Educação digital: o caminho estrutural para reduzir o abismo tecnológico nas periferias
Educação

Por Flávia Bueno
O avanço tecnológico global redefiniu parâmetros de produtividade e inovação. No Brasil, contudo, essa mesma evolução atua como uma lente de aumento da desigualdade, que limita os acessos do público periférico. O desafio, entretanto, vai além da infraestrutura; trata-se de um descompasso de oportunidade e tempo: quando as qualificações chegam às comunidades, o “timing” de mercado para aquela inovação já passou. Além disso, as formações acessíveis a essa juventude costumam focar em áreas com baixa demanda, enquanto as carreiras do setor digital — onde a oportunidade de trabalho é real e imediata — permanecem distantes, o que acaba por desafiar a inclusão produtiva da nossa juventude. Enquanto o mercado digital ferve com novas exigências e oportunidades de carreira, o país enfrenta um cenário estrutural de desocupação que exige mais do que atenção corporativa, exige ação sistêmica.
Segundo dados da Pnad Contínua divulgados pelo IBGE, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos encerrou o ano de 2025 em 11,4%. Embora esse número represente o menor patamar desde 2012 e uma queda frente aos 12,8% registrados no trimestre anterior, o dado traduz uma realidade crítica: cerca de 1,6 milhão de brasileiros nesta faixa etária iniciaram o ano à margem do mercado de trabalho. Essa exclusão não se resume à escassez de vagas, mas reflete uma lacuna de infraestrutura e formação técnica que atinge, de forma desproporcional, os jovens de periferias. Precisamos reconhecer que o papel de iniciativas corporativas isoladas, embora louvável, ainda é insuficiente diante da magnitude de uma problemática nacional. O mercado precisa de um novo olhar sobre políticas de empregabilidade e mobilidade social.
Na Hotmart, ao analisarmos as janelas de oportunidade no mercado digital, identificamos um gap de profissionais prontos para atuar em funções que surgiram nos últimos cinco anos. Essas ocupações representam a porta de entrada mais viável para a juventude periférica, permitindo que esse público ocupe espaços em um ecossistema que está em plena expansão.
Ajustar essa equação exige foco na relevância: em vez de ofertar formações em áreas já saturadas ou que impõem barreiras de entrada desproporcionais para quem está começando, a estratégia deve priorizar o que o mercado realmente demanda agora. Ao fugir de currículos superficiais ou de profissões onde a competitividade para vagas iniciais é muito alta, abrimos caminhos reais de inserção. O foco passa a ser uma formação técnica que ofereça subsídios para que esses jovens conquistem autonomia real e assumam o protagonismo de suas trajetórias profissionais.
Nosso projeto, como primeiro pólo em Belo Horizonte e região metropolitana, nasceu para validar essa tese: transformar potencial latente em capital intelectual e, consequentemente, em geração de renda. Mais do que validar uma metodologia, nossa prioridade é a mudança efetiva na realidade desses jovens, objetivo que guia cada etapa da nossa atuação.
Ao longo de três anos, os resultados observados apontam para avanços importantes. Atualmente, alcançamos uma taxa de inserção profissional no mercado digital de 70%. Isso prova duas premissas fundamentais: a demanda do mercado existe e que o jovem periférico, quando munido das ferramentas corretas, está pronto para ocupá-la e liderá-la. O reflexo na economia local imediato: 56% dos nossos alunos registraram um incremento expressivo na renda familiar após a formação. Mais do que números, a interseccionalidade pauta nossa atuação. Nosso corpo de selecionados é composto por 90% de pessoas negras (60% de jovens pretos e 30% pardos) e 43% de mulheres.
A democratização do acesso à educação digital pressupõe a atuação em rede. É por isso que unimos forças com organizações com alto conhecimento sobre o público periférico, como o Observatório de Favelas na realização, e o Centro Cultural Lá da Favelinha no apoio local. Esse esforço conjunto permite diminuir barreiras estruturais de aprendizado. Oferecemos desde o auxílio financeiro mensal e equipamentos próprios até vivências práticas remuneradas, testes vocacionais e cursos de idiomas. No entanto, o diferencial dessa jornada de mais de 115 horas de conteúdo técnico reside na entrega de profissionais que se voluntariam para compartilhar conhecimento. Essa rede de apoio conta com a chancela institucional de João Pedro Resende, cofundador e CEO da Hotmart, e o acompanhamento de especialistas como Leonardo Leite, Gabi Salles e Micha Menezes. O aprendizado prático é reforçado por nomes como Mycah Borges, Lorena Cruz, Matheus Carmo e Marina Camelo além de mentorias e aulas conduzidas por Rafael Albertoni, Ramon Campos, Ramon Araújo, Duda Oga, Maicon Gomes, Anna Cabulosa, Lads Queiroz e Marcelo Távora.
É uma soma de esforços que transcende a relação de trabalho, focada na transferência direta de experiência de quem já vivencia a nova economia para quem está apenas começando. A força dessa abordagem ganha rosto em trajetórias de novos profissionais que veem sua renda aumentar em mais de 100% e hoje atuam na gestão de projetos para grandes estrategistas do empreendedorismo digital.
Mais do que uma iniciativa isolada, o Hotmart Decola opera como um laboratório de impacto. Ele demonstra como o rigor técnico aliado ao suporte assistencial é um caminho viável para evitar que talentos se percam no abismo digital. Os resultados alcançados até aqui são uma prova de conceito para soluções que podem ser ampliadas em escala nacional, unindo setor privado e sociedade civil em um objetivo comum.
Investir na juventude periférica deixou de ser apenas filantropia; é um imperativo estratégico para a sobrevivência e o avanço da economia brasileira.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Sobre a autora:
Flávia Bueno é Gerente Sênior de Comunicação Interna e ESG da Hotmart e uma das idealizadoras do Hotmart Decola, programa de impacto em educação focado na inserção de jovens periféricos na Creator Economy. Possui mais de 20 anos de experiência em Comunicação, com passagens por agências especializadas, como Tom Comunicação, e grandes empresas, como a Samarco. Atuou ainda no desenvolvimento de projetos de impacto social em organizações como Yunus Social Business e Escola Schumacher Brasil. É mestre em Economics for Transition pela Schumacher College/Plymouth University (Reino Unido) e MBA em Gestão Empresarial pela FGV.
