relacionada ao abastecimento de água, à regulação do clima, à agricultura, à pesca, à geração de energia elétrica e ao turismo. De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica, trata-se da floresta mais devastada do Brasil: restam apenas 24% da cobertura original, sendo que somente 12,4% correspondem a florestas maduras e bem preservadas.

Nesta realidade, em estudo publicado na revista científica Global Ecology revelou que um motivo inusitado pode levar à extinção da onça-pintada (Panthera onca) na Mata Atlântica. Mesmo em áreas protegidas do bioma, a disponibilidade de animais que compõem a dieta do felino, como porcos-do-mato, catetos e cervos, está muito baixa. Essa redução é influenciada principalmente por ações humanas, como o desmatamento e a caça ilegal, que diminuem drasticamente a oferta de presas para a espécie.

Em reflexão a essa realidade, o programa Brasil ODS debate, em seu novo episódio “Baixa de presas pode levar onça pintada à extinção”. Apresentado pelo jornalista e fundador do Observatório do Terceiro Setor (OTS), Joel Scala, o bate-papo também contou com o apoio da colunista do OTS, Gabriela Chabbouh. A discussão está alinhada ao ODS 13 (Ação contra a mudança global do clima) e ODS 15 (Vida terrestre) da Agenda 2030 e se desenvolve a partir de uma pesquisa sobre como a perda de presas pode levar a onça pintada à extinção na Mata Atlântica da América do Sul.

A importância da proteção e funcionamento de todo o ecossistema

De acordo com o estudo,  a disponibilidade de presas do animal encontra-se reduzida mesmo em áreas protegidas do bioma, que abrange cerca de 15% do território brasileiro, estendendo-se por 17 Estados ao longo das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, além de áreas na Argentina e no Paraguai.

Para a pesquisadora Roberta Paolino, professora da Universidade de São Paulo (USP) com atuação em Ecologia Aplicada e Biologia da Conservação, é necessário fortalecer políticas públicas voltadas à conectividade entre áreas preservadas. Segundo ela, medidas como o plantio de corredores ecológicos e a recuperação de trechos da Mata Atlântica entre unidades de conservação são fundamentais para permitir que os animais transitem, se reproduzam e evitem o isolamento populacional, fator que pode comprometer a sobrevivência de diversas espécies.

“Quando falo dessa conexão na paisagem, destaco que ela é muito importante. Também são fundamentais políticas públicas que incentivem os produtores rurais a manterem suas Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais protegidas. Essas áreas ajudam a conservar recursos essenciais para as propriedades, como a água e a fertilidade do solo”, destaca Roberta Paolino.

De acordo com Camila Sant’Anna, doutora em Biologia e pesquisadora do BioDivA Lab (Laboratório de (Bio)Diversidade no Antropoceno), as políticas públicas voltadas à conservação da fauna precisam estar acompanhadas de ações de educação ambiental. Ela também destaca a importância de ações voltadas à convivência entre a fauna silvestre e as atividades produtivas, pois em algumas regiões há conflitos entre onças-pintadas e pecuaristas, já que o gado pode se tornar uma presa oportunista para o felino.

“Ouvi muitos relatos sobre problemas envolvendo onças e o gado. O gado acaba sendo uma presa acidental e oportunista para a onça. Por isso, é fundamental desenvolver ações de educação ambiental, mitigação de danos e conscientização junto aos agricultores e pecuaristas da região”, afirma Camila.

A pesquisadora ressalta que a falta de informação e orientação pode levar à perda de exemplares da espécie. “É importante criar estratégias para que os produtores rurais consigam conviver com a presença das onças, reduzindo os prejuízos à produção e evitando mortes por retaliação, algo que infelizmente ainda acontece em locais onde há ataques ao gado”, conclui a pesquisadora.

Acompanhe o Brasil ODS

O Brasil ODS é uma produção audiovisual do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, com o apoio da Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A iniciativa é voltada à divulgação científica e ao debate público sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.

O programa vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 15h na Rádio Brasil de Fato.

Confira o programa: